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"Eles tentaram nos enterrar, mas não sabiam que éramos sementes! "

Proverbio mexicano
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segunda-feira, 24 de agosto de 2015

A encíclica verde de Francisco

Maurício Waldman, sociólogo e Doutor em Geografia e mestre em antropologia, em artigo publicado pelo jornal O Imparcial, 16-08-2015. 
São claros os sinais do quanto o pontificado do papa Francisco volta-se para questões candentes do novo milênio. Neste particular, o argentino Jorge Mario Bergoglio é um papa cujo modo de ser e de pensar granjeou-lhe em pouco tempo efusiva popularidade.
No campo católico, no seio das múltiplas vertentes cristãs e em largos setores da opinião pública mundial, papa Francisco projetou imagem de simpatia e receptividade. Em boa parte, a estima pelo papa firmou-se por sua disposição em abrir portas para o diálogo para toda sorte de temas e dilemas do mundo atual.
Assim, além de pronunciar-se sobre litígios internacionais, debates interconfessionais e matérias doutrinárias, o papa se deteve sobre a temática ambiental, debate que como sabemos, é essencial para a continuidade da espécie humana e de todas as formas de vida.
No caso, a contribuição do pontífice materializou-se na Encíclica Laudato Si. Prontamente definida como “Encíclica Verde” do papa, de fato, longe de mera adjetivação, inúmeras são as razões que justificam tal percepção. A este respeito, uma nota matricial reporta ao próprio nome adotado pelo papa, inspirado em São Francisco de Assis, santo católico impregnado de simbolismo ecológico.
Com efeito, a pregação franciscana - marcada pela compaixão por todos os seres vivos e pelos pobres - encerra forte conexão com o ideário ambientalista. Neste sentido, a predileção do papa por Francisco de Assis configura uma pista para a compreensão da Laudato Si.
A presença da doutrina de São Francisco na grade conceitual da Laudato Si é inquestionável. A predisposição da Encíclica em defesa da integralidade da Criação - evidente no subtítulo “Sobre o cuidado da Casa Comum” - objetivamente a insere na órbita das pregações franciscanas. Ademais, não é nem um pouco fortuito que Laudato Si seja o nome de famoso cântico atribuído ao santo.
Citado no preâmbulo, o ideário de São Francisco constitui fio condutor de muitas pontuações do documento, seja em menções textuais ou como pressuposto da argumentação. No mais, o fato da Laudato Si ter redação na primeira pessoa do singular confirma os elos que conectam o papa e a Encíclica com a mensagem franciscanista.
Nesta perspectiva, Laudato Si, ao mesmo tempo em que retoma o pensamento visionário de São Francisco igualmente atesta o enorme potencial de interações possíveis entre o meio científico e as visões religiosas de mundo.
Certo é que a experiência religiosa é específica na sua forma de ser. Tendo a fé como elemento fundante, pode inclusive contrapor-se à lógica científica. Mas, embora ciência e religião tenham corporificado ao longo da história do Ocidente duas vocações em vários contextos atritando entre si, em nada isto compromete a possibilidade de objetivos comuns. 
Note-se que o papa Francisco é ele mesmo um homem com formação técnica. Na juventude, Jorge Mario Bergoglio graduou-se em química e trabalhou no Laboratório Bachmann em Buenos Aires. Portanto, não é de modo algum um cidadão que desconheça o saber científico.
Daí que Laudato Si elenca em defesa do ambiente ampla coleção de dados técnicos de excelência. Um bom exemplo do intercâmbio potencial entre ciência e religião, do saber científico como subsídio para visões de mundo filiadas à predicação religiosa.
Não seria demasiado rubricar que informação não é conhecimento e que isoladamente, este último não é sabedoria. A saber, a materialidade social é avessa a lógicas reducionistas. Existem bons cientistas e existem bons homens de fé. 
Laudato Si é neste sentido uma iniciativa ímpar. Une argumento científico e fé religiosa, voltando-se para o que há de mais essencial: a defesa dos ciclos de vida para o benefício da totalidade da Criação.
in Instituto Humanitas Unisinos, 24 de agosto de 2015.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Laudato si': a defesa de um clima mais estável e uma economia mais justa. Artigo de Naomi Klein

