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"Eles tentaram nos enterrar, mas não sabiam que éramos sementes! "

Proverbio mexicano
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segunda-feira, 24 de agosto de 2015

A encíclica verde de Francisco

Maurício Waldman, sociólogo e Doutor em Geografia e mestre em antropologia, em artigo publicado pelo jornal O Imparcial, 16-08-2015. 
São claros os sinais do quanto o pontificado do papa Francisco volta-se para questões candentes do novo milênio. Neste particular, o argentino Jorge Mario Bergoglio é um papa cujo modo de ser e de pensar granjeou-lhe em pouco tempo efusiva popularidade.
No campo católico, no seio das múltiplas vertentes cristãs e em largos setores da opinião pública mundial, papa Francisco projetou imagem de simpatia e receptividade. Em boa parte, a estima pelo papa firmou-se por sua disposição em abrir portas para o diálogo para toda sorte de temas e dilemas do mundo atual.
Assim, além de pronunciar-se sobre litígios internacionais, debates interconfessionais e matérias doutrinárias, o papa se deteve sobre a temática ambiental, debate que como sabemos, é essencial para a continuidade da espécie humana e de todas as formas de vida.
No caso, a contribuição do pontífice materializou-se na Encíclica Laudato Si. Prontamente definida como “Encíclica Verde” do papa, de fato, longe de mera adjetivação, inúmeras são as razões que justificam tal percepção. A este respeito, uma nota matricial reporta ao próprio nome adotado pelo papa, inspirado em São Francisco de Assis, santo católico impregnado de simbolismo ecológico.
Com efeito, a pregação franciscana - marcada pela compaixão por todos os seres vivos e pelos pobres - encerra forte conexão com o ideário ambientalista. Neste sentido, a predileção do papa por Francisco de Assis configura uma pista para a compreensão da Laudato Si.
A presença da doutrina de São Francisco na grade conceitual da Laudato Si é inquestionável. A predisposição da Encíclica em defesa da integralidade da Criação - evidente no subtítulo “Sobre o cuidado da Casa Comum” - objetivamente a insere na órbita das pregações franciscanas. Ademais, não é nem um pouco fortuito que Laudato Si seja o nome de famoso cântico atribuído ao santo.
Citado no preâmbulo, o ideário de São Francisco constitui fio condutor de muitas pontuações do documento, seja em menções textuais ou como pressuposto da argumentação. No mais, o fato da Laudato Si ter redação na primeira pessoa do singular confirma os elos que conectam o papa e a Encíclica com a mensagem franciscanista.
Nesta perspectiva, Laudato Si, ao mesmo tempo em que retoma o pensamento visionário de São Francisco igualmente atesta o enorme potencial de interações possíveis entre o meio científico e as visões religiosas de mundo.
Certo é que a experiência religiosa é específica na sua forma de ser. Tendo a fé como elemento fundante, pode inclusive contrapor-se à lógica científica. Mas, embora ciência e religião tenham corporificado ao longo da história do Ocidente duas vocações em vários contextos atritando entre si, em nada isto compromete a possibilidade de objetivos comuns. 
Note-se que o papa Francisco é ele mesmo um homem com formação técnica. Na juventude, Jorge Mario Bergoglio graduou-se em química e trabalhou no Laboratório Bachmann em Buenos Aires. Portanto, não é de modo algum um cidadão que desconheça o saber científico.
Daí que Laudato Si elenca em defesa do ambiente ampla coleção de dados técnicos de excelência. Um bom exemplo do intercâmbio potencial entre ciência e religião, do saber científico como subsídio para visões de mundo filiadas à predicação religiosa.
Não seria demasiado rubricar que informação não é conhecimento e que isoladamente, este último não é sabedoria. A saber, a materialidade social é avessa a lógicas reducionistas. Existem bons cientistas e existem bons homens de fé. 
Laudato Si é neste sentido uma iniciativa ímpar. Une argumento científico e fé religiosa, voltando-se para o que há de mais essencial: a defesa dos ciclos de vida para o benefício da totalidade da Criação.
in Instituto Humanitas Unisinos, 24 de agosto de 2015.

domingo, 12 de julho de 2015

Altar feito com milho receberá missa do papa no Paraguai

Estima-se que até dois milhões de fiéis estarão presentes no parque Ñu Guazu, na região de Assunção, no próximo domingo (12), para acompanhar a missa do papa Francisco, seu principal ato litúrgico no Paraguai.
Para receber visitantes e pontífice, os paraguaios capricharam na ornamentação do altar em que a missa será realizada (a partir das 10 horas do domingo). Ele é inteiramente decorado com espigas e grãos de milho, abóboras, coco e frutos da estação -- por isso foi prontamente apelidado de “altar do milho”.
O projeto é monumental: são pelo menos 25 metros de altura, com uma imponente cruz ao alto. Cerca de 32 mil espigas de milho foram usadas, além de 200 mil pequenos cocos.Esta ornamentação faz parte das tradições da Semana Santa em Tañarandy, localidade nas proximidades da cidade de Santo Ignácio, na Província de Missiones, um antigo reduto jesuíta no Paraguai, explica a Rádio Vaticano.
Quem elaborou o projeto foi o artista Koki Ruiz. Ele planejou toda a montagem em Santo Ignácio (que fica a 226 quilômetros da capital) e o altar teve de ser transportado em três partes até o Parque de Ñu Guazú.
De acordo com a Rádio vaticano, o altar sustentável evoca os frutos da natureza, em sintonia com a encíclica “Laudato si”, publicada há poucas semanas por Francisco e dedicada à relação do homem com a Criação. A obra também evoca a cultura guarani.
Após a missa, os frutos e grãos serão doados a instituições de caridade.
in: 
Gazeta do Povo


sexta-feira, 10 de julho de 2015

Os três sinais do Papa no Equador (1)

