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"Eles tentaram nos enterrar, mas não sabiam que éramos sementes! "

Proverbio mexicano
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segunda-feira, 24 de agosto de 2015

A encíclica verde de Francisco

Maurício Waldman, sociólogo e Doutor em Geografia e mestre em antropologia, em artigo publicado pelo jornal O Imparcial, 16-08-2015. 
São claros os sinais do quanto o pontificado do papa Francisco volta-se para questões candentes do novo milênio. Neste particular, o argentino Jorge Mario Bergoglio é um papa cujo modo de ser e de pensar granjeou-lhe em pouco tempo efusiva popularidade.
No campo católico, no seio das múltiplas vertentes cristãs e em largos setores da opinião pública mundial, papa Francisco projetou imagem de simpatia e receptividade. Em boa parte, a estima pelo papa firmou-se por sua disposição em abrir portas para o diálogo para toda sorte de temas e dilemas do mundo atual.
Assim, além de pronunciar-se sobre litígios internacionais, debates interconfessionais e matérias doutrinárias, o papa se deteve sobre a temática ambiental, debate que como sabemos, é essencial para a continuidade da espécie humana e de todas as formas de vida.
No caso, a contribuição do pontífice materializou-se na Encíclica Laudato Si. Prontamente definida como “Encíclica Verde” do papa, de fato, longe de mera adjetivação, inúmeras são as razões que justificam tal percepção. A este respeito, uma nota matricial reporta ao próprio nome adotado pelo papa, inspirado em São Francisco de Assis, santo católico impregnado de simbolismo ecológico.
Com efeito, a pregação franciscana - marcada pela compaixão por todos os seres vivos e pelos pobres - encerra forte conexão com o ideário ambientalista. Neste sentido, a predileção do papa por Francisco de Assis configura uma pista para a compreensão da Laudato Si.
A presença da doutrina de São Francisco na grade conceitual da Laudato Si é inquestionável. A predisposição da Encíclica em defesa da integralidade da Criação - evidente no subtítulo “Sobre o cuidado da Casa Comum” - objetivamente a insere na órbita das pregações franciscanas. Ademais, não é nem um pouco fortuito que Laudato Si seja o nome de famoso cântico atribuído ao santo.
Citado no preâmbulo, o ideário de São Francisco constitui fio condutor de muitas pontuações do documento, seja em menções textuais ou como pressuposto da argumentação. No mais, o fato da Laudato Si ter redação na primeira pessoa do singular confirma os elos que conectam o papa e a Encíclica com a mensagem franciscanista.
Nesta perspectiva, Laudato Si, ao mesmo tempo em que retoma o pensamento visionário de São Francisco igualmente atesta o enorme potencial de interações possíveis entre o meio científico e as visões religiosas de mundo.
Certo é que a experiência religiosa é específica na sua forma de ser. Tendo a fé como elemento fundante, pode inclusive contrapor-se à lógica científica. Mas, embora ciência e religião tenham corporificado ao longo da história do Ocidente duas vocações em vários contextos atritando entre si, em nada isto compromete a possibilidade de objetivos comuns. 
Note-se que o papa Francisco é ele mesmo um homem com formação técnica. Na juventude, Jorge Mario Bergoglio graduou-se em química e trabalhou no Laboratório Bachmann em Buenos Aires. Portanto, não é de modo algum um cidadão que desconheça o saber científico.
Daí que Laudato Si elenca em defesa do ambiente ampla coleção de dados técnicos de excelência. Um bom exemplo do intercâmbio potencial entre ciência e religião, do saber científico como subsídio para visões de mundo filiadas à predicação religiosa.
Não seria demasiado rubricar que informação não é conhecimento e que isoladamente, este último não é sabedoria. A saber, a materialidade social é avessa a lógicas reducionistas. Existem bons cientistas e existem bons homens de fé. 
Laudato Si é neste sentido uma iniciativa ímpar. Une argumento científico e fé religiosa, voltando-se para o que há de mais essencial: a defesa dos ciclos de vida para o benefício da totalidade da Criação.
in Instituto Humanitas Unisinos, 24 de agosto de 2015.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Um problema: nossas liturgias

Boa parte dos católicos que vão às igrejas aos domingos é idosa. Podem recordar, portanto, a surpresa e o alívio que significou em sua experiência religiosa, há 50 anos, as mudanças introduzidas pelo Concílio Vaticano II na liturgia dos sacramentos e na missa: foram convidados a passarem de “assistentes” a “participantes” nos ritos e no culto. Passou-se do tempo em que se “ouvia missa” para o tempo em que se “celebra a missa”.
Com o passar do tempo, foi possível comprovar que essas reformas não foram tão completas como se esperava: os católicos continuam assistindo à missa como a um espetáculo onde eles são o público e os atores são outros: o padre, os acólitos, os ministros, os leitores, o coro... tudo distribuído em um espaço acomodado como um teatro: um público que olha a certa distância a atuação de alguns disfarçados que estão no palco.
Da Eucaristia, a grande ação de graças a Deus pelo dom da vida, mediante a experiência humana de Jesus de Nazaré, com sua vida, paixão, morte e ressurreição... resta, na realidade, bem pouco.
Uma linguagem desconhecida
Houve algumas mudanças, é verdade: passou-se do latim – que ninguém entendia – ao idioma de cada país. Mas não se mudou o nefasto sistema da leitura continuada da Bíblia. No afã de que o povo escute alguma vez toda a Bíblia, mantiveram-se na missa as leituras (Antigo e Novo Testamento, mais os Evangelhos), lendo, na sequência, do Gênesis ao Apocalipse e em um período de três anos; a ideia, se alguma vez foi boa, fracassou na prática. Com este sistema, o povo católico tem que escutar o que cabe ler nesse dia, seja qual for a experiência vital que esteja vivendo.
Ainda são poucos os pastores que abandonam esse sistema de preparação e se atrevem a buscar as leituras mais apropriadas para cada ocasião; isto exige tempo de preparação, bom critério de discernimento e capacidade de diálogo com as equipes de leigos. Também pode exigir integridade para dar explicações ao bispo que, necessariamente, defenderá o outro esquema imposto deRoma.
Mas não é a única mudança para que a missa seja realmente Eucaristia. Se, como diz a catequese, com mais poesia que segurança, se trata de uma comunidade a modo de família que celebra sua fé, alimenta sua esperança e vive a caridade, a missa deveria contar com um ambiente atraente e com sinais compreensíveis e didáticos.
Improvisações
Em um dos seus textos incisivos, mas verazes, o jornalista Raúl Gutiérrez, que se considera um cristão de base e de mentalidade ampla e pluralista, escreveu:
“A sensação que se tem com frequência ao sair de alguma missa dominical é a improvisação, como se o padre e os encarregados da cerimônia não estivessem muito convencidos da importância e da solenidade do ato.
Em poucas igrejas os fiéis são acolhidos na porta pelo padre ou por leigos que os saúdem e entreguem uma folha com os textos bíblicos que serão lidos na celebração. Como a maioria chega atrasada, é frequente que a missa inicie sem a presença de uma exígua participação, que terminará engrossando apenas durante a homilia. A improvisação da equipe encarregada da missa se percebe nos cochichos entre o dirigente e os leitores, e inclusive entre o celebrante e seus acólitos, atitudes que, somadas a deslocamentos nervosos e espalhafatosos deste pessoal em torno do altar e para a sacristia, distraem a comunidade.
Deixando de lado toda consideração ou exigência de caráter estético, cabe assinalar que a maioria dos coros maneja um estilístico repertório de músicas litúrgicas, o que explica que com frequência entoe algumas músicas que guardam pouca ou nenhuma relação com a festa que se celebra ou com o ensinamento básico do Evangelho desse domingo. Abandonar os coros, para chamá-los de alguma maneira piedosa, à boa vontade de Deus, demonstra pouca compreensão do significado da música como meio universal de comunicação, sobretudo no caso dos jovens.”
Uma liturgia que não convence
As anotações do jornalista são interessantes. Mas, lamentavelmente, deverá passar ainda muita água por debaixo da ponte antes que a liturgia católica se torne compreensível, celebrativa, compartilhada, santificadora da vida. Estamos falando da grande tarefa de evangelizar o século XXI, do compromisso com a missão permanente, de falar uma linguagem de palavras e sinais compreensíveis para o mundo de hoje. Mas não se nota nenhuma mudança pela frente; pelo contrário, vê-se muitos retornos ao passado: alguns chegam à parano ia de querer voltar ao latim, de colocar ainda mais penduricalhos nas vestimentas dos clérigos, de incorporar de modo permanente o incenso nas liturgias...
O mundo do século XXI olha para eles, ri-se e segue seu caminho buscando, quase desesperadamente, quem o acompanhe em sua caminhada pela vida. Os grandes valores do Reino de Deus, aqueles que nos humanizam, seguem sem ser descobertos, porque se quer colocar muitos trapos sobre ele.

