pense

"Eles tentaram nos enterrar, mas não sabiam que éramos sementes! "

Proverbio mexicano
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quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

IMPRESSIONANTE RELATO DO HORROR EM BRASÍLIA...

AI-5 SE ATUALUZA APÓS  48 ANOS...
ESTADO DE EXCEÇÃO SE AFIRMA...

HÁ QUE COMPARTILHAR O MAIS AMPLAMENTE...

Saímos de Campina Grande- PB no domingo, dia 27. Éramos três professores: um do IF e dois da UEPB, e os demais 42 eram estudantes secundaristas e universitários. No dia da nossa chegada, nos concentramos na UNB.
No dia seguinte, fomos ao local das atividades. Após concentração e distribuição do almoço no MEC, assistimos a fala da Maria Lúcia Fatorreli. Em seguida, caminhamos para a concentração no Museu e de lá caminhamos em direção ao Senado. Nunca tinha visto tanta gente na rua lutando pela mesma causa. Não sou a melhor pessoa para números, mas acredito que tínhamos 50.000 pessoas na rua. A energia era forte, uma mistura de determinação e esperança. Nosso grupo rapidamente chegou ao gramado que antecede o espelho d'gua. Sem aparente identificação,  os policiais já estavam posicionados para nos receber. Até então não tinha havido nenhum tipo de embate, apenas algumas pessoas dentro da água. Do lado oposto em que estávamos, uma mulher dizia algo para os policiais. Nesse momento tive a idéia de abrir a bolsa e pegar o celular. Nessa fração de segundo ouvi uma vaia generalizada e levantei os olhos: a mulher estava inerte na água. Todos se revoltaram com o fato do policial jogar spray de pimenta algumas vezes e ela não recuar. No entanto, a maior revolta foi a agressão física que a fez desmaiar na água: enquanto jogava o spray, ele a chutou no rosto. Lembrem- se que ela estava no nível mais baixo ( na água) e ele no terraço do Senado. Sim, a polícia provocou e começou as agressões. Aí tudo virou um caos. Um grupo virou um carro branco, acendeu o fogo e em seguida o empurrou em direção aos policiais, numa espécie de barricada para tentar resgatar a moça. Outras pessoas foram de mãos para cima para tentar negociar a retirada garota, mas também levaram spray de pimenta.  Nesse momento, as bombas de gás lacrimogêneo começaram a cair por todos os lados. Uma caiu na nossa frente, saímos de lá com aquela sensação de queimor insuportável, mas, ao mesmo tempo, já estávamos com pequenas quantidades de vinagre ( já que este e o leite de magnésio são eficazes para barrar os sintomas que o gás causa). Todas essas recomendações recebemos e propagamos na viagem, bem como as estratégias de rota de fuga ( com uma montagem de um mapa do plano piloto) em caso de embate com a polícia, dispersamento ou desencontro.
A medida em que recuávamos, a polícia avançava. Ela não poupava ninguém. Quando o protesto começava a tomar corpo, já se aproximava do fim do expediente dos trabalhadores. Ninguém foi poupado. Vi idosos, mulheres com crianças, e nós, os militantes, apanharem muito. O desespero era fugir do gás e, simultaneamente, retirar quem estivesse atingido ao lado: foi a maior lição de solidariedade que vivi.
Nossa janela de fuga ( sim, porque 95% das pessoas que lá estavam não foram preparadas para uma guerrilha urbana) foi proporcionada pelos Blacks BLOCKs. Eles retardaram o avanço da polícia e criaram, junto com alguns militantes mais experientes, barricadas para conter o avanço policial. Eles também apanharam muito. Carros foram queimados para distrair atenção dos agressores, painéis e alguns prédios de ministérios foram quebrados na tentativa de diminuir as agressões e salvar as pessoas feridas.
Nesse momento percebemos os helicópteros ( eu contei 4 diferentes). No início eu achei que era apenas para acompanhamento da movimentação da massa. Já no início da noite, algumas aeronaves começaram a fazer voos mais baixos e, logo em seguida, estourava uma nova bomba. Eu não vi cair nenhuma bomba dos helicópteros, mesmo porque o inferno estava no solo, mas a polícia estava muito longe para que as bombas chegassem a nós. O pior aconteceu quando a cavalaria entrou em ação. O pânico tomou de conta. As pessoas corriam enlouquecidas com medo de serem pisoteadas pelos cavalos. E o confronto seguiu nesse terror. Estávamos assustados demais para reagir e, em nosso grupo, a prioridade era proteger os alunos já que a maioria deles nunca tinham presenciado embates tão duros. Hoje percebo que o país inteiro não tinha vivido tão recentemente tamanha truculência.