Mais com gestos (gosta mais deles, porque chegam em profundidade ao povo) do que com palavras. Por isso, frente a uma Igreja instalada, principesca e casada com a direita política mais conservadora, o Papa apresentou-se com um báculo de madeira, um Fiat Idea simples e uma casula indígena.
Frente aos báculos de ouro e prata, símbolos do poder dos bispos do país, Francisco mostrou um báculo de madeira, feira e presenteada por um refugiado somali na Itália. Em sua viagem à Terra Santa, o báculo quebrou e o Papa pediu para que lhe fizessem um exatamente igual com madeira de oliveira do Getsêmani. O báculo do serviço aos pobres. Um claro recado aos prelados equatorianos, chamados a cheirar a ovelha e a servir ao seu povo pobre e descartado.
Frente às grandes limusines da maioria dos bispos do Equador, o Papa se apresentou e passeou com um pequeno Fiat Idea. Um carro simples, que até um pobre pode comprar. Um carro para servir, não para mostrar. Outro claro recado para uma hierarquia que chamava (e segue chamando ‘sotto voce’) de “comunistas” os bispos e padres que defendem os pobres e optam pela Teologia da Libertação. Proscritos, como o agora beato Romero, ou como dom López Marañón, o bispo de Sucumbíos, obrigado a renunciar, há alguns anos, por defender uma Igreja encarnada e servidora.
Diante de uma Igreja hierárquica que perdeu o “oremus” da conexão com o povo indígena do Equador, o Papa revestiu-se, na missa celebrada no Parque do Bicentenário, com uma casula com claros sinais indígenas. Mão estendida aos povos originários, tantas vezes descartados. Sinal papal que, com seu dedo, assinala o caminho que a hierarquia equatoriana tem que voltar a trilhar já. Para reabilitar a memória de dom Leonidas Proaño ou de dom Luna Tobar, os bispos dos índios.
E, se por acaso ainda restasse alguma dúvida, em sua homilia de Quito, o Papa proclamou que “a fé sempre é revolucionária”. Falar de revolução no Equador é aludir implícita e explicitamente a Correa, o líder social cristão que está procurando implementar um modelo social inclusivo em um país em que 90% das terras estão nas mãos de 2% dos mais ricos dos ricos.
Francisco deu assim um respaldo a Correa, mas sem alinhar-se nem abençoar todas as suas políticas. Contra o que costumam pensar os radicais de direita, Francisco é um Papa centrado, centrista e moderado. Não se filia a nenhuma causa comunista. Trata apenas de proclamar, com suas encíclicas e seus gestos, que a pessoa humana tem que ocupar o centro de todo o sistema político. E, por isso, acentuou uma vez mais que os bens são destinados a todos e que essa é a hipoteca social da propriedade privada.
Francisco aproveitou, além disso, para lançar, precisamente aqui na metade do mundo, um SOS a favor da “mãe Terra”, que grita com dores de parto. Aqui, onde justamente uma das grandes companhias de petróleo, a Chevron, provocou enormes estragos ambientais, pelos quais foi denunciada e condenada em diversos tribunais internacionais. Nem a Chevron nem os latifundiários do país gostam do Papa Francisco. E também não gostam da sua já famosa encíclica verde. Porque ridiculariza, com a máxima autoridade moral do líder mundial mais influente, as constantes feridas que infringem à “casa comum”.
Francisco passou pelo Equador e deixou claro seu Evangelho: uma Igreja que não serve não serve para nada e os pobres são os preferidos de Cristo e, portanto, devem ser também os preferidos dos hierarcas e dos políticos equatorianos. Palavras do irmão Francisco.
Responderá a enferrujada hierarquia equatoriana ao conhecido ‘te louvamos, Senhor’?
(1) - A reportagem é de José Manuel Vidal e publicada por Religión Digital, 09-07-2015. A tradução é de André Langer.
in: Instituto Humanitas Unisinos, Sexta, 10 de julho de 2015

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Francisco sacode esta Igreja, que está enferrujada - Tus hermanos de la Iglesia de a pie.