in: Instituto Humanitas Unisinos, 31 de julho de 2015
A análise é de José Agustín Cabré e publicada por Religión Digital, 29-0.
A tradução é de André Langer.

domingo, 12 de julho de 2015

“altar do milho” em fotos










Altar feito com milho receberá missa do papa no Paraguai

Estima-se que até dois milhões de fiéis estarão presentes no parque Ñu Guazu, na região de Assunção, no próximo domingo (12), para acompanhar a missa do papa Francisco, seu principal ato litúrgico no Paraguai.
Para receber visitantes e pontífice, os paraguaios capricharam na ornamentação do altar em que a missa será realizada (a partir das 10 horas do domingo). Ele é inteiramente decorado com espigas e grãos de milho, abóboras, coco e frutos da estação -- por isso foi prontamente apelidado de “altar do milho”.
O projeto é monumental: são pelo menos 25 metros de altura, com uma imponente cruz ao alto. Cerca de 32 mil espigas de milho foram usadas, além de 200 mil pequenos cocos.Esta ornamentação faz parte das tradições da Semana Santa em Tañarandy, localidade nas proximidades da cidade de Santo Ignácio, na Província de Missiones, um antigo reduto jesuíta no Paraguai, explica a Rádio Vaticano.
Quem elaborou o projeto foi o artista Koki Ruiz. Ele planejou toda a montagem em Santo Ignácio (que fica a 226 quilômetros da capital) e o altar teve de ser transportado em três partes até o Parque de Ñu Guazú.
De acordo com a Rádio vaticano, o altar sustentável evoca os frutos da natureza, em sintonia com a encíclica “Laudato si”, publicada há poucas semanas por Francisco e dedicada à relação do homem com a Criação. A obra também evoca a cultura guarani.
Após a missa, os frutos e grãos serão doados a instituições de caridade.
in: 
Gazeta do Povo


sexta-feira, 10 de julho de 2015

Discurso do Papa Francisco aos Movimentos Populares


Santa Cruz de la Sierra (RV) -  No final da tarde desta quinta-feira o Papa Francisco concluiu o II Encontro dos Movimento Populares. Eis a íntegra do discurso preparado pelo Pontífice:

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Boa tarde a todos!

Há alguns meses, reunimo-nos em Roma e não esqueço aquele nosso primeiro encontro. Durante este tempo, trouxe-vos no meu coração e nas minhas orações. Alegra-me vê-vos de novo aqui, debatendo os melhores caminhos para superar as graves situações de injustiça que padecem os excluídos em todo o mundo. Obrigado Senhor Presidente Evo Morales, por sustentar tão decididamente este Encontro.
Então, em Roma, senti algo muito belo: fraternidade, paixão, entrega, sede de justiça. Hoje, em Santa Cruz de la Sierra, volto a sentir o mesmo. Obrigado! Soube também, pelo Pontifício Conselho «Justiça e Paz» presidido pelo Cardeal Turkson, que são muitos na Igreja aqueles que se sentem mais próximos dos movimentos populares. Muito me alegro por isso! Ver a Igreja com as portas abertas a todos vós, que se envolve, acompanha e consegue sistematizar em cada diocese, em cada comissão «Justiça e Paz», uma colaboração real, permanente e comprometida com os movimentos populares. Convido-vos a todos, bispos, sacerdotes e leigos, juntamente com as organizações sociais das periferias urbanas e rurais a aprofundar este encontro.

Deus permitiu que nos voltássemos a ver hoje. A Bíblia lembra-nos que Deus escuta o clamor do seu povo e também eu quero voltar a unir a minha voz à vossa: terra, teto e trabalho para todos os nossos irmãos e irmãs. Disse-o e repito: são direitos sagrados. Vale a pena, vale a pena lutar por eles. Que o clamor dos excluídos seja escutado na América Latina e em toda a terra.

1.    Comecemos por reconhecer que precisamos duma mudança. Quero esclarecer, para que não haja mal-entendidos, que falo dos problemas comuns de todos os latino-americanos e, em geral, de toda a humanidade. Problemas, que têm uma matriz global e que atualmente nenhum Estado pode resolver por si mesmo. Feito este esclarecimento, proponho que nos coloquemos estas perguntas:
- Reconhecemos nós que as coisas não andam bem num mundo onde há tantos camponeses sem terra, tantas famílias sem teto, tantos trabalhadores sem direitos, tantas pessoas feridas na sua dignidade?
- Reconhecemos nós que as coisas não andam bem, quando explodem tantas guerras sem sentido e a violência fratricida se apodera até dos nossos bairros? Reconhecemos nós que as coisas não andam bem, quando o solo, a água, o ar e todos os seres da criação estão sob ameaça constante?
Então digamo-lo sem medo: Precisamos e queremos uma mudança.

Nas vossas cartas e nos nossos encontros, relataram-me as múltiplas exclusões e injustiças que sofrem em cada atividade laboral, em cada bairro, em cada território. São tantas e tão variadas como muitas e diferentes são as formas próprias de as enfrentar. Mas há um elo invisível que une cada uma destas exclusões: conseguimos nós reconhecê-lo? É que não se trata de questões isoladas. Pergunto-me se somos capazes de reconhecer que estas realidades destrutivas correspondem a um sistema que se tornou global. Reconhecemos nós que este sistema impôs a lógica do lucro a todo o custo, sem pensar na exclusão social nem na destruição da natureza?

Se é assim – insisto – digamo-lo sem medo: Queremos uma mudança, uma mudança real, uma mudança de estruturas. Este sistema é insuportável: não o suportam os camponeses, não o suportam os trabalhadores, não o suportam as comunidades, não o suportam os povos.... E nem sequer o suporta a Terra, a irmã Mãe Terra, como dizia São Francisco.

Queremos uma mudança nas nossas vidas, nos nossos bairros, no vilarejo, na nossa realidade mais próxima; mas uma mudança que toque também o mundo inteiro, porque hoje a interdependência global requer respostas globais para os problemas locais. A globalização da esperança, que nasce dos povos e cresce entre os pobres, deve substituir esta globalização da exclusão e da indiferença.

Hoje quero refletir convosco sobre a mudança que queremos e precisamos. Como sabem, recentemente escrevi sobre os problemas da mudança climática. Mas, desta vez, quero falar duma mudança noutro sentido. Uma mudança positiva, uma mudança que nos faça bem, uma mudança – poderíamos dizer – redentora. Porque é dela que precisamos. Sei que buscais uma mudança e não apenas vós: nos diferentes encontros, nas várias viagens, verifiquei que há uma expectativa, uma busca forte, um anseio de mudança em todos os povos do mundo. Mesmo dentro da minoria cada vez mais reduzida que pensa sair beneficiada deste sistema, reina a insatisfação e sobretudo a tristeza. Muitos esperam uma mudança que os liberte desta tristeza individualista que escraviza.