Conseguimos enviar boa parte do grupo para o ônibus, mas ainda tínhamos que pegar os outros no nosso ponto de fuga. Criou-se assim uma espécie de equipe de resgate. Nesse momento trocamos de blusas, tiramos botons/adesivos e jogamos as bandeiras fora. O mais importante era restabelecer em segurança o grupo. E as bombas continuavam a cair. Um dos aspectos que a bomba causa é o impacto psicológico: elas tem um som ensurdecedor e treme o chão quando toca o solo. Ainda assim, depois de juntarmos quase todos e o clima aparentemente ter  acalmado, ainha tínhamos os desaparecidos. Só tínhamos duas alternativas: hospital ou cadeia. A ajuda dos companheiros que não estavam no protesto foi fundamental. Eles nos ajudaram a localizar várias pessoas, entre elas, nossa companheira desaparecida que estava no hospital da UNB. Ela foi socorrida por uma enfermeira que tinha na mão o magnésio e a achou desacordada debaixo de uma árvore. Não sabemos seu nome, apenas que salvou nossa aluna. Para esta pessoa os meus mais sinceros agradecimentos. Não são todos que se dispõe a salvar a vida do outro, colocando a sua própria vida em jogo. Não podemos esquecer da equipe médica que a atendeu. Não tenham dúvidas de que foi um belíssimo trabalho, já que nossa aluna possuía uma fragilidade pulmonar que complicou os sintomas do gás em seu corpo. Obrigada equipe médica da UNB.
Ao acordar, nossa aluna conseguiu passar as informações para o pessoal do hospital, que entraram em contato com familiares e professores de sua unidade de ensino que, por sua vez, entraram em contato conosco. Ela nos relatou que o hospital estava cheio e que, em sua maioria, mulheres eram as principais vítimas, sobretudo as que estavam com os seios desnudos. Impossível não fazer um leitura sociológica desse fenômeno.  Ela também nos relatou um caso de uma criança de ( aparente)10 anos. Ela e sua mãe estavam muito machucadas: a mãe com marcas roxas pelo corpo causado pelo cacetete, a criança com 15 pontos na boca em direção às maçãs do rosto. A mãe foi buscá-la na escola vestindo uma camisa do "Fora Temer" e, por azar, estava no olhou do furação. A mãe foi agredida pelo policial que, não satisfeito com o espancamento, partiu para agredir a criança.
Pude perceber que existia prazer em alguns policiais em agredir as pessoas, outros, nos indicavam com um olhar uma rota de fuga. Pessoas e pessoas.
Não posso deixar de mencionar o papel de alguns cidadãos de Brasília. Mesmo não estando no protesto, eles nos indicavam os possíveis caminhos para fugir daquela insanidade. Muito obrigada.
Já passava das 21h e ainda tínhamos alunos desaparecidos. Ficamos sabendo que a polícia tinha fechado a rodoviária e estava prendendo militantes dentro dos ônibus estacionados nas imediações da rodoviária. Ao mesmo tempo, dois dos nosso alunos estavam em outra localidade com uma delegação diferente. Decidimos pegar um táxi e entrar na rodoviária para procurarmos o último desaparecido. Para nossa sorte, recebemos mensagem de que ele tinha encontrado nosso transporte e estava a salvo. Assim retornamos ao ônibus e saímos de Brasília naquele mesmo momento.
Sentimos falta da presença da CUT e MST.  Acredito que se eles estivessem lá o resultado poderia ser diferente. No entanto, as entidades que estavam, nos deram maior apoio possível, inclusive, de ordem tática. Não foi a toa que a polícia deu voz de prisão aos manifestantes que estavam no alto do trio elétrico chamando a militância a resistir ao avanços dos policiais.
Acredito que o protesto de ontem e seus desdobramentos deram início a outro momento na história do país. E o protagonismo será da juventude. Cabe a nós, os professores, o papel de elaborar proteger, orientar, salvar, zelar e agir por nosso jovens.
Me desculpem eventuais erros e equívocos, mas ainda estamos na estrada rumo ao nosso destino. Ao menor sinal de Internet, recebemos muitos pedidos de informações e, por este motivo, fiz esse relato.
Nesse momento, 20:56 do dia 30/11/16, em algum lugar desta enorme Bahia, decidi escrever esse texto como forma de informação, mas também de expurgo para a compreensão geral dos chocantes acontecimentos de ontem.