Assim como Francisco de Assis pede para fazer, recebemos-lhe com alegria gritando... Que o Senhor te dê a paz!!! Volte à terra latino-americana, irmão, mas você não é mais o Bispo Bergoglio... o jesuíta argentino, boa gente, pobre, intenso em tudo, muito conservador em coisas de moral, grande cozinheiro...
Temos visto (às vezes chorando de alegria), nestes anos, como tem se deixado, mansamente, tocar pelo Espírito, sim, assombrados, emocionados, ouvimos você clamar e acalmar, desafiar e estender pontes, ir a Lampedusa... no mesmo plano de Jesus durante toda a sua vida, irmão fiel dos Anawim... os pobres de Deus.
Tem chamado os poderosos deste mundo à conversão e os humildes à criatividade (sabe? aqui no Equador, desde sempre, os ricos se apropriaram das melhores delícias do mar e as tornaram exclusivas... proibidas. Os simples pescadores e mais simples trabalhadores, trabalhadoras, transformaram o peixe mais desprezado em um guisado tão delicioso que, hoje, é símbolo nacional, sendo disputado entre as “grandes empresas” da “alta cozinha” e o exaltam sem parar... mas se esquecem de que nasceu nas caçarolas de barro e nas latas rachadas dos mais pobres e esquecidos).
A revolução de Deus, que é coisa de operários e lavradores, é o que anda pregando, irmão, com alegria, ternura e mão firme. Lamentamos que este tempo entre nós seja tão curtinho, mas, bom, nós entendemos, que lindo seria se pudesse andar e olhar o que as missionárias e os missionários tecem em seu silêncio, a cada dia, silêncio relativo, pois Jesus grita cada vez mais alto, grita-nos.
Vão lhe mostrar muros e muros, templos e templos, museus e palácios... multidões, enormes multidões. Sabe? Há aqueles que as multidões não assustam, porque são irmãos e irmãs da dor, do cansaço, da fome e da esperança de cada um como um mundo único, sem horário, nem grade... nem “direito canônico”, o tempo todo. Esperamos queJesus, que oxalá tenha conseguido “um espaço” para poder te ver, consiga fazer um sinal para você no meio da imensa massa.
Sabemos que você o sentirá e “nos dará”, dizendo na fala coloquial do povo de Quito, seu recado de paz e rebeldia. Ouve, sacode esta Igreja que está enferrujada, falamos isto a sério, fechada em seus templos magníficos e cômodos conventos, conservando com paixão “os espaços sagrados”, as propriedades, em uma pregação quase “esotérica” em razão da distância da vida diária das pessoas. Falam de “família” e não fazem ideia de quanto custa preparar um prato de sopa, nem da renda do mês. Dão “altas lições de amor familiar”, mas são um “clube de eleitos”, segregam, assim como os fariseus, os “impuros e desencaminhados” e proclamam um Deus que pouco tem a ver com aquele que anda sem nada e tudo ao mesmo tempo. Um velho missionário dizia com ironia... “antes se clamava: África ou morte... hoje é ao contrário: Toyota ou morte...”.
Que gente está sendo formada em uma Igreja fechada e monetariamente poderosa? Vão lhe dizer que as vocações aumentam, os seminários estão cheios e que tudo vai muito bem, não é certo. O ceticismo atinge profundamente os jovens, a droga é uma praga que parece incontrolável, o individualismo e o “êxito” são os padrões a seguir. E diante disto? Como pode uma Igreja que se dedica a cuidar de museus, exigir que os outros se convertam? Não é que o conforto seja ruim, mas quando é modelo e fim... é mortal. Uma Igreja clerical até a ira, que considera o Povo de Deus como um negócio. Como pode ser fermento do Reino? Que pobreza – não evangélica – a maioria dos bispos exibe hoje: gerentes mais do que pastores, inquisidores mais do que irmãos, banqueiros mais do que missionários. Dói, o “mérito” principal para fazer parte desse grupo “exclusivo” parece ser participar do círculo que rodeia esse obscuro embaixador do Estado vaticano.
Sim, sim, estamos ressaltando fortemente o negativo, há também muitíssimas, inumeráveis coisas boas. No entanto, o agradável sempre encontra um elogio e do outro ninguém quer falar. Sacode a sua Igreja... Bispo de Roma. E, pelo Amor de Deus, leva esse Núncio que é apenas fonte de mil dores.
Você chega a um Equador em crise, um país que há oito anos esteve doente terminal, hoje ainda caminha muito delicado, ainda não pode se valer por si só, as pragas ameaçam o seu corpo estragado pelas misérias acumuladas por séculos. E é preciso dizer aos médicos que o atendam, que compreendam que é preciso levá-lo ao sol, para que faça exercícios, recupere sua força popular, que estão sendo drogadas com receitas tecnocráticas. Que se valha dos braços potentes da organização popular e das pernas das novas gerações, que não são apenas os “porta-bandeiras”, “os exitosos”, “os vencedores”, parece que esses médicos que fazem o tratamento são uns “iluminados” que tudo solucionam a partir dos escritórios e dos manuais.
Aqueles que “curam por correspondência” e possuem um computador no lugar do coração. Há, custa dizer, uma dupla moral em alguns dos mais altos funcionários equatorianos, pois a corrupção está presente e é muito forte. Centenas de milhares de jovens estão sendo segregados sem contar com uma oportunidade séria de se preparar, não apenas nas universidades, mas nos escritórios técnicos que lhes assegurem futuro. Há dívidas impostergáveis na partilha da terra e na defesa da natureza. É um governo sem capacidade de organização popular permanente. Porém, em essência é o melhor que o Equador já teve nos últimos 50 anos.
Por outro lado, estão os responsáveis de sua prostração secular, os que lhe adoeceram até quase matá-lo. Querem voltar ao poder para comê-lo vivo, destino de antropófagos: banqueiros, contrabandistas e latifundiários que ainda exalam um cheiro do “tempo da colônia”, proprietários das universidades mais caras e elitistas, prefeitos fascistas, falsos revolucionários de “esquerda”, caciques indígenas e experimentados “líderes sindicais”. Toda a peste que levou o país até a beira da dissolução em 1999, hoje, retorna sem vergonha, mas eloquentemente levantando bandeiras obscuras.
Estão semeando violência e cizânia entre as pessoas. São cínicos, estão se aproveitando das fissuras deixadas por um governo social-democrata radicalizado, para confundir especialmente os setores médios, que neste período cresceram sustentadamente. Os mesmos que quiseram privatizar até o ar, retornam para nos dar lições. E há alguns, muitos, bispos e padres que almoçam elegantemente em suas mesas. Assim que você tiver ido à Bolívia, irão descarregar uma feroz tormenta sobre esta terra, se for possível, convida-os à ordem e que deixem de ambicionar, em sua soberba, querendo se apropriar da vida que uma vez já destroçaram.
Tome cuidado com a “imprensa livre e independente”, que se colou até no avião no qual você veio, são gente com alma de talão de cheques.
De onde estamos, nós te pedimos que peça ao Amor que nos perdoe pelo pouco que fazemos, pois apesar de sermos também abençoados pela sua brisa, somos réus, irmão, de nossa própria comodidade.
Que Maria peregrina, sempre fiel, sempre revolucionária e “populista”, como dizem os banqueiros, essa que também está anônima nas multidões, te abençoe.
Dá-nos um abraço... Papa... delegado do Amor para proclamar sua alegria.
A mensagem é publicada por Religión Digital, 07-07-2015. A tradução é do Cepat.
in: Instituto Humanitas UnisinosQuarta, 08 de julho de 2015

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Laudato si': a defesa de um clima mais estável e uma economia mais justa. Artigo de Naomi Klein