O tempo, irmãos e irmãs, o tempo parece exaurir-se; já não nos contentamos com lutar entre nós, mas chegamos até a assanhar-nos contra a nossa casa. Hoje, a comunidade científica aceita aquilo que os pobres já há muito denunciam: estão a produzir-se danos talvez irreversíveis no ecossistema. Está-se a castigar a terra, os povos e as pessoas de forma quase selvagem. E por trás de tanto sofrimento, tanta morte e destruição, sente-se o cheiro daquilo que Basílio de Cesareia chamava «o esterco do diabo»: reina a ambição desenfreada de dinheiro. O serviço ao bem comum fica em segundo plano. Quando o capital se torna um ídolo e dirige as opções dos seres humanos, quando a avidez do dinheiro domina todo o sistema socioeconômico, arruína a sociedade, condena o homem, transforma-o em escravo, destrói a fraternidade inter-humana, faz lutar povo contra povo e até, como vemos, põe em risco esta nossa casa comum.
Não quero alongar-me na descrição dos efeitos malignos desta ditadura subtil: vós conhecei-los! Mas também não basta assinalar as causas estruturais do drama social e ambiental contemporâneo. Sofremos de um certo excesso de diagnóstico, que às vezes nos leva a um pessimismo charlatão ou a rejubilar com o negativo. Ao ver a crônica negra de cada dia, pensamos que não haja nada que se possa fazer para além de cuidar de nós mesmos e do pequeno círculo da família e dos amigos.

Que posso fazer eu, recolhedor de papelão, catador de lixo, limpador, reciclador, frente a tantos problemas, se mal ganho para comer? Que posso fazer eu, artesão, vendedor ambulante, carregador, trabalhador irregular, se não tenho sequer direitos laborais? Que posso fazer eu, camponesa, indígena, pescador que dificilmente consigo resistir à propagação das grandes corporações? Que posso fazer eu, a partir da minha comunidade, do meu barraco, da minha povoação, da minha favela, quando sou diariamente discriminado e marginalizado? Que pode fazer aquele estudante, aquele jovem, aquele militante, aquele missionário que atravessa as favelas e os paradeiros com o coração cheio de sonhos, mas quase sem nenhuma solução para os meus problemas? Muito! Podem fazer muito. Vós, os mais humildes, os explorados, os pobres e excluídos, podeis e fazeis muito. Atrevo-me a dizer que o futuro da humanidade está, em grande medida, nas vossas mãos, na vossa capacidade de vos organizar e promover alternativas criativas na busca diária dos “3 T” (trabalho, teto, terra), e também na vossa participação como protagonistas nos grandes processos de mudança nacionais, regionais e mundiais. Não se acanhem!

2.    Vós sois semeadores de mudança. Aqui, na Bolívia, ouvi uma frase de que gosto muito: «processo de mudança». A mudança concebida, não como algo que um dia chegará porque se impôs esta ou aquela opção política ou porque se estabeleceu esta ou aquela estrutura social. Sabemos, amargamente, que uma mudança de estruturas, que não seja acompanhada por uma conversão sincera das atitudes e do coração, acaba a longo ou curto prazo por burocratizar-se, corromper-se e sucumbir. Por isso gosto tanto da imagem do processo, onde a paixão por semear, por regar serenamente o que outros verão florescer, substitui a ansiedade de ocupar todos os espaços de poder disponíveis e de ver resultados imediatos. Cada um de nós é apenas uma parte de um todo complexo e diversificado interagindo no tempo: povos que lutam por uma afirmação, por um destino, por viver com dignidade, por «viver bem».

Vós, a partir dos movimentos populares, assumis as tarefas comuns motivados pelo amor fraterno, que se rebela contra a injustiça social. Quando olhamos o rosto dos que sofrem, o rosto do camponês ameaçado, do trabalhador excluído, do indígena oprimido, da família sem teto, do imigrante perseguido, do jovem desempregado, da criança explorada, da mãe que perdeu o seu filho num tiroteio porque o bairro foi tomado pelo narcotráfico, do pai que perdeu a sua filha porque foi sujeita à escravidão; quando recordamos estes «rostos e nomes» estremecem-nos as entranhas diante de tanto sofrimento e comovemo-nos…. Porque «vimos e ouvimos», não a fria estatística, mas as feridas da humanidade dolorida, as nossas feridas, a nossa carne. Isto é muito diferente da teorização abstrata ou da indignação elegante. Isto comove-nos, move-nos e procuramos o outro para nos movermos juntos. Esta emoção feita ação comunitária é incompreensível apenas com a razão: tem um plus de sentido que só os povos entendem e que confere a sua mística particular aos verdadeiros movimentos populares.

Vós viveis, cada dia, imersos na crueza da tormenta humana. Falastes-me das vossas causas, partilhastes comigo as vossas lutas. E agradeço-vos. Queridos irmãos, muitas vezes trabalhais no insignificante, no que aparece ao vosso alcance, na realidade injusta que vos foi imposta e a que não vos resignais opondo uma resistência ativa ao sistema idólatra que exclui, degrada e mata. Vi-vos trabalhar incansavelmente pela terra e a agricultura camponesa, pelos vossos territórios e comunidades, pela dignificação da economia popular, pela integração urbana das vossas favelas e agrupamentos, pela auto-construção de moradias e o desenvolvimento das infra-estruturas do bairro e em muitas atividades comunitárias que tendem à reafirmação de algo tão elementar e inegavelmente necessário como o direito aos “3 T”: terra, teto e trabalho.

Este apego ao bairro, à terra, ao território, à profissão, à corporação, este reconhecer-se no rosto do outro, esta proximidade no dia-a-dia, com as suas misérias e os seus heroísmos quotidianos, é o que permite realizar o mandamento do amor, não a partir de ideias ou conceitos, mas a partir do genuíno encontro entre pessoas, porque não se amam os conceitos nem as ideias; amam-se as pessoas. A entrega, a verdadeira entrega nasce do amor pelos homens e mulheres, crianças e idosos, vilarejos e comunidades... Rostos e nomes que enchem o coração. A partir destas sementes de esperança semeadas pacientemente nas periferias esquecidas do planeta, destes rebentos de ternura que lutam por subsistir na escuridão da exclusão, crescerão grandes árvores, surgirão bosques densos de esperança para oxigenar este mundo.
Vejo, com alegria, que trabalhais no que aparece ao vosso alcance, cuidando dos rebentos; mas, ao mesmo tempo, com uma perspectiva mais ampla, protegendo o arvoredo. Trabalhais numa perspectiva que não só aborda a realidade setorial que cada um de vós representa e na qual felizmente está enraizada, mas procurais também resolver, na sua raiz, os problemas gerais de pobreza, desigualdade e exclusão.

Felicito-vos por isso. É imprescindível que, a par da reivindicação dos seus legítimos direitos, os povos e as suas organizações sociais construam uma alternativa humana à globalização exclusiva. Vós sois semeadores de mudança. Que Deus vos dê coragem, alegria, perseverança e paixão para continuar a semear. Podeis ter a certeza de que, mais cedo ou mais tarde, vamos ver os frutos. Peço aos dirigentes: sede criativos e nunca percais o apego às coisas próximas, porque o pai da mentira sabe usurpar palavras nobres, promover modas intelectuais e adotar posições ideológicas, mas se construirdes sobre bases sólidas, sobre as necessidades reais e a experiência viva dos vossos irmãos, dos camponeses e indígenas, dos trabalhadores excluídos e famílias marginalizadas, de certeza não vos equivocareis.