É imprecionante o crescimento individual deste grupo de alunos. Eles estão mais coesos e solidários. No início da viagem houve pequenos ruídos por causa dos posicionamentos de um grupo de alunos com outro grupo que tinha orientação  lgbt. Neste exato momento estou sentada entre dois grandes grupos que estão debatendo questões específicas. Os rapazes mais conservadores estão discutindo gênero com parte do grupo lgbt e o outro discutindo formas de exploração do trabalho. Se tornaram homens e mulheres, literalmente, do dia pra noite. Eu apenas os observo, afinal quem mais está aprendendo aqui sou eu. E meu coração está inundando de amor e felicidade.

A PEC passou e irá passar. Mas o sentimento de que fiz ( fizemos) tudo que estava ao meu (nosso) alcance me conforta, mas não me resigna. Saio mais convicta da necessidade da luta.

Mauriene Freitas, Profa da UEPB.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Qual o significado do anel de tucum usado por muitos religiosos?

Qual o significado do anel de tucum usado por muitos religiosos?

Pe. Lucas Emanuel, C.Ss.R

Historicamente falando, o Anel de Tucum nasce no tempo do Império do Brasil. Enquanto a realeza usava joias de metais e ouro, os escravos e índios, sem acesso a esses materiais, criaram o Anel do Tucum. Tucum é uma Palmeira comum na Amazônia. Fizeram, então, desse objeto rústico um símbolo de amizade entre si, pactos matrimoniais e, também, de resistência na luta por libertação. Desse modo, o anel de Tucum era um símbolo cuja linguagem, só eles conheciam. Um símbolo secreto da amizade deles e de suas lutas cotidianas. Mais tarde, os cristãos passam a ter no Anel de Tucum um símbolo de fé e compromisso. Especialmente com a Teologia da Libertação, nos anos 60, quando o apelo às causas dos mais pobres e abandonados começa a crescer, não só no Brasil como também em nossa América Latina. Tivemos, portanto, nesse período um grupo grande de pessoas dedicadas à luta dos mais fracos, o que rendeu muitos testemunhos e martírios. Dom Pedro Casaldáliga é um exponente que nos retrata essas lutas. Esse ilustre Bispo Profeta, num Filme sobre o Anel de Tucum, nos apresenta o significado do anel com essas palavras: “Anel de Tucum é sinal da aliança com a causa indígena e com as causas populares. Quem carrega esse anel significa que assumiu essas causas. E, as suas consequências”. Dizendo isto, lança o convite: “Você toparia levar um anel? Topa?”. As causas de ontem se encontram com as causas de hoje. Nossas lutas mudaram de cenários e nomes e os pobres ainda continuam excluídos e oprimidos. Por isso, o anel de Tucum quer simbolizar uma fé engajada, um compromisso com os pobres, com os sem voz e os sem vez, um compromisso com a VIDA!
Jesus nos revela que Deus está ao lado dos pobres e quer promover sua dignidade, no rosto do pobre encontramos o rosto de Deus. “Na verdade vos digo: toda vez que fizestes isso a um desses mais pequenos dentre meus irmãos foi a mim que o fizestes!” (Mt 25, 40). Portanto, se nos comprometemos às causas dos preferidos de Deus é com Ele que nos comprometemos!


 


quarta-feira, 5 de agosto de 2015

‘Hoje, os meninos não estão tendo tempo de chegar ao sistema prisional, eles morrem antes’

Entrevistada por Mariana Oliveira e Luciana Guedes, equipe da Anistia Internacional Brasil.