É uma honra estar aqui hoje e, especialmente, compartilhar esta plataforma com o cardeal Turkson, que tem feito muito para nos trazer a este momento histórico.
Papa Francisco escreve desde cedo que a Laudato si' não é apenas um ensinamento para o mundo católico, mas para "cada pessoa que habita este planeta" (n. 3). E eu posso dizer que, como feminista judia secular que ficou bastante surpresa ao ser convidada para o Vaticano, ele certamente falou comigo.
"Não somos Deus" (n. 67), afirma o encíclica. Todos os seres humanos sabiam disso antigamente. Mas, há cerca de 400 anos, avanços científicos vertiginosos fizeram com que alguns pensassem que os seres humanos estavam à beira de saber tudo o que havia para se saber sobre a Terra e, portanto, seriam os "mestres e donos" da natureza, como René Descartes afirmou tão memoravelmente. Era isso, segundo eles, o que Deus sempre quisera.
Essa teoria se manteve por um bom tempo. Mas avanços posteriores na ciência nos disseram algo muito diferente. Porque, enquanto queimávamos quantidades cada vez maiores de combustíveis fósseis – convencidos de que nossos navios porta-contêineres e os jatos-jumbo tinham nivelado do mundo, que nós éramos como deuses – os gases do efeito estufa estavam se acumulando na atmosfera e, implacavelmente, retendo o calor.
E agora somos confrontados com a realidade de que nunca fomos os mestres, nunca fomos os chefes – e que estamos desencadeando forças naturais que são muito mais poderosas do que até mesmo as nossas máquinas mais engenhosas. Nós podemos nos salvar, mas apenas se abrirmos mão do mito da dominação e do domínio, e aprendermos a trabalhar com a natureza – respeitando e aproveitando a sua capacidade intrínseca de renovação e regeneração.
E isso nos leva à mensagem central da interligação no cerne da encíclica. O que as alterações climáticas reafirmam – para aquela minoria da espécie humana que já se esqueceu disso – é que não há uma espécie de relação unidirecional de pura mestria na natureza. Como escreve o Papa Francisco, "nada deste mundo nos é indiferente".
Para alguns que veem a interligação como um rebaixamento cósmico, tudo isso é demais para se suportar. E assim – ativamente encorajados pelos atores políticos financiados pelos combustíveis fósseis – eles optam por negar a ciência.
Mas isso já está mudando com as mudanças climáticas. E provavelmente vai mudar mais com a publicação da encíclica. Isso poderia significar um problema real para os políticos norte-americanos que estão contando com o uso da Bíblia como cobertura para a sua oposição à ação climática. A esse respeito, a viagem do Papa Francisco aos Estados Unidos, em setembro, não poderia vir em melhor hora.
No entanto, como a encíclica sublinha com razão, a negação assume muitas formas. E há muitos, ao longo do espectro político e ao redor do mundo, que aceitam a ciência, mas rejeitam as difíceis implicações da ciência.
Eu passei as duas últimas semanas lendo centenas de reações à encíclica. E, embora a resposta tenha sido extremamente positiva, notei um tema comum entre as críticas. O Papa Francisco pode estar certo em relação à ciência – ouvimos – e até mesmo em relação à moral, mas deveria deixar a economia e a política para os especialistas. Eles são os únicos que sabem sobre o comércio de carbono e a privatização da água – dizem-nos – e como efetivamente os mercados podem resolver qualquer problema.
Eu discordo com força. A verdade é que chegamos a este lugar perigoso em parte porque muitos desses especialistas econômicos fracassaram muito conosco, empunhando as suas poderosas habilidades tecnocráticas sem sabedoria. Eles produziram modelos que escandalosamente deram pouco valor à vida humana, particularmente às vidas dos pobres, e deram um valor descomunal à proteção dos lucros das empresas e ao crescimento econômico.
Esse sistema de valores distorcido é o modo pelo qual acabamos chegando aos mercados de carbono ineficazes, em vez de taxas de carbono fortes, e altos royalties de combustíveis fósseis. Foi assim que acabamos com um alvo de temperatura de dois graus que permitiria que nações inteiras desaparecessem – simplesmente porque os seus PIBs foram considerados insuficientemente grandes.
Em um mundo onde o lucro é consistentemente posto acima das pessoas e do planeta, a economia climática tem tudo a ver com ética e moral. Porque, se concordamos que pôr a vida na Terra em perigo é uma crise moral, então cabe a nós agir em consequência.
Isso não significa arriscar o futuro nos ciclos de crescimento e queda do mercado. Isso significa políticas que regulem diretamente quanto carbono pode ser extraído da Terra. Isso significa políticas que nos façam ter 100% de energia renovável em duas a três décadas – e não até o fim do século. E isso significa alocar recursos comuns e compartilhados – como a atmosfera – com base na justiça e na equidade, não na lógico "os vencedores levam tudo".
É por isso que um novo tipo de movimento climático está emergindo rapidamente. Ele se baseia na verdade mais corajosa expressada na encíclica: que o nosso atual sistema econômico está alimentando a crise climática e ativamente nos impedindo de tomar as ações necessárias para impedir isso. Um movimento baseado no conhecimento de que, se não quisermos uma mudança climática descontrolada, então precisamos de uma mudança de sistema.
E, como o nosso sistema atual também está alimentando uma desigualdade cada vez maior, temos uma chance para enfrentar o desafio climático, para resolver várias crises que se sobrepõem de uma só vez. Em suma, podemos mudar para um clima mais estável e uma economia mais justa, ao mesmo tempo.
Esse entendimento crescente é a razão pela qual vocês está vendo algumas alianças surpreendentes e até improváveis. Como, por exemplo, eu no Vaticano. Como sindicatos, grupos indígenas, religiosos e ambientalistas trabalhando mais próximos do que nunca.
Dentro dessas coalizões, não concordamos sobre tudo – não mesmo. Mas entendemos que o que há em jogo é tão importante, que o tempo é tão curto e que a tarefa é tão grande que não podemos nos dar ao luxo de permitir que essas diferenças nos dividam. Quando 400 mil pessoas marcharam pela justiça climática em Nova York, em setembro passado, o slogan era "Para mudar tudo, precisamos de todos".
"Todos" inclui as lideranças políticas, é claro. Mas, depois de ter participado de muitos encontros com os movimentos sociais sobre a cúpula COP em Paris, eu posso relatar isto: há uma tolerância zero para mais um fracasso que possa ser travestido de sucesso diante das câmeras. Até mesmo uma semana depois, quando esses mesmos políticos estarão de volta para perfurar em busca de petróleo no Ártico e para construir mais rodovias e pressionar por novos acordos comerciais que dificultem ainda mais regular os poluidores.
Se a negociação fracassar no sentido de promover reduções às emissões imediatas, proporcionando um apoio real e substancial para os países pobres, então ela será declarada um fracasso. Como deveria ser.
O que devemos sempre lembrar é que não é tarde demais para sair da perigosa estrada em que estamos – que nos leva rumo a quatro graus de aquecimento. De fato, ainda poderíamos manter o aquecimento abaixo de 1,5 grau, se fizéssemos disso a nossa principal prioridade coletiva.
Seria difícil, com certeza. Assim como foi difícil o racionamento e as conversões industriais que já foram feitos em tempos de guerra. Assim como eram ambiciosos os programas antipobreza e de obras públicas lançados no período posterior à Grande Depressão e à Segunda Guerra Mundial.
Mas "difícil" não é o mesma coisa que "impossível". E desistir diante de uma tarefa que poderia salvar inúmeras vidas e evitar tanto sofrimento – simplesmente porque é difícil, caro e exige sacrifício por daqueles dentre nós que mais podem se dar ao luxo de viver com menos – não é pragmatismo.
É uma rendição do tipo mais covarde. E não há nenhuma análise custo-benefício no mundo que seja capaz de justificar isso.
* * *
"Não deixem que o 'perfeito' seja inimigo do 'bom'."
Temos ouvido essas palavras supostamente de pessoas sérias por mais de duas décadas. Durante todo o tempo de vida dos jovens ativistas climáticos de hoje.
E todas as vezes em que uma cúpula da ONU fracassa ao entregar políticas corajosas, juridicamente vinculantes e com base científica, polvilhando promessas vazias de ajudas monetárias reformuladas, nós ouvimos essas palavras novamente.
"Claro que não é o suficiente, mas é um passo na direção certa." "Faremos o trabalho mais difícil da próxima vez." E sempre: "Não deixem que o perfeito seja inimigo do bom."
Isso – é preciso dizê-lo no interior destas paredes sagradas – é puro absurdo. O "perfeito" perdeu o trem em meados da década de 1990, depois da primeira Cúpula da Terra do Rio.
Hoje, temos apenas duas estradas à nossa frente: a "difícil embora humano" e a "fácil embora repreensível".
Aos nossos chamados líderes que preparam as suas promessas para a COP 21 em Paris, tirando o batom e os saltos altos para se vestirem para outra negociação ruim, eu tenho que dizer isto: leiam a encíclica real – e não os resumos, mas a coisa toda.
Leiam-na e deixem-na entrar nos seus corações. A tristeza diante do que já perdemos e a celebração do que ainda podemos proteger e ajudar a florescer.
Ouçam, também, as vozes das centenas de milhares de pessoas que estarão nas ruas de Paris, do lado de fora da cúpula, reunidos simultaneamente em cidades ao redor do mundo.
Desta vez, eles vão estar dizendo mais do que "precisamos de ação". Eles vão estar dizendo: nós já estamos agindo.
Nós somos as soluções: nas nossas demandas de que as instituições renunciem às suas participações em empresas de combustíveis fósseis e as invistam nas atividades que irão reduzir as emissões.
Nos nossos métodos de agricultura ecológica, que dependem menos dos combustíveis fósseis, fornecem alimentos e trabalho saudáveis e retiram carbono.
Nos nossos projetos de energia renovável localmente controlados, que estão diminuindo as emissões, mantendo os recursos nas comunidades, reduzindo os custos e definindo o acesso à energia como um direito.
Na nossa demanda por um transporte público confiável, acessível e até mesmo gratuito, que vai nos tirar de dentro dos carros que poluem as nossas cidades, congestionam as nossas vidas e nos isolam uns dos outros.
Na nossa insistência intransigente de que vocês não podem se chamar líderes climáticos enquanto estiverem abrindo novas e vastas faixas de mar e de terra para a exploração de petróleo, o fracking do gás e a mineração de carvão. Temos de deixar tudo isso onde está, no chão, na terra.
Na nossa convicção de que vocês não podem se chamar de democracia, se estiverem em dívida com os poluidores multinacionais.
Em todo o mundo, o movimento de justiça climática está dizendo: vejam o belo mundo que se encontra do outro lado da política corajosa, cujas sementes já estão dando grandes frutos para qualquer pessoa que se importe em olhar.
Então, parem de fazer do "difícil" o inimigo do "possível".
E unam-se a nós para fazer do "possível" real.
in: Instituto Humanitas Unisinos, 03 de julho de 2015.
Publicamos aqui o discurso da ativista canadense Naomi Klein, publicada no sítio da Santa Sé, 01-07-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Laudato Si' e a mão invisível que sufoca a vida - Ricardo Machado, jornalista e mestre pelo PPG em Comunicação da Unisinos.