A Igreja não pode nem deve ser alheia a este processo no anúncio do Evangelho. Muitos sacerdotes e agentes pastorais realizam uma tarefa imensa acompanhando e promovendo os excluídos em todo o mundo, ao lado de cooperativas, dando impulso a empreendimentos, construindo casas, trabalhando abnegadamente nas áreas da saúde, desporto e educação. Estou convencido de que a cooperação amistosa com os movimentos populares pode robustecer estes esforços e fortalecer os processos de mudança.
No coração, tenhamos sempre a Virgem Maria, uma jovem humilde duma pequena aldeia perdida na periferia dum grande império, uma mãe sem teto que soube transformar um curral de animais na casa de Jesus com uns pobres paninhos e uma montanha de ternura. Maria é sinal de esperança para os povos que sofrem dores de parto até que brote a justiça. Rezo à Virgem do Carmo, padroeira da Bolívia, para fazer com que este nosso Encontro seja fermento de mudança.

3.    Por último, gostaria que refletíssemos, juntos, sobre algumas tarefas importantes neste momento  histórico, pois queremos uma mudança positiva em benefício de todos os nossos irmãos e irmãs. Disto estamos certos! Queremos uma mudança que se enriqueça com o trabalho conjunto de governos, movimentos populares e outras forças sociais. Sabemos isto também! Mas não é tão fácil definir o conteúdo da mudança, ou seja, o programa social que reflita este projeto de fraternidade e justiça que esperamos. Neste sentido, não esperem uma receita deste Papa. Nem o Papa nem a Igreja têm o monopólio da interpretação da realidade social e da proposta de soluções para os problemas contemporâneos. Atrever-me-ia a dizer que não existe uma receita. A história é construída pelas gerações que se vão sucedendo no horizonte de povos que avançam individuando o próprio caminho e respeitando os valores que Deus colocou no coração.
Gostaria, no entanto, de vos propor três grandes tarefas que requerem a decisiva contribuição do conjunto dos movimentos populares:

3.1  A primeira tarefa é pôr a economia ao serviço dos povos.
Os seres humanos e a natureza não devem estar ao serviço do dinheiro. Digamos NÃO a uma economia de exclusão e desigualdade, onde o dinheiro reina em vez de servir. Esta economia mata. Esta economia exclui. Esta economia destrói a Mãe Terra.

A economia não deveria ser um mecanismo de acumulação, mas a condigna administração da casa comum. Isto implica cuidar zelosamente da casa e distribuir adequadamente os bens entre todos. A sua finalidade não é unicamente garantir o alimento ou um «decoroso sustento». Não é sequer, embora fosse já um grande passo, garantir o acesso aos “3 T” pelos quais combateis. Uma economia verdadeiramente comunitária – poder-se-ia dizer, uma economia de inspiração cristã – deve garantir aos povos dignidade, «prosperidade e civilização em seus múltiplos aspectos».  Isto envolve os “3 T” mas também acesso à educação, à saúde, à inovação, às manifestações artísticas e culturais, à comunicação, ao desporto e à recreação. Uma economia justa deve criar as condições para que cada pessoa possa gozar duma infância sem privações, desenvolver os seus talentos durante a juventude, trabalhar com plenos direitos durante os anos de atividade e ter acesso a uma digna aposentação na velhice. É uma economia onde o ser humano, em harmonia com a natureza, estrutura todo o sistema de produção e distribuição de tal modo que as capacidades e necessidades de cada um encontrem um apoio adequado no ser social. Vós – e outros povos também – resumis este anseio duma maneira simples e bela: «viver bem».

Esta economia é não apenas desejável e necessária, mas também possível. Não é uma utopia, nem uma fantasia. É uma perspectiva extremamente realista. Podemos consegui-la. Os recursos disponíveis no mundo, fruto do trabalho intergeneracional dos povos e dos dons da criação, são mais que suficientes para o desenvolvimento integral de «todos os homens e do homem todo».  Mas o problema é outro. Existe um sistema com outros objetivos. Um sistema que, apesar de acelerar irresponsavelmente os ritmos da produção, apesar de implementar métodos na indústria e na agricultura que sacrificam a Mãe Terra na ara da «produtividade», continua a negar a milhares de milhões de irmãos os mais elementares direitos econômicos, sociais e culturais. Este sistema atenta contra o projeto de Jesus.

A justa distribuição dos frutos da terra e do trabalho humano não é mera filantropia. É um dever moral. Para os cristãos, o encargo é ainda mais forte: é um mandamento. Trata-se de devolver aos pobres e às pessoas o que lhes pertence. O destino universal dos bens não é um adorno retórico da doutrina social da Igreja. É uma realidade anterior à propriedade privada. A propriedade, sobretudo quando afeta os recursos naturais, deve estar sempre em função das necessidades das pessoas. E estas necessidades não se limitam ao consumo. Não basta deixar cair algumas gotas, quando os pobres agitam este copo que, por si só, nunca derrama. Os planos de assistência que acodem a certas emergências deveriam ser pensados apenas como respostas transitórias. Nunca poderão substituir a verdadeira inclusão: a inclusão que dá o trabalho digno, livre, criativo, participativo e solidário.

Neste caminho, os movimentos populares têm um papel essencial, não apenas exigindo e reclamando, mas fundamentalmente criando. Vós sois poetas sociais: criadores de trabalho, construtores de casas, produtores de alimentos, sobretudo para os descartados pelo mercado global.
Conheci de perto várias experiências, onde os trabalhadores, unidos em cooperativas e outras formas de organização comunitária, conseguiram criar trabalho onde só havia sobras da economia idólatra. As empresas recuperadas, as feiras francas e as cooperativas de catadores de papelão são exemplos desta economia popular que surge da exclusão e que pouco a pouco, com esforço e paciência, adopta formas solidárias que a dignificam. Quão diferente é isto do facto de os descartados pelo mercado formal serem explorados como escravos!

Os governos que assumem como própria a tarefa de colocar a economia ao serviço das pessoas devem promover o fortalecimento, melhoria, coordenação e expansão destas formas de economia popular e produção comunitária. Isto implica melhorar os processos de trabalho, prover de adequadas infra-estruturas e garantir plenos direitos aos trabalhadores deste sector alternativo. Quando Estado e organizações sociais assumem, juntos, a missão dos “3 T”, ativam-se os princípios de solidariedade e subsidiariedade que permitem construir o bem comum numa democracia plena e participativa.
3.2  A segunda tarefa é unir os nossos povos no caminho da paz e da justiça.

Os povos do mundo querem ser artífices do seu próprio destino. Querem caminhar em paz para a justiça. Não querem tutelas nem interferências, onde o mais forte subordina o mais fraco. Querem que a sua cultura, o seu idioma, os seus processos sociais e tradições religiosas sejam respeitados. Nenhum poder efetivamente constituído tem direito de privar os países pobres do pleno exercício da sua soberania e, quando o fazem, vemos novas formas de colonialismo que afetam seriamente as possibilidades de paz e justiça, porque «a paz funda-se não só no respeito pelos direitos do homem, mas também no respeito pelo direito dos povos, sobretudo o direito à independência». 

Os povos da América Latina alcançaram, com um parto doloroso, a sua independência política e, desde então, viveram já quase dois séculos duma história dramática e cheia de contradições procurando conquistar uma independência plena.

Nos últimos anos, depois de tantos mal-entendidos, muitos países latino-americanos viram crescer a fraternidade entre os seus povos. Os governos da região juntaram seus esforços para fazer respeitar a sua soberania, a de cada país e a da região como um todo que, de forma muito bela como faziam os nossos antepassados, chamam a «Pátria Grande». Peço-vos, irmãos e irmãs dos movimentos populares, que cuidem e façam crescer esta unidade. É necessário manter a unidade contra toda a tentativa de divisão, para que a região cresça em paz e justiça.