Mônica Cunha é uma lutadora e basta olhar e escutar para ter certeza. Mulher, negra, do subúrbio do Rio de Janeiro, criou três filhos. Há 14 anos, sua vida virou de ponta-cabeça. Um de seus filhos, Rafael, de 15 anos, foi apreendido pela polícia depois de participar de um roubo. A dor como mãe a conduziu por caminhos de aprendizado e de mobilização. Hoje, ela se orgulha de ser uma das fundadoras do Movimento Moleque, que promove direitos de adolescentes que estão no sistema socioeducativo e seus familiares.
anistia
O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) se transformou em seu livro de cabeceira. Depois de mais de 10 anos de dedicação, ela sabe como poucos onde estão os problemas e como poderiam ser algumas soluções. Nesta entrevista exclusiva à Anistia Internacional, ela fala sobre sua história de vida, suas motivações, maioridade penal e os 25 anos do ECA.


Anistia Internacional – Como nasceu o Movimento Moleque?

Porque tive um filho, o filho do meio, o Rafael, que veio a cometer o primeiro ato infracional aos 15 anos, em 2001. Eu morava em São Cristóvão [Rio de Janeiro], trabalhava numa pensão onde vendia quentinhas. Certo dia, me ligaram da delegacia dizendo que o meu filho estava preso. Eu não acreditei e bati o telefone. Em seguida, uma detetive ligou com todos os meus dados, pedindo que eu comparecesse à DPCA – Delegacia de Proteção à Infância e ao Adolescente.
Quando cheguei à delegacia, meu filho estava algemado e sujo, como se o tivessem arrastado pelo chão. Eu fiquei desesperada e, até esse momento, eu não sabia o que tinha acontecido. Corri para abraçar meu filho, mas um dos policiais, que estavam ao lado dele, o segurou e falou para mim: "Na hora que vocês estão parindo bandido, não percebem. Aí a gente vai na rua para limpar e vocês vêm cheias de amor. Aí o bandido tem mãe”. Eu, abusada, simplesmente respondi: "Quando eu pari meu filho, o médico só disse que foi do sexo masculino. Não disse que era bandido não”.
Isso me fez enxergar a necessidade de criar o Movimento Moleque, que nasceu no dia 10 de dezembro de 2003, com as mães dos meninos de todas as unidades do Padre Severino (unidade do sistema socioeducativo da cidade do Rio de Janeiro), vestidas de preto e viradas de costas para a porta da instituição.
O Movimento Moleque é de denúncia, de reivindicações. Ele apresenta para as famílias de adolescentes cumprindo medida socioeducativa os direitos que elas têm, e os ajuda a cobrar sua implementação. É para empoderar essas mães, porque elas vão poder não só se ajudar, como ajudar os meninos.
Antes do Estado controlar esses jovens, quem deve fazer isso são as mães. Foram elas que deram a vida para esses meninos, não o Estado. E são elas que cobram para que o Estado implemente o Estatuto da Criança e do Adolescente.

reproducao
AI – Como foi sua experiência no sistema socioeducativo com o Rafael?

Eu fui com meu filho ao Degase – Departamento Geral de Ações Socioeducativas – e, ao chegarmos lá, a assistente social perguntou nosso endereço. Quando eu disse "São Cristóvão”, ela disse que colocaria meu filho no bloco do Comando Vermelho. Eu tomei um susto e respondi "Quem comanda meu filho sou eu!”. Só então ela me explicou que devido ao local onde morávamos, se ela o colocasse em um bloco de outra facção, ele poderia ser assassinado.
Rafael, até os 17 anos, teve quatro entradas no Degase. Quando ele foi para a internação, levaram para o Educandário Santo Expedito. Quando eu cheguei para visitar, já sabia que eu precisava fazer alguma coisa, mas ainda não sabia o quê.
Em uma das minhas visitas, houve uma rebelião dos meninos contra os agentes. Nessas rebeliões, quem sempre sai perdendo são os meninos, porque os agentes ‘metem a porrada”. Esta não foi a principal violência que o meu filho sofreu lá dentro, mas ela, de fato, acontece.
Quando as mães entraram, os meninos estavam todos machucados, nós podíamos ver as marcas. Eu não aguentei. Levantei e disse: "Isso não pode mais continuar assim. Eu não pari meu filho para vocês baterem. Se fosse para bater, eu mesma fazia na minha casa”.
Eu pedi para falar com o diretor, fui como representante dos pais. O diretor quis fazer um acordo, pois ele dizia que não sabia de nada. Não via nada, não escutava nada e que toda a culpa era dos funcionários.