Levei mais de 31 anos para ler uma Encíclica papal, e comecei com a Laudato Si’. Ao concluir a leitura, de um fôlego só, sinto-me diante de uma espécie de ode ao Outro, ao reconhecimento das singularidades da vida (não somente humanas) como uma potência da materialização divina e que, portanto, exige compaixão. Porém, antes apresentar as demais considerações, preciso ressaltar que não sou católico, nem cristão na acepção religiosa do termo (embora tente seguir a perspectiva humanista de Jesus).
Minha ignorância (no sentido da Grécia Antiga, a-gnostos), em vez de levar-me aos mistérios do deus judaico-cristão, tornou-me agnóstico. Não se trata de preguiça, ao contrário, é um esforço que no meu caso jamais gerou resposta, senão inúmeras e irrespondíveis perguntas. Minha voz, logo, é marginal. Eu sou o Outro, o estrangeiro. Eu e a Igreja somos, na mesma medida, estrangeiros um ao outro.
Dinâmica textual
No que se refere à dinâmica textual do documento apostólico, Laudato Si' é um exercício redacional muito sofisticado. Bergoglio é cuidadoso ao se expressar, postura que fica evidenciável sempre que se pronuncia publicamente. Sua Encíclica se desdobra em 246 parágrafos e duas orações. Constrói cada um deles de forma concisa e contundente, cuja fluidez narrativa disfarça um extremo cuidado na formulação das frases. Não há excessos, tampouco sobras. As primeiras frases sempre apresentam o ponto central a ser discutido no parágrafo e agenciam a mensagem. É um texto preciso.
Universo
Foram necessários aproximadamente 15 bilhões de anos para que o universo (talvez multiverso) alcançasse o estágio atual, processo resultante de um momento inicial de fusão da poeira estrelar que deu origem aos componentes químicos que formam os seres humanos e tudo o mais que há de natural na face da terra. Ainda que Francisco não retome, objetivamente, a Teoria do Big Bang na Encíclica, ele lembra que Deus é trino (portanto relacional) e nos convida a pensar na nossa relação com todas as formas de vida e no vagar misterioso de cada uma delas.
“O universo não apareceu de uma onipotência arbitrária, de uma demonstração de força ou de um desejo de autoafirmação. A criação pertence à ordem do amor”, (LS, 77). O amor, antes de tudo, é (ou deveria ser) uma relação dialética de reconhecimento (semelhança) e estranhamento (alteridade). Reconhecer o Outro implica ter dimensão da complexidade do Universo.
A mão invisível
A mais maldita herança do racionalismo judaico-cristão, imanentizado na modernidade pelo soberano do Estado, é a ideia vulgar de um ser todo poderoso que domina tudo e todos. Esta vertente racional desemboca, na aurora do século XXI, no paradigma tecnocrático – e no tecnoeconomicismo - das relações contemporâneas, que se desenvolve à luz de um “antropocentrismo desorientado”, como classifica Bergoglio.
Essa ideia de que há algo onipotente, a quem (ou a que) devemos cega obediência e que é capaz de gerir todas as formas vidas, fez emergir a “mão invisível” que sufoca as vidas e permite a vazão de toda a sorte de barbárie e do crime organizado (inclusive o de Estado e o da iniciativa privada). Em contrapartida todos conhecemos, mas fingimos não ver (eis a Crise Ecológica), a face horrorosa desta dinâmica, isto é, a dor dos miseráveis, dos imigrantes, das crianças exploradas sexualmente, dos idosos, dos animais, da riqueza biológica e da atmosfera, em última medida, que sentem seus corpos desfalecerem pelo sufocamento do mercado.
A cultura do relativismo é a mesma patologia que impele uma pessoa a aproveitar-se da outra e tratá-la como mero objeto. (…) É também a lógica interna daqueles que dizem: 'Deixemos que as forças invisíveis do mercado regulem a economia, porque os seus efeitos sobre a sociedade e a natureza são danos inevitáveis’”, (LS, 123) critica Bergoglio.
A casca de Noz
Frente tamanho desafio, desde uma perspectiva cujo paralelismo observacional se encontra com o paradigma da complexidade de Edgar Morin, o Papa propõe uma Ecologia Integral. Neste terreno da teoria teológica que exige ferramentas conceituais que não disponho, me furto às reflexões, pois estas já foram tratadas de forma mais produtiva por especialistas da área.
No entanto, retomo o paradigma da física quântica, cuja sensibilidade me é mais próxima. Assim, talvez, a síntese mais vulgar que se possa fazer da Laudato Si' é interpretá-la como um manifesto à preposição “e”, que deve substituir a ideia do racionalismo newtoniano – e moderno – que interpreta o mundo a partir da lógica do “ou”, que invés de propor uma abertura às relações, à complexidade, fecha-se no individualismo cartesiano.“Quando as pessoas se tornam autorreferenciais e se isolam na própria consciência, aumentam sua voracidade”, (LS, 204) reflete Bergoglio.
Outro sujeito de capacidade textual igualmente brilhante, chamado Stephen Hawking, parafraseou Shakespeare, em seu livro o Universo na casca de noz (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009), ao lembrar de uma cena não publicada em Hamlet em que o personagem diz: “Eu poderia viver numa casca de noz e ainda assim me sentir o dono do universo”.
Eis a Laudato Si', eis o convite à reflexão proposto por Francisco. Caberá a nós quebrarmos a casca da noz ou seguirmos isolados na lógica assassina de não reconhecimento ao Outro.