Apesar destes avanços, ainda subsistem fatores que atentam contra este desenvolvimento humano equitativo e coarctam a soberania dos países da «Pátria Grande» e doutras latitudes do Planeta. O novo colonialismo assume variadas fisionomias. Às vezes, é o poder anônimo do ídolo dinheiro: corporações, credores, alguns tratados denominados «de livre comércio» e a imposição de medidas de «austeridade» que sempre apertam o cinto dos trabalhadores e dos pobres. Os bispos latino-americanos denunciam-no muito claramente, no documento de Aparecida, quando afirmam que «as instituições financeiras e as empresas transnacionais se fortalecem ao ponto de subordinar as economias locais, sobretudo debilitando os Estados, que aparecem cada vez mais impotentes para levar adiante projetos de desenvolvimento a serviço de suas populações».  Noutras ocasiões, sob o nobre disfarce da luta contra a corrupção, o narcotráfico ou o terrorismo – graves males dos nossos tempos que requerem uma ação internacional coordenada – vemos que se impõem aos Estados medidas que pouco têm a ver com a resolução de tais problemáticas e muitas vezes tornam as coisas piores.

Da mesma forma, a concentração monopolista dos meios de comunicação social que pretende impor padrões alienantes de consumo e certa uniformidade cultural é outra das formas que adota o novo colonialismo. É o colonialismo ideológico. Como dizem os bispos da África, muitas vezes pretende-se converter os países pobres em «peças de um mecanismo, partes de uma engrenagem gigante».
Temos de reconhecer que nenhum dos graves problemas da humanidade pode ser resolvido sem a interação dos Estados e dos povos a nível internacional. Qualquer ato de envergadura realizado numa parte do Planeta repercute-se no todo em termos econômicos, ecológicos, sociais e culturais. Até o crime e a violência se globalizaram. Por isso, nenhum governo pode atuar à margem duma responsabilidade comum. Se queremos realmente uma mudança positiva, temos de assumir humildemente a nossa interdependência. Mas interação não é sinônimo de imposição, não é subordinação de uns em função dos interesses dos outros. O colonialismo, novo e velho, que reduz os países pobres a meros fornecedores de matérias-primas e mão de obra barata, gera violência, miséria, emigrações forçadas e todos os males que vêm juntos... precisamente porque, ao pôr a periferia em função do centro, nega-lhes o direito a um desenvolvimento integral. Isto é desigualdade, e a desigualdade gera violência que nenhum recurso policial, militar ou dos serviços secretos será capaz de deter.

Digamos NÃO às velhas e novas formas de colonialismo. Digamos SIM ao encontro entre povos e culturas. Bem-aventurados os que trabalham pela paz.

Aqui quero deter-me num tema importante. É que alguém poderá, com direito, dizer: «Quando o Papa fala de colonialismo, esquece-se de certas ações da Igreja». Com pesar, vo-lo digo: Cometeram-se muitos e graves pecados contra os povos nativos da América, em nome de Deus. Reconheceram-no os meus antecessores, afirmou-o o CELAM e quero reafirmá-lo eu também. Como São João Paulo II, peço que a Igreja «se ajoelhe diante de Deus e implore o perdão para os pecados passados e presentes dos seus filhos».  E eu quero dizer-vos, quero ser muito claro, como foi São João Paulo II: Peço humildemente perdão, não só para as ofensas da própria Igreja, mas também para os crimes contra os povos nativos durante a chamada conquista da América. E junto, junto a este pedido de perdão e para ser justo, também quero que recordemos os milhares de sacerdotes, bispos, que se opuseram fortemente à lógica da espada, com a força da cruz. Houve pecado, houve pecado e abundante, e por isto pedimos perdão, e peço perdão, porém também alí, onde teve pecado, onde abundou o pecado, superabundou a graça através destes homens que defenderam a justiça dos povos originários.

Peço-vos também a todos, crentes e não crentes, que se recordem de tantos bispos, sacerdotes e leigos que pregaram e pregam a boa nova de Jesus com coragem e mansidão, respeito e em paz – disse bispos, sacerdotes e leigos, mas não quero esquecer das religiosas que anonimamente percorrem nossos bairros pobres levando uma mensagem de paz e de bem -  que, na sua passagem por esta vida, deixaram impressionantes obras de promoção humana e de amor, pondo-se muitas vezes ao lado dos povos indígenas ou acompanhando os próprios movimentos populares mesmo até ao martírio. A Igreja, os seus filhos e filhas, fazem parte da identidade dos povos na América Latina. Identidade que alguns poderes, tanto aqui como noutros países, se empenham por apagar, talvez porque a nossa fé é revolucionária, porque a nossa fé desafia a tirania do ídolo dinheiro. Hoje vemos, com horror, como no Médio Oriente e noutros lugares do mundo se persegue, tortura, assassina a muitos irmãos nossos pela sua fé em Jesus. Isto também devemos denunciá-lo: dentro desta terceira guerra mundial em parcelas que vivemos, há uma espécie de genocídio em curso que deve cessar.

Aos irmãos e irmãs do movimento indígena latino-americano, deixem-me expressar a minha mais profunda estima e felicitá-los por procurarem a conjugação dos seus povos e culturas segundo uma forma de convivência, a que eu chamo poliédrica, onde as partes conservam a sua identidade construindo, juntas, uma pluralidade que não atenta contra a unidade, mas fortalece-a. A sua procura desta interculturalidade que conjuga a reafirmação dos direitos dos povos nativos com o respeito à integridade territorial dos Estados enriquece-nos e fortalece-nos a todos.

3.3  A terceira tarefa, e talvez a mais importante que devemos assumir hoje, é defender a Mãe Terra.
A casa comum de todos nós está a ser saqueada, devastada, vexada impunemente. A covardia em defendê-la é um pecado grave. Vemos, com crescente decepção, sucederem-se uma após outra cimeiras internacionais sem qualquer resultado importante. Existe um claro, definitivo e inadiável imperativo ético de atuar que não está a ser cumprido. Não se pode permitir que certos interesses – que são globais, mas não universais – se imponham, submetendo Estados e organismos internacionais, e continuem a destruir a criação. Os povos e os seus movimentos são chamados a clamar, mobilizar-se, exigir – pacífica mas tenazmente – a adoção urgente de medidas apropriadas. Peço-vos, em nome de Deus, que defendais a Mãe Terra. Sobre este assunto, expressei-me devidamente na carta encíclica Laudato si’.

4. Para concluir, quero dizer-lhes novamente: O futuro da humanidade não está unicamente nas mãos dos grandes dirigentes, das grandes potências e das elites. Está fundamentalmente nas mãos dos povos; na sua capacidade de se organizarem e também nas suas mãos que regem, com humildade e convicção, este processo de mudança. Estou convosco. Digamos juntos do fundo do coração: nenhuma família sem teto, nenhum camponês sem-terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhum povo sem soberania, nenhuma pessoa sem dignidade, nenhuma criança sem infância, nenhum jovem sem possibilidades, nenhum idoso sem uma veneranda velhice. Continuai com a vossa luta e, por favor, cuidai bem da Mãe Terra. Rezo por vós, rezo convosco e quero pedir a nosso Pai Deus que vos acompanhe e abençoe, que vos cumule do seu amor e defenda no caminho concedendo-vos, em abundância, aquela força que nos mantém de pé: esta força é a esperança, a esperança que não decepciona. Obrigado! E peço-vos, por favor, que rezeis por mim.

Noticiário da Rádio Vaticano 10 de julho de 2015


quarta-feira, 8 de julho de 2015

Francisco sacode esta Igreja, que está enferrujada - Tus hermanos de la Iglesia de a pie.