AI – E o que você fez?

A partir daí eu passei a fazer um trabalho, que era o que estava no Estatuto da Criança e do Adolescente, mesmo sem saber exatamente o que era o ECA. Eu acompanhava as reuniões, pedia para entrar para ver como eles se comportavam nos dias de semana etc. Por eu estar fazendo isso, um dos agentes me deu o ECA de presente e disse para mim: "Dona Mônica, lê o Estatuto na parte de adolescente autor de ato infracional. O que a senhora não entender, escreve no cantinho que depois eu explico”. Aí eu fui entendendo, que aqueles meninos tinham direitos, por mais que tivessem cometido ato infracional.
Enquanto eu esperava nas filas para a visitação, aos domingos, eu já via a necessidade de conversar com essas famílias. Eu percebia, nas conversas, que as pessoas tinham origens humildes, em geral, o nível de escolaridade era mais baixo que o meu e não tinham informação nenhuma. Eu comecei a pensar "Não sou só eu que preciso saber do Estatuto não, esse povo também precisa”.
Então, aos domingos, nas visitas do Santo Expedito, eu combinava com o pessoal de chegarmos às 8h da manhã, e tinha uma pedra onde eu sentava e ficava lendo o Estatuto com todo mundo. O que elas me perguntavam que eu não sabia responder, eu perguntava para o agente e respondia na outra semana. Fiz isso durante uns dois meses.
Também fiz esse trabalho com os meninos. Peguei um Estatuto, dei para um, que levou para dentro da internação e que fazia a mesma coisa.

AI – E isto cresceu, não foi?

Aí eu quis aprender mais. Esse mesmo agente, que me deu o Estatuto de presente, me apresentou para as organizações não-governamentais (ONGs). Tinha uma chamada Fundação Bento Rubião, que era uma grande instituição de direitos da criança e dos adolescentes, na década de 1990 (hoje, só trabalha com terra e habitação). Eles tinham um projeto do Ministério da Justiça para trabalhar com os jovens infratores e seus familiares, com o dinheiro depositado na conta deles, só não tinham um público. E quando eles perceberam que eu conseguia liderar aquele público, e que todos me ouviam, eles decidiram: é essa que vai levar o projeto até as famílias.
Foi então que a Fundação Bento Rubião me chamou para trabalhar com eles. Lá, eu descobri o que eram os direitos humanos e foi como nascer de novo. Trabalhei em diversas instituições, não só com jovens infratores, mas também com adolescentes de rua; que sofrem exploração sexual etc. Eu queria entender como um adolescente se torna autor de um ato infracional. Porque, na minha cabeça, eu nunca aceitei que se dormia de um jeito e acordava ladrão.
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AI – E você chegou a alguma conclusão?

Sim: que o adolescente se torna infrator, não nasce assim. E isso acontece por diversos motivos. Por conta do meio e do convívio. Ele pode ter sofrido violência doméstica, mesmo que não seja fisicamente. Ou vive um desamor dos pais. Isso acontece muito porque a gente vive, hoje, num mundo em que o capitalismo faz você procurar dinheiro 24 horas por dia. Não tem dinheiro que dê. Assim, a gente não tem tempo nem para a gente, imagina dedicar tempo ao outro? A gente vive dentro de uma guerra e os meninos estão sendo criados no meio disso tudo. E você, sem tempo, deixou de passar os valores que seus pais te ensinaram para os seus filhos. É muito difícil educar filho quando se sai de casa às 4h da manhã para trabalhar e só volta às 10h da noite.

AI – Você acha que a redução da maioridade penal pode ajudar esses jovens?