in Instituto Humanitas Unisinos, 03 de julho de 2015.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

O grito da terra, dos pobres e dos migrantes Pe. Alfredo J. Gonçalves

"As mudanças climáticas são um problema global com graves implicações ambientais, sociais, econômicas, distributivas e políticas, constituindo atualmente um dos principais desafios para a humanidade. Provavelmente os impactos mais sérios recairão, nas próximas décadas, sobre os países em vias de desenvolvimento. Muitos pobres vivem em lugares particularmente afetados por fenômenos relacionados com o aquecimento, e os seus meios de subsistência dependem fortemente das reservas naturais e dos chamados serviços do ecossistema como a agricultura, a pesca e os recursos florestais. Não possuem outras disponibilidades econômicas nem outros recursos que lhes permitam adaptar-se aos impactos climáticos ou enfrentar situações catastróficas, e gozam de reduzido acesso a serviços sociais e de protecção. Por exemplo, as mudanças climáticas dão origem a migrações de animais e vegetais que nem sempre conseguem adaptar-se; e isto, por sua vez, afeta os recursos produtivos dos mais pobres, que são forçados também a emigrar com grande incerteza quanto ao futuro da sua vida e dos seus filhos. É trágico o aumento de emigrantes em fuga da miséria agravada pela degradação ambiental, que, não sendo reconhecidos como refugiados nas convenções internacionais, carregam o peso da sua vida abandonada sem qualquer tutela normativa. Infelizmente, verifica-se uma indiferença geral perante estas tragédias, que estão acontecendo agora mesmo em diferentes partes do mundo. A falta de reações diante destes dramas dos nossos irmãos e irmãs é um sinal da perda do sentido de responsabilidade pelos nossos semelhantes, sobre o qual se funda toda a sociedade civil” (Laudato Si’, nº 25).


Vale a pena citar todo esse número da nova Carta Encíclica do Papa Francisco – Laudato Si’ – centrado sobre as mudanças climáticas e as implicações para os, digamos, "refugiados climáticos”. Estes, apesar de seu "trágico aumento”, não são reconhecidos como tais. Prevalece, como se pode ver, a "indiferença geral”. Forçados a fugir de sua terra natal e ignorados quanto ao seu estado de refugiados, terminam ao mesmo tempo praticamente eliminados da própria face do globo terrestre, "nossa casa comum”, título do documento pontifício. Indesejados e rechaçados, constituem, aos milhares e milhões, os errantes e excluídos de uma "economia que mata e descarta”, insiste o Papa.

Uma das ideias centrais do texto – espécie de fio condutor que percorre suas páginas – é a estreita relação entre "a dívida ecológica”, de um lado, e a "dívida social”, de outro. Na verdade, duas faces da mesma moeda, uma vez que os primeiros a sofrerem pela devastação dos ecossistemas são aqueles que não dispõem de meios para defender-se de inundações, secas e outras catástrofes do gênero. "As agressões ambientais atingem o povo mais pobre”, diz o Pontífice, citando a Conferência Episcopal Boliviana (LS, nº 48). Em outras palavras, a degração do meio ambiente e a degradação do ser humano ocorrem simultaneamente, por isso mesmo não podem ser consideradas desvinculadas uma da outra. Qualquer conjunto de políticas públicas destinadas a sanar as feridas e "sintomas de doença” (LS, nº 2) do planeta terra, deve levar em conta as "feridas sociais” (LS, nº 6) das populações mais afetadas, debilitadas e indefesas.

questão ecológica vem ganhando "maior consciência” e crescente sensibilidade de movimentos, entidades e organizações não governamentais (LS, nº 19). Insere-se intrisecamente na questão social, por sua vez fio condutor de toda a Doutrina Social da Igreja. Disso resulta uma "intima relação entre os pobres e a fragilidade do planeta” (LS, nº 16). Hoje – diz literalmente o Papa – "não podemos deixar de reconhecer que uma verdadeira abordagem ecológica sempre se torna uma abordagem social, que deve integrar a justiça nos debates sobre o meio ambiente, para ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres” (LS, nº 49).