Assim como Francisco de Assis pede para fazer, recebemos-lhe com alegria gritando... Que o Senhor te dê a paz!!! Volte à terra latino-americana, irmão, mas você não é mais o Bispo Bergoglio... o jesuíta argentino, boa gente, pobre, intenso em tudo, muito conservador em coisas de moral, grande cozinheiro...
Temos visto (às vezes chorando de alegria), nestes anos, como tem se deixado, mansamente, tocar pelo Espírito, sim, assombrados, emocionados, ouvimos você clamar e acalmar, desafiar e estender pontes, ir a Lampedusa... no mesmo plano de Jesus durante toda a sua vida, irmão fiel dos Anawim... os pobres de Deus.
Tem chamado os poderosos deste mundo à conversão e os humildes à criatividade (sabe? aqui no Equador, desde sempre, os ricos se apropriaram das melhores delícias do mar e as tornaram exclusivas... proibidas. Os simples pescadores e mais simples trabalhadores, trabalhadoras, transformaram o peixe mais desprezado em um guisado tão delicioso que, hoje, é símbolo nacional, sendo disputado entre as “grandes empresas” da “alta cozinha” e o exaltam sem parar... mas se esquecem de que nasceu nas caçarolas de barro e nas latas rachadas dos mais pobres e esquecidos).
A revolução de Deus, que é coisa de operários e lavradores, é o que anda pregando, irmão, com alegria, ternura e mão firme. Lamentamos que este tempo entre nós seja tão curtinho, mas, bom, nós entendemos, que lindo seria se pudesse andar e olhar o que as missionárias e os missionários tecem em seu silêncio, a cada dia, silêncio relativo, pois Jesus grita cada vez mais alto, grita-nos.
Vão lhe mostrar muros e muros, templos e templos, museus e palácios... multidões, enormes multidões. Sabe? Há aqueles que as multidões não assustam, porque são irmãos e irmãs da dor, do cansaço, da fome e da esperança de cada um como um mundo único, sem horário, nem grade... nem “direito canônico”, o tempo todo. Esperamos queJesus, que oxalá tenha conseguido “um espaço” para poder te ver, consiga fazer um sinal para você no meio da imensa massa.
Sabemos que você o sentirá e “nos dará”, dizendo na fala coloquial do povo de Quito, seu recado de paz e rebeldia. Ouve, sacode esta Igreja que está enferrujada, falamos isto a sério, fechada em seus templos magníficos e cômodos conventos, conservando com paixão “os espaços sagrados”, as propriedades, em uma pregação quase “esotérica” em razão da distância da vida diária das pessoas. Falam de “família” e não fazem ideia de quanto custa preparar um prato de sopa, nem da renda do mês. Dão “altas lições de amor familiar”, mas são um “clube de eleitos”, segregam, assim como os fariseus, os “impuros e desencaminhados” e proclamam um Deus que pouco tem a ver com aquele que anda sem nada e tudo ao mesmo tempo. Um velho missionário dizia com ironia... “antes se clamava: África ou morte... hoje é ao contrário: Toyota ou morte...”.
Que gente está sendo formada em uma Igreja fechada e monetariamente poderosa? Vão lhe dizer que as vocações aumentam, os seminários estão cheios e que tudo vai muito bem, não é certo. O ceticismo atinge profundamente os jovens, a droga é uma praga que parece incontrolável, o individualismo e o “êxito” são os padrões a seguir. E diante disto? Como pode uma Igreja que se dedica a cuidar de museus, exigir que os outros se convertam? Não é que o conforto seja ruim, mas quando é modelo e fim... é mortal. Uma Igreja clerical até a ira, que considera o Povo de Deus como um negócio. Como pode ser fermento do Reino? Que pobreza – não evangélica – a maioria dos bispos exibe hoje: gerentes mais do que pastores, inquisidores mais do que irmãos, banqueiros mais do que missionários. Dói, o “mérito” principal para fazer parte desse grupo “exclusivo” parece ser participar do círculo que rodeia esse obscuro embaixador do Estado vaticano.
Sim, sim, estamos ressaltando fortemente o negativo, há também muitíssimas, inumeráveis coisas boas. No entanto, o agradável sempre encontra um elogio e do outro ninguém quer falar. Sacode a sua Igreja... Bispo de Roma. E, pelo Amor de Deus, leva esse Núncio que é apenas fonte de mil dores.
Você chega a um Equador em crise, um país que há oito anos esteve doente terminal, hoje ainda caminha muito delicado, ainda não pode se valer por si só, as pragas ameaçam o seu corpo estragado pelas misérias acumuladas por séculos. E é preciso dizer aos médicos que o atendam, que compreendam que é preciso levá-lo ao sol, para que faça exercícios, recupere sua força popular, que estão sendo drogadas com receitas tecnocráticas. Que se valha dos braços potentes da organização popular e das pernas das novas gerações, que não são apenas os “porta-bandeiras”, “os exitosos”, “os vencedores”, parece que esses médicos que fazem o tratamento são uns “iluminados” que tudo solucionam a partir dos escritórios e dos manuais.
Aqueles que “curam por correspondência” e possuem um computador no lugar do coração. Há, custa dizer, uma dupla moral em alguns dos mais altos funcionários equatorianos, pois a corrupção está presente e é muito forte. Centenas de milhares de jovens estão sendo segregados sem contar com uma oportunidade séria de se preparar, não apenas nas universidades, mas nos escritórios técnicos que lhes assegurem futuro. Há dívidas impostergáveis na partilha da terra e na defesa da natureza. É um governo sem capacidade de organização popular permanente. Porém, em essência é o melhor que o Equador já teve nos últimos 50 anos.
Por outro lado, estão os responsáveis de sua prostração secular, os que lhe adoeceram até quase matá-lo. Querem voltar ao poder para comê-lo vivo, destino de antropófagos: banqueiros, contrabandistas e latifundiários que ainda exalam um cheiro do “tempo da colônia”, proprietários das universidades mais caras e elitistas, prefeitos fascistas, falsos revolucionários de “esquerda”, caciques indígenas e experimentados “líderes sindicais”. Toda a peste que levou o país até a beira da dissolução em 1999, hoje, retorna sem vergonha, mas eloquentemente levantando bandeiras obscuras.
Estão semeando violência e cizânia entre as pessoas. São cínicos, estão se aproveitando das fissuras deixadas por um governo social-democrata radicalizado, para confundir especialmente os setores médios, que neste período cresceram sustentadamente. Os mesmos que quiseram privatizar até o ar, retornam para nos dar lições. E há alguns, muitos, bispos e padres que almoçam elegantemente em suas mesas. Assim que você tiver ido à Bolívia, irão descarregar uma feroz tormenta sobre esta terra, se for possível, convida-os à ordem e que deixem de ambicionar, em sua soberba, querendo se apropriar da vida que uma vez já destroçaram.
Tome cuidado com a “imprensa livre e independente”, que se colou até no avião no qual você veio, são gente com alma de talão de cheques.
De onde estamos, nós te pedimos que peça ao Amor que nos perdoe pelo pouco que fazemos, pois apesar de sermos também abençoados pela sua brisa, somos réus, irmão, de nossa própria comodidade.
Que Maria peregrina, sempre fiel, sempre revolucionária e “populista”, como dizem os banqueiros, essa que também está anônima nas multidões, te abençoe.
Dá-nos um abraço... Papa... delegado do Amor para proclamar sua alegria.
A mensagem é publicada por Religión Digital, 07-07-2015. A tradução é do Cepat.
in: Instituto Humanitas UnisinosQuarta, 08 de julho de 2015

terça-feira, 7 de julho de 2015

No Equador, Francisco pede oração intensa por “milagre” no Sínodo - Joshua J. McElwee