A redução da idade penal não ajuda esses meninos. Este assunto está muito forte por conta dos empresários e das privatizações dos presídios. A privatização é para dar dinheiro e, para isso, eles vão precisar dos presídios cheios. Quem é que vai estar lá dentro? É o adolescente, é o jovem, e não é qualquer jovem. É o jovem negro, porque é este jovem que está sendo criminalizado. São estes que estão sendo assassinados, são estes que estão sendo encarcerados. Hoje em dia, a medida socioeducativa tem cor: negra. O sistema penal tem cor: negra. E o cemitério, tristemente, também tem cor: negro.
Hoje, os meninos não estão tendo nem tempo de chegar ao sistema prisional aos 18 [anos]. Eles estão morrendo antes.

AI – Qual é a solução, na sua opinião?

A solução é a educação. Não só aquela que você aprende português e matemática na escola. Estou falando de educação, que fale de cidadania, que diga de onde você veio, quem é você, qual é o seu papel na sociedade. Que responda o porquê de um adolescente autor de ato infracional branco, morador de Ipanema, ter um tratamento diferenciado em relação ao adolescente autor de ato infracional, morador do Complexo do Alemão. Que responda o porquê do primeiro adolescente receber liberdade assistida e o morador do Alemão ser internado no sistema socioeducativo, mesmo os dois tendo cometido o mesmo crime.
AI – Você acha que se fosse possível implementar, de fato, as medidas previstas no ECA resolveríamos o problema?
Sim. A questão é que as pessoas saíram falando: "reduza, reduza, reduza” [a idade penal], mas nunca conseguiram implementar as medidas socioeducativas. Nem sabem se dá certo ou não.
No dia 13 de julho, o ECA completou 25 anos e há 22 anos pede-se redução da maioridade penal. Por que querer mudar algo que nem se sabe se dá certo ou não? Talvez porque, se implementar, vai dar certo. Se educar, se der suporte, esses meninos podem ser doutores amanhã. Mas eles serão doutores negros e isso muita gente não quer. A questão da redução da maioridade penal é também uma questão racial.

AI – E se você pudesse dizer alguma coisa a essas pessoas que apoiam a medida?

Eu diria que pelo menos leiam o Estatuto da Criança e do Adolescente. Quando vemos as pessoas que são a favor da redução da maioridade penal, muitas delas expressam ódio, raiva, vontade de que quem está naquela situação, não seja só punido, mas que sofra. O debate não deve ficar apenas no "sou contra” ou "sou a favor”. Que essas pessoas procurem se informar, porque se não nos preocuparmos com o outro, se ficarmos em cima do muro e não fizermos nada para ajudar, nós seremos responsáveis. Estaremos ajudando a colocar adolescentes no sistema prisional e acabando com todas as esperanças desses jovens. Não só deles, como de toda a família.