Os migrantes – refugiados climáticos – costumam desmascarar essa estreita ligação entre os danos causados ao meio ambiente e os danos sofridos pelos extratos mais desfavorecidos da população mundial. O grito da terra, dos pobres e dos migrantes é um só e único. Muitos, impossibilitados de autodefesa, são pressionados à fuga em massa. Isto quer dizer que as soluções apontadas pelo documento, insistindo sempre sobre o protagonismo dos envolvidos, não podem deixar de lado os dramas dos migrantes, refugiados, prófugos, fugitivos... número que hoje alcança dezenas de milhões.

Pe. Alfredo J. Gonçalves

Assessor das Pastorais Sociais

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Laudato Si’ – Prestemos atenção às notas de rodapé

escreve Kevin Ahern, eticista teológico e professor assistente de Estudos Religiosos na Manhattan College, em artigo publicado pelo sítio America, 18-06-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.
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Além da utilização de uma linguagem inclusiva de gênero – a primeira nas encíclicas sociais católicas –, um dos aspectos mais surpreendentes de Laudato Si’ são as notas de rodapé. Para ser honesto, elas foram uma das primeiras coisas que olhei. Francisco se afasta da tradição das encíclicas sociais católicas ao citar várias fontes não católicas oficiais, tais como documentos da ONU, as conferências episcopais nacionais e, de modo mais surpreendente, um místico sufi!
Agora, embora possa parecer um tanto pedante para a maioria dos leitores, as notas de rodapé de Francisco constituem um afastamento significativo da tradição. A maioria das encíclicas papais oficiais do ensino social católico têm um estilo específico e as notas de rodapé desempenham um papel importante. Diferentemente das citações que meus alunos usam em seus trabalhos para referirem a origem das ideias apresentadas, as notas de rodapé no ensino papal têm funcionado como uma forma de alertar o leitor para a continuação de uma tradição. Em geral, as notas de rodapé não estão muito preocupadas em fazer referências propriamente; estão mais interessadas em comunicar que este ensino está harmonia com uma longa tradição no assunto, mesmo quando ele pode estar discordando ligeiramente da fonte.
Por exemplo, a Caritas in Veritate, a encíclica social de 2009 do Papa Bento XVI, dispõe de 159 notas. A maioria delas fazem referência aos ensinamentos sociais oficiais de outros papas; várias destas notas se referem aos seus próprios ensinamentos; algumas mencionam os escritos de importantes santos ou dicastérios vaticanos. Nenhum menciona fontes não católicas ou não doutrinárias. Em grande parte, é assim também com as encíclicas sociais de São João Paulo II.
Esta tradição reflete uma teologia específica do papado que entende que o papa deva ser o professor principal da doutrina católica com uma rígida divisão dos papéis entre professor e aluno. Como tal, o papa nunca precisaria aprender de fontes “abaixo” dele. Isso também inclui as declarações emitidas pelas conferências nacionais dos bispos. Por mais de perto 50 anos, tem havido um longo debate quanto ao estatuto do magistério das declarações feitas por grupos de bispos em nível nacional, continental e mundial.
Sob os pontificados de João Paulo II e Papa Bento XVI, as publicações sociais das conferências episcopais nacionais e dos sínodos foram percebidas como carecendo de competência para um ensino (magisterial) com autoridade. Esta alegação é feita frequentemente pelos críticos das políticas sociais da Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos – USCCB (na sigla em inglês), em particular contra os seus ensinamentos sobre a justiça econômica, a paz e o racismo. Em Evangelii Gaudium, o Papa Francisco abordou este ponto quando pediu pelo desenvolvimento do “estatuto das Conferências Episcopais” com “autêntica autoridade doutrinal” para melhor servir a missão da Igreja (n. 32).
Embora não tenha sido bem recebida por todos, Laudato Si’ afirma a autoridade destas estruturas regionais com 20 citações de declarações de 18 conferências episcopais nacionais e regionais. Isso inclui o documento da USCCB, de 2001, intitulado “Global Climate Change: A Plea for Dialogue, Prudence and the Common Good”. A seleção de documentos de várias regiões do mundo parece querer significar algo referente às preocupações expressas pelos bispos quanto aos problemas em jogo. Com efeito, ela construtivamente mostra como a promoção de uma ecologia integral não é apenas a preocupação do Papa Francisco. Embora sutil, é também um aceno para uma visão indutiva e mais descentralizada de Igreja, onde as declarações (os documentos) das conferências episcopais têm valor na formação do ensino social católico universal.
Além de quebrar a tradição ao citar textos de conferências nacionais, o Papa Francisco lança mão de uma gama de pensadores católicos. Ele cita oito vezes Romano Guardini, sacerdote e teólogo influente (1885-1968). Faz uma referência surpresa para o controverso jesuíta Teilhard de Chardin, na nota n. 53, e cita por extenso o Patriarca Bartolomeu no início do texto. Faz também referência a um livro [de John Chryssavgis] publicado pela Fordham University Press, na nota n. 15.
Talvez a referência mais surpreendente é a um místico sufi muçulmano, Ali al-Khawas, na nota n. 159, que diz:
“Um mestre espiritual, Ali Al-Khawwas, partindo da sua própria experiência, assinalava a necessidade de não separar demasiado as criaturas do mundo e a experiência de Deus na interioridade. Dizia ele: ‘Não é preciso criticar preconceituosamente aqueles que procuram o êxtase na música ou na poesia. Há um ‘segredo’ subtil em cada um dos movimentos e dos sons deste mundo. Os iniciados chegam a captar o que dizem o vento que sopra, as árvores que se curvam, a água que corre, as moscas que zunem, as portas que rangem, o canto dos pássaros, o dedilhar de cordas, o silvo da flauta, o suspiro dos enfermos, o gemido dos aflitos…’”.
Ficamos mais impressionados ainda quando lemos a seção intitulada “Os sinais sacramentais e o descanso celebrativo” (n. 233). De um ponto de vista teológico, a inclusão de textos explicitamente religiosos de fora da tradição católica levanta questões interessantes sobre o desenvolvimento da doutrina: O que significa para um documento oficial de doutrina social citar um místico muçulmano? O que isso diz sobre o papel do Espírito Santo para além da Igreja?
Entre as 172 notas de rodapé desta encíclica, nem todas são de fontes surpreendentes. Os escritos de João Paulo II são citados 37 vezes – o mais próximo é o Papa Bento XVI, que vem em segundo lugar com 30 citações. Enquanto alguns podem tentar distanciar os ensinamentos sociais de Francisco sobre o meio ambiente e a economia dos ensinamentos de seus antecessores, estas referências – e este é o propósito delas – devem ajudar a lembrar ao leitor que ele está se baseando numa tradição profundamente estabelecida de preocupação social.
Tal como acontece com outras encíclicas papais, Laudato Si’ destaca a importância de prestarmos atenção às notas de rodapé. Como digo aos meus alunos nos cursos sobre doutrina social católica: sigam as notas de rodapé. Talvez nos surpreendamos com o lugar aonde elas podem nos levar.