A reportagem é de Joshua J. McElwee, publicada por National Catholic Reporter, 06-07-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.
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Em referência a contendas que poderão ocorrer no Vaticano nos próximos meses, o papa também pediu aos fiéis, reunidos na cidade portuária de Guayaquil para uma missa ao ar livre, para que “intensifiquem” as suas orações para o encontro mundial de outubro dos bispos sobre questões da vida em família.
Com uma homilia centrada na história evangélica da festa de casamento em Caná – onde Jesus, a pedido de Maria, milagrosamente fez água se tornar vinho –, o papa pediu à multidão que reze para um milagre semelhante ocorra nas discussões dos bispos a ocorrer no Sínodo dos Bispos neste segundo semestre.
O ponto central deste encontro – Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos – é “amadurecer um verdadeiro discernimento espiritual e encontrar soluções concretas para as inúmeras dificuldades e os importantes desafios que a família deve enfrentar nos nossos dias”, disse Francisco à multidão em seu idioma nativo.
“Convido vocês a intensificar a oração por essa intenção: para que, mesmo aquilo que nos pareça impuro, nos escandalize ou espante, Deus (…) possa milagrosamente transformá-lo”, acrescentou ao seu texto preparado.
Estas palavras do pontífice foram marcantes em sua franqueza. Foi marcante também a sua decisão de tratar do Sínodo neste segundo encontro com o público durante a visita, que durará de domingo a quarta-feira no Equador, como parte de uma visita mais longa à região que irá contar com uma ida à Bolívia e ao Paraguai.
Estas declarações do papa fizeram parte de uma longa homilia, proferida diante de uma enorme multidão.
Fotografias aéreas mostram que quase todas as partes do Parque Samanes, de aproximadamente 2 mil hectares, estavam lotadas. Muitos acamparam durante toda a noite para garantir um lugar no parque em Guayaquil, a cerca de 400 km ao sudoeste de Quito.
Com a temperatura beirando os 33ºC, os bombeiros acabaram jorrando água por sobre a multidão enquanto cantavam hinos antes da chegada do papa.
A Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos de outubro será o segundo de dois encontros mundiais dos bispos convocados por Francisco para 2014 e 2015. As discussões em torno destes dois eventos têm atraído grande atenção e gerado polêmicas por seu foco em questões como o divórcio e o recasamento.
Neste retorno ao continente em que nasceu, Francisco aproveitou a oportunidade para falar diretamente sobre as lutas enfrentadas pelas famílias equatorianas, relacionando a história do Evangelho com os milagres que, disse, as pessoas testemunham a cada dia.
“E, na família, os milagres se fazem com o que há, com o que somos, com aquilo que a pessoa tem à mão”, disse o pontífice à multidão. “Muitas vezes não é o ideal, não é o que sonhamos, nem o que ‘deveria ser’”.
O papa então exortou os presentes a acreditar que as coisas podem sempre melhorar, que o melhor sempre está à frente, refletindo sobre como as pessoas no relato evangélico manifestavam espanto que o melhor vinho servido pelo casal (fornecido por Jesus) ter durado tanto, sendo servido por último.
“Esta é a boa nova”, Francisco disse à multidão. “O melhor dos vinhos ainda está por ser bebido, o mais gracioso, profundo e belo para a família ainda está por vir”.
“Ainda está por vir o tempo em que saboreamos o amor diário, onde os nossos filhos redescobrem o espaço que partilhamos, e os mais velhos estão presentes na alegria de cada dia”, disse ele. “O melhor dos vinhos está na esperança, está para vir a cada pessoa que aposta no amor”.
“As famílias têm que arriscar dar o amor, compartilhar o amor”, disse Francisco. “Temos de arriscar distribuir amor aos outros”.
O melhor “está por vir, mesmo que todas as variáveis e estatísticas digam o contrário”, prosseguiu o papa. “O melhor vinho ainda está por vir para aqueles que hoje veem desmoronar tudo”.
“Murmurai até acreditar nele”, falou ele à multidão. “O melhor vinho está por vir; e sussurrai-o aos desesperados ou que desistiram do amor”.
“Deus sempre se aproxima das periferias de quantos ficaram sem vinho, daqueles que só têm desânimos para beber”, disse Francisco. “Jesus se sente inclinado a desperdiçar o melhor dos vinhos com aqueles que, por uma razão ou outra, sentem que já lhes romperam todas as talhas”.
As palavras do papa expressando esperança para com o futuro provavelmente terão um significado especial para muitos no Equador, país que tem vivido um boom econômico nos últimos anos por causa do petróleo e de atividades de mineração, mas onde, ao mesmo tempo, muitas famílias ainda lutam para encontrar trabalho ou suprir suas necessidades básicas.
Muitos no país estão também debatendo a melhor estratégia para o crescimento econômico, que ultimamente tem se concentrado na exploração dos recursos naturais via atividade mineradora.
Alguns católicos dizem esperar que o papa aborde essa questão especificamente nos próximos dias, tratando em particular da abertura de governo à atividade mineradora em uma reserva natural reconhecida internacionalmente na fronteira do país com o Peru.
A irmã maryknoll Elsie Monge, diretora-executiva da Comissão Ecumênica para os Direitos Humanos, do Equador, disse que seu grupo escreveu uma carta a Franciscoantes da visita dizendo-lhe o quão devastadora a mineração é para a natureza e pedindo-lhe para falar sobre o assunto com o presidente Rafael Correa.
“Acho que esta sua presença é uma ocasião para que as pessoas reflitam sobre a necessidade de se ir mais além, de atingirmos as causas da pobreza, da violação dos direitos da natureza”, disse Elsie Monge.
Francisco voou para Guayaquil na segunda-feira pela manhã saindo de Quito, onde chegou de Roma no domingo à tarde. No início da manhã, ele visitou um santuário devotado à misericórdia divina localizado na cidade de Guayaquil.
Em sua homilia na missa desta segunda-feira, o pontífice igualmente refletiu sobre o papel de Maria no relato evangélico da festa de casamento, dizendo que tal narrativa mostra-a como estando atenta às necessidades daqueles ao seu redor e disposta a agir, a fim de servi-los.
A orientação de Maria para os que participavam da festa, no sentido de escutarem Jesus de modo a permitir o milagre do vinho, é também um convite a nós todos para “nos colocarmos à disposição de Jesus, que veio para servir e não para ser servido”.
“O serviço é o critério do verdadeiro amor”, disse. “E isso se aprende especialmente na família, onde nos tornamos servidores uns dos outros por amor ”.
“No seio da família, ninguém é descartado”, disse Francisco, acrescentando que não há desigualdades entre os membros da família.
Maria também nos ensinou a “deixar as nossas famílias nas mãos de Deus; ela ensinou a rezar, alimentando a esperança que nos indica que as nossas preocupações também preocupam Deus”, disse o papa.
Francisco voltará a Quito no final da tarde para uma visita formal ao presidente Rafael Correa e para uma breve ida à catedral da cidade, onde deverá se pronunciar brevemente.
No aeroporto de Quito no domingo, Francisco disse à multidão que queria estender a mão a todos no país durante esta sua breve visita e que estava “tomado de emoção e esperança” por esta viagem.
O papa se reunirá terça-feira com os bispos do país e com representantes da sociedade civil. Também celebrará uma missa ao ar livre que deve atrair centenas de milhares de fiéis. Na quarta-feira pela manhã, ele se reunirá com o clero e os religiosos antes de se dirigir para a Bolívia.
Francisco dá continuidade à visita na região indo ao Paraguai na sexta-feira antes de retornar a Roma, no domingo.
in: Instituto Humanitas Unisinos,  07 de julho de 2015