terça-feira, 28 de julho de 2015

A morte de Rafael pelo Bope e o genocídio de nossa juventude. Por Jean Wyllys

Mais uma vítima do BopeMais uma vítima do Bope
Publicado por Jean Wyllys no facebook:
Estou muito comovido por esta notícia e peço a vocês que dediquem alguns minutos para ler o que vou contar. Hoje mais cedo, através de amigos e assessores, soube da morte de Rafael Camilo Neres, um jovem trabalhador de 23 anos que foi assassinado pelo Batalhão de Operações Especiais (BOPE) da Polícia Militar do Rio de Janeiro no domingo à noite, enquanto entregava uma pizza no Morro da Coroa, no Rio Cumprido. Sim, ele era entregador de pizza, mas com esse emprego não ganhava o suficiente para viver, então trabalhava também fazendo entrega de livros para uma editora independente.
“Estou em estado de choque. Rafael, o nosso entregador, foi morto ontem pelo Bope”, contou o dono da editora, Sergio Cohn, a um dos meus assessores. “O Bope já está colocando ele como criminoso, apresentaram armas como se fossem dele. Vão tentar desqualificar. Ele era um garoto que criou uma empresa de entregas e, embora muito jovem, era muito sério e maduro, tanto que conversávamos em dividir um espaço para estocagem e logística conjunto. Lembro de Rafael ter feito outra entrega extraordinária, dois meses atrás, em um sábado na Casa Daros, para o lançamento da revista Mesa. Quando chegou, comentei que tinha ficado preocupado que ele não viesse, por conta de ser feriado e ter sido solicitado muito em cima hora. Ele respondeu imediatamente: ‘Não falto em compromissos’, mostrando sua seriedade e rigor”, diz Cohn. Eu já coloquei meu mandato a disposição dele e vou tentar contato com a família de Rafael.
A história se repete. A polícia chega na favela atirando, em alguma suposta operação “contra o tráfico”, mais uma vez, nessa absurda guerra contra as drogas que custa milhares de vidas. E sempre alguém morre. Às vezes, alguém envolvido no tráfico, geralmente um rapaz que chegou na “boca” procurando um meio de subsistência, numa sociedade que oferece a ele poucas alternativas. Outras vezes é um policial, que por um salário miserável arrisca a vida. Outras vezes, como aconteceu com Rafael, é alguém que simplesmente estava ali por alguma outra razão, como a entrega de uma pizza. Não vou falar em “vítima inocente”, porque inocentes são todos. Qualquer pessoa executada ilegalmente pelas forças de segurança é inocente. Só é culpado quem for condenado pela justiça depois ser julgado com direito de defesa e de acordo com a lei, e a execução não está prevista como pena no Código Penal. Não há, portanto, execuções justificáveis. Nenhuma.
Contudo, quando elas acontecem — e acontecem o tempo todo — a primeira reação da polícia é ocultar o crime dizendo que a vítima “era traficante”, palavra que é usada com uma grande flexibilidade semântica, incluindo desde Pablo Escobar até um menino de 16 anos que fazia uma bico para “o dono” do morro. Provas são plantadas, armas aparecem, drogas que não estavam ali são achadas. Às vezes, pouquíssimas vezes, algum jornalista investiga, a família ou os amigos conseguem falar com um parlamentar como eu, alguma ONG intervém, uma parte da classe média se comove, faz barulho e consegue ser ouvida de uma forma que os que moram no morro nunca são. E a verdade acaba sendo contada. Contudo, infelizmente, na maioria das vezes não é assim. O caso é fechado com a alegação de que a vítima era “traficante”, “bandido”, “marginal” — palavras que não são usadas quando um jovem branco, morador da Barra, vende drogas sintéticas numa festa badalada — e a manchete do jornal elogia o trabalho dos policiais. É o cotidiano de quem mora naqueles territórios das nossas cidades onde o Estado só chega em forma de blitz, caveirão e tiro de metralhadora.
A família de Rafael está tendo dificuldades para retirar o corpo do IML. Testemunhas contaram que o jovem pediu ajuda após tomar o primeiro tiro e o policial do BOPE pediu para as pessoas se afastarem, para ele poder “acabar o serviço”, e o baleou novamente. Um tiro no peito e outro no rosto. Enquanto a Câmara dos Deputados debate a infame proposta de redução da maioridade penal, o que vigora na vida real das favelas e das periferias é a pena de morte, executada pelas polícias no vácuo da legalidade. A polícia acusa, julga, condena e executa. E a justificativa disso é a fracassada e absurda “guerra às drogas”.
Segundo o Instituto de Segurança Pública (ISP), só no Rio de Janeiro, em 2013, houve 4761 homicídios, 16,7% mais que em 2012. Desse total, 416 foram assassinatos cometidos pela polícia e registrados sob o eufemismo de “auto de resistência”. O panorama é assustador em todo o país. Entre 1980 e 2010, a taxa de mortalidade por armas de fogo no Brasil cresceu de 7,3 a 20,4 por cada 100 mil habitantes, mas esse número, já altíssimo, dobra quando falamos dos jovens: quando as vítimas têm entre 15 e 29 anos, a taxa é 44,2. E a principal causa disso é a guerra às drogas.
Precisamos acabar com esse genocídio da nossa juventude, que atinge principalmente a juventude negra, pobre e favelada. É uma realidade que os poderes públicos não fazem nada para reverter. E precisamos desmilitarizar as polícias e acabar com a lógica de exército de ocupação e combate contra os destituídos de cidadania que elas praticam, amparadas por governos e pelos discursos fascistas que proliferam na grande mídia. Se não mudarmos com urgência esse quadro, vamos continuar chorando mais e mais meninos como Rafael.
Precisamos dizer basta a essa lógica perversa. Não acabou, tem que acabar.

in: 
Postado em 28 jul 2015