Quinta, 25 de junho de 2015. in Instituto Humanitas Unisinos.


A alegria revolucionária nas palavras de Francisco. Artigo de Carlo Petrini

A opinião é do chef italiano Carlo Petrini, fundador do movimento Slow Food, em artigo para o jornal La Repubblica, 19-06-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto in Instituto Humanistas Unisinos Domingo, 21 de junho de 2015
Francisco, no fim da encíclica Laudato si', antes de propor as duas orações conclusivas, afirma ter feito uma "reflexão jubilosa e ao mesmo tempo dramática". Gostaria de dizer, porém, que é a alegria que prevalece – e afirmo isso como leitor não crente –, embora os pressupostos sejam dolorosos.
É a alegria de poder acreditar em uma mudança revolucionária e em uma nova humanidade. É a alegria que aprofunda as palavras do papa, cheias de esperança, mesmo quando descrevem os piores desastres em que nos encontramos.
Essa encíclica, de fato, é, principalmente, uma dura mas objetiva tomada de consciência sobre a realidade da nossa casa comum, a Terra com a sua Criação. É muito lúcida na análise de quanto dano nós fizemos às coisas e às pessoas, definindo os nossos modelos de desenvolvimento de maneira enlouquecida, razão pela qual deixamos que a nossa política se subjugasse à economia. e a economia, à tecnologia.
Na sua primeira parte, o texto é um perfeito resumo, altamente educativo, da situação em que o mundo se encontra: poluição e mudanças climáticas, a questão da água, a perda de biodiversidade com as consequências da deterioração da qualidade da vida humana, a degradação social, a propagação da iniquidade em um mar de indiferença e de suposta impotência. Um quadro que não deixa margens a dúvidas, nem mesmo científicas.
Ele nos fala da realidade de forma crua, mas não interpretável e, da realidade, na qual várias vezes e de forma nada casual a encíclica se ancora, ele parte para as considerações sucessivas. Saber olhar, com a mesma capacidade de se surpreender e de enternecer pela beleza da Criação própria de São Francisco – essa magnificência está toda no título,Laudato si' – também significa saber compreender um estado humano não mais adequado à casa comum e mergulhar plenamente no nosso tempo.
O apelo a "cultivar e guardar", como está escrito no Gênesis, citado em várias ocasiões, é uma referência a algo antigo e ancestral, que nos pede desde o início dos dias para viver com equilíbrio a nossa natureza mais profunda de seres humanos. Enquanto isso, torna-se um compromisso revolucionário para o futuro. Não há dúvida de que essas palavras representam um dos momentos de virada mais importantes na história da Igreja e, sobretudo, da humanidade.
A novidade está na mensagem universal de Francisco: ele, como não deixou de afirmar desde os primeiros passos do seu pontificado, pretende falar também com quem professa outras fés e aos não crentes, e faz isso escolhendo um tema muito atual, mas também sem tempo, eterno, porque realmente transcende a vida terrena do homem.
Francisco se dirige a todos, como fez João XXIII na Pacem in Terris, em 1963, que dedicou o texto "a todos os homens de boa vontade". Forte é o apelo ao diálogo entre as religiões, entre ciência e religião, entre saberes tecnológicos (e tecnocráticos) e sabedorias antigas, entre paradigmas e entre todos os homens. Que ninguém se sinta excluído das palavras do Santo Padre: ninguém pode ficar indiferente diante da descrição da dramática realidade em que se encontra. Devemos "nos sentir unidos por uma mesma preocupação".
Não são poucos os homens da ciência que previram um futuro em que a raça humana se extinguirá, se continuar consumindo mais recursos do que a natureza dispõe. Além disso, Francisco também escreve: "Se alguém observasse de fora a sociedade planetária, se admiraria com tal comportamento que às vezes parece suicida".
Esses cientistas também concordam em dizer que o fim da humanidade não representaria o fim do planeta, a biosfera sobreviveria à espécie humana, sem muito esforço, implementando os devidos ajustes ao seu complexo sistema de interações entre seres vivos, sejam vegetais ou animais.
"Nós não somos Deus, a terra nos precede e nos foi dada." Por um lado, a hipótese da extinção humana, que eu não considero totalmente improvável, nos faz intuir como até para quem vive uma dimensão espiritual diferente a vida terrena, necessariamente, deve ser atribuída a uma renovada abordagem diante da história do mundo. Por outro lado, tudo isso nos exorta, indistintamente, a interagir de forma mais responsável com o resto das espécies vivas.
É um passo que não pode mais ser prorrogado, para tornar reciprocamente profícuo a nossa existência sobre este planeta e preservá-lo em favor das gerações futuras, mas sobretudo da própria Criação: um sistema tão complexo a ponto de não ser ainda plenamente conhecido pelo homem, em que o indemonstrável – segundo os meios científicos de que dispomos – ainda tem um peso decisivo na ordem das coisas, misterioso para quem não crê, que diz respeito ao próprio íntimo e à fé para os crentes, caracterizado, porém, por uma beleza que nos liga à nossa responsabilidade.
Várias vezes, o papa fala de beleza, como critério estético e espiritual, que deve guiar a nossa ética e a nossa política. A mesma beleza que São Francisco canta.
Na exortação a cultivar e a guardar, para além de um sentido epocal filosófico e teológico que está totalmente na definição de "ecologia integral", entreveem-se também questões candentes que podem ser definidas como políticas: com tal força que nos leva, sem possibilidade de escolha, a uma mudança radical, que deverá renovar o homem e as coisas feitas pelo homem.
No texto de Francisco, não faltam referências a um sistema tecnofinanceiro que não funciona e demonstra a sua incompatibilidade com uma sociedade harmônica e justa. Não só isso, mas também a centralidade da política, entendida como capacidade de desenhar o mundo que queremos e de fazer as escolhas necessárias para realizá-lo, é reafirmada diante de um momento histórico em que a perseguição quase espasmódica do lucro impede que os governantes tomem decisões clarividentes, capazes de imaginar um futuro para além dos prazos eleitorais.