Carta ao Papa Francisco - Paulo Suess

Querido Papa Francisco,
amado Pastor e Irmão Maior:
Saúde e Paz!
“Conte conosco” !
O senhor é dom de Deus para o mundo e para a Igreja nesta “mudança de época”. Desde sua primeira aparição na Praça de São Pedro, apresentando-se como Bispo de Roma e pedindo a bênção do Povo, nos animou e encorajou a manifestar-nos livremente como Povo de Deus.
Através de Eduardo Brasileiro e Vinicius Lima Batista, nossos representantes noEncontro Mundial de Movimento Populares na Bolívia, expressamos, “desde esse fim do mundo”, incondicional apoio ao senhor e também algumas preocupações.
Somos cristãos católicos - leigos e leigas, religiosas e religiosos, presbíteros e também membros de outras confissões - da Zona Leste de São Paulo (perto de 3 milhões de habitantes), especificamente Diocese de São Miguel Paulista, articulados sob a identidade “Igreja, Povo de Deus, em Movimento” (IPDM), cujo “Princípios da Identidade” lhe enviamos em anexo.
O grupo nasceu em 2010, por iniciativa de alguns leigos e cinco padres, no intuito de retomar o Vaticano II e as conclusões das Conferências do Episcopado Latino-Americano. Se na época vivíamos um “inverno eclesial”, com a sua providencial eleição para Bispo de Roma, somos desafiados à “pastoral em chave missionária” (Ev. Gaudium, 33) e à ousadia de ser “uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas que a uma Igreja enferma pelo fechamento e comodidade de se agarrar às próprias seguranças” (Ev. Gaudium, 49).
Algumas preocupações:
1. Indiferentismo do clero (diáconos, padres, bispos, arcebispos): Sentimos que “Francisco, Bispo de Roma”, ainda não foi incorporado em muitas das Dioceses do Brasil. Caminhando para o terceiro ano de seu ministério apostólico, não vemos entusiasmo e efetivo empenho pastoral em fazer do “Evangelho da Alegria” referencial das práticas pastorais. Há certo “silêncio e desinteresse” quanto às suas “provocações” para sermos “Igreja em saída”.
2. Nomeações de bispos: há que se garantir participação dos presbitérios e dos Regionais da Conferência Episcopal na nomeação de bispos. A forma atual não privilegia nomeação de bispos pastores. Nesse sentido, há também um “lobby episcopal” conservador que encontra na Nunciatura Apostólica total e irrestrito reconhecimento. Um simples exemplo: nos últimos 35 anos, apenas 6 presbíteros da Grande São Paulo foram nomeados bispos.
Há, na Grande São Paulo, competentes e lúcidos presbíteros pastores, cujo testemunho evangélico os credenciaria ao ministério episcopal. Vêm exercer o ministério episcopal na metrópole padres de pequenas cidades de Minas Gerais, Paraná e do interior de São Paulo. Isso é real desconsideração para com os presbíteros de São Paulo, São Miguel Paulista, Santo Amaro, Osasco, Itapecerica da Serra, Guarulhos e Mogi das Cruzes. À renúncia ou transferência de um bispo diocesano o presbitério sequer é consultado sobre aquele que será o seu próximo bispo. No Brasil ainda são nomeados bispos de perfil burocrático-alfandegário, com “psicologia de príncipes”. Todos os padres, da década de oitenta, formados na Teologia da Libertação vivem marginalizados em suas próprias dioceses.
3. Os seminários de filosofia e teologia: constatamos expressivo número de seminaristas apaixonados pela “carreira eclesiástica”, facilmente constatável em suas conversas, em suas vestes clericais ultrapassadas, em seu alinhamento com presbíteros também carreiristas e dinheiristas e no empenho medíocre nos estudos filosóficos e teológicos. Para eles, o “cheiro das ovelhas” quanto mais longe, melhor. Sugerimos radical reforma dos seminários. A experiência de “casas de formação” ligadas a uma paróquia, sob responsabilidade de párocos sérios, parece-nos a melhor maneira de formar padres para a eclesiologia proposta pelo senhor na Evangelii Gaudium. Os seminaristas, num significativo número, querem ser “bispos” – como horizonte “eclesiástico”. Permita-nos dizer, Papa Francisco, os seminários podem fazer ruir todo o seu projeto de Igreja para os próximos anos.
4. Sínodo dos Bispos e comunhão sacramental para casais de segunda/terceira união: apreensivos, aguardamos uma palavra oficial e definitiva da Igreja para que casais de segunda ou terceira união possam, enfim, participar integralmente da eucaristia. O senhor mesmo deve ter encontrado, em seu ministério pastoral, inúmeros casais cristãos dedicados à evangelização e privados da comunhão sacramental. Perdoe-nos a pretensão: se “a eucaristia é fonte e cume da vida cristã” (SC 10), como aceitar a exclusão dela de pessoas de vivência cristã? Apelar para a “comunhão espiritual” num contexto litúrgico-sacramental é negar a “sacramentalidade” da própria assembleia litúrgica. 
5. Sínodo dos Bispos e população LGBTs: o mundo jamais esquecerá sua espontânea e humana expressão, quando da viagem do Rio de Janeiro de volta a Roma, no avião: “quem sou eu para julgar”? O senhor bem conhece o atroz sofrimento espiritual, psíquico, eclesial, social e familiar pelo qual passam milhões de irmãos e irmãs cuja opção homoafetiva é discriminada, demonizada, perseguida, odiada. Quantas pessoas dessa imensa população já não pensaram e tentaram o suicídio, a cada dia? Afirmar que a Igreja aceita a homossexualidade mas não a prática dela é mutilar as pessoas na totalidade do seu ser. Além disso, passamos por ridículos, aos olhos da ciência e da prática adulta, responsável e ética de milhares de pessoas.
6. Celibato opcional: No Brasil demos passos firmes quanto aos ministérios leigos, sobretudo o ministério de presidentes da Celebração da Palavra na ausência do presbítero; ministério do batismo e ministério das testemunhas qualificadas para o sacramento do matrimônio. Há inúmeras mulheres, inclusive, presidentes destas celebrações. Até recentemente eram também aceitas como testemunhas qualificadas do sacramento do matrimônio. A aceitação de ministros e ministras se, no início conheceu alguma resistência, hoje é tranquila, de um lado. Mas, de outro, ameaçada seriamente pelo clericalismo de presbíteros formados entre 1989-2014, cuja prática e pregação vêm transformando os leigos em “ovelhas”, também clericais. A aceitação da ordenação de “viri probati” não encontra resistência entre o povo. Pelo contrário, aprovação. No entanto, um certo tipo de clero, apegado a privilégios pecuniários e não disposto a avançar em tal questão, torna-se sério obstáculo. Notamos certo comodismo e preguiça pastoral e consciente opção pelo “fez-se sempre assim” (EG, 33).
7. Leigas e Leigos na Igreja: Na Evangelii Gaudium o senhor retoma a necessidade do Conselho Paroquial de Pastoral. Papa Francisco, é lastimável a maneira como são tratados milhares de leigos e, sobretudo, leigas nas paróquias e dioceses. Expressivo número delas não têm Conselho Pastoral. Os leigos mais conscientes são marginalizados, quando não afastados de suas atribuições, como “cobras venenosas”. Há inúmeros casos de destituição de Conselhos Paroquiais e Diocesanos segundo o “gosto” e os “interesses” do novo pároco ou (arce)bispo. Testemunhamos preocupante “infantilização” de leigos e leigas através de atitudes eclesiásticas autoritárias e da priorização a movimentos religiosos de perfil fundamentalista e conservador. Incentiva-se um “devocionismo” ao gosto do “consumo religioso de bênçãos imediatistas” e, quando não se persegue, deixa-se ao próprio abandono as pastorais organizadas. Como se garantir efetiva cidadania laical na Igreja?
8. Igreja e Movimentos Populares e Sociais: um vibrante agradecimento ao senhor por ter confirmado e reafirmado a “opção preferencial pelos pobres” que, de forma transversal, está presente na Evangelii Gaudium e na Laudato Si. O senhor trouxe a Igreja de volta aos desafios do mundo, empurrando-a para as “periferias existências e geográficas”. Cardeais, arcebispos, bispos, padres e seminaristas, mídia e governos, não têm mais argumento para dizer que tal opção é sociológica ou ideológica. Muitíssimo obrigado!
Saiba que os signatários desta carta, estão com o senhor. Conte conosco para todas as mudanças estruturais as quais o senhor se propõe encaminhar.
E, como sempre nos pede, “rezamos pelo senhor”.

in: Instituto Humanitas Unisinos,  07 de julho de 2015