É uma honra estar aqui hoje e, especialmente, compartilhar esta plataforma com o cardeal Turkson, que tem feito muito para nos trazer a este momento histórico.
Papa Francisco escreve desde cedo que a Laudato si' não é apenas um ensinamento para o mundo católico, mas para "cada pessoa que habita este planeta" (n. 3). E eu posso dizer que, como feminista judia secular que ficou bastante surpresa ao ser convidada para o Vaticano, ele certamente falou comigo.
"Não somos Deus" (n. 67), afirma o encíclica. Todos os seres humanos sabiam disso antigamente. Mas, há cerca de 400 anos, avanços científicos vertiginosos fizeram com que alguns pensassem que os seres humanos estavam à beira de saber tudo o que havia para se saber sobre a Terra e, portanto, seriam os "mestres e donos" da natureza, como René Descartes afirmou tão memoravelmente. Era isso, segundo eles, o que Deus sempre quisera.
Essa teoria se manteve por um bom tempo. Mas avanços posteriores na ciência nos disseram algo muito diferente. Porque, enquanto queimávamos quantidades cada vez maiores de combustíveis fósseis – convencidos de que nossos navios porta-contêineres e os jatos-jumbo tinham nivelado do mundo, que nós éramos como deuses – os gases do efeito estufa estavam se acumulando na atmosfera e, implacavelmente, retendo o calor.
E agora somos confrontados com a realidade de que nunca fomos os mestres, nunca fomos os chefes – e que estamos desencadeando forças naturais que são muito mais poderosas do que até mesmo as nossas máquinas mais engenhosas. Nós podemos nos salvar, mas apenas se abrirmos mão do mito da dominação e do domínio, e aprendermos a trabalhar com a natureza – respeitando e aproveitando a sua capacidade intrínseca de renovação e regeneração.
E isso nos leva à mensagem central da interligação no cerne da encíclica. O que as alterações climáticas reafirmam – para aquela minoria da espécie humana que já se esqueceu disso – é que não há uma espécie de relação unidirecional de pura mestria na natureza. Como escreve o Papa Francisco, "nada deste mundo nos é indiferente".
Para alguns que veem a interligação como um rebaixamento cósmico, tudo isso é demais para se suportar. E assim – ativamente encorajados pelos atores políticos financiados pelos combustíveis fósseis – eles optam por negar a ciência.
Mas isso já está mudando com as mudanças climáticas. E provavelmente vai mudar mais com a publicação da encíclica. Isso poderia significar um problema real para os políticos norte-americanos que estão contando com o uso da Bíblia como cobertura para a sua oposição à ação climática. A esse respeito, a viagem do Papa Francisco aos Estados Unidos, em setembro, não poderia vir em melhor hora.
No entanto, como a encíclica sublinha com razão, a negação assume muitas formas. E há muitos, ao longo do espectro político e ao redor do mundo, que aceitam a ciência, mas rejeitam as difíceis implicações da ciência.
Eu passei as duas últimas semanas lendo centenas de reações à encíclica. E, embora a resposta tenha sido extremamente positiva, notei um tema comum entre as críticas. O Papa Francisco pode estar certo em relação à ciência – ouvimos – e até mesmo em relação à moral, mas deveria deixar a economia e a política para os especialistas. Eles são os únicos que sabem sobre o comércio de carbono e a privatização da água – dizem-nos – e como efetivamente os mercados podem resolver qualquer problema.
Eu discordo com força. A verdade é que chegamos a este lugar perigoso em parte porque muitos desses especialistas econômicos fracassaram muito conosco, empunhando as suas poderosas habilidades tecnocráticas sem sabedoria. Eles produziram modelos que escandalosamente deram pouco valor à vida humana, particularmente às vidas dos pobres, e deram um valor descomunal à proteção dos lucros das empresas e ao crescimento econômico.
Esse sistema de valores distorcido é o modo pelo qual acabamos chegando aos mercados de carbono ineficazes, em vez de taxas de carbono fortes, e altos royalties de combustíveis fósseis. Foi assim que acabamos com um alvo de temperatura de dois graus que permitiria que nações inteiras desaparecessem – simplesmente porque os seus PIBs foram considerados insuficientemente grandes.
Em um mundo onde o lucro é consistentemente posto acima das pessoas e do planeta, a economia climática tem tudo a ver com ética e moral. Porque, se concordamos que pôr a vida na Terra em perigo é uma crise moral, então cabe a nós agir em consequência.
Isso não significa arriscar o futuro nos ciclos de crescimento e queda do mercado. Isso significa políticas que regulem diretamente quanto carbono pode ser extraído da Terra. Isso significa políticas que nos façam ter 100% de energia renovável em duas a três décadas – e não até o fim do século. E isso significa alocar recursos comuns e compartilhados – como a atmosfera – com base na justiça e na equidade, não na lógico "os vencedores levam tudo".
É por isso que um novo tipo de movimento climático está emergindo rapidamente. Ele se baseia na verdade mais corajosa expressada na encíclica: que o nosso atual sistema econômico está alimentando a crise climática e ativamente nos impedindo de tomar as ações necessárias para impedir isso. Um movimento baseado no conhecimento de que, se não quisermos uma mudança climática descontrolada, então precisamos de uma mudança de sistema.
E, como o nosso sistema atual também está alimentando uma desigualdade cada vez maior, temos uma chance para enfrentar o desafio climático, para resolver várias crises que se sobrepõem de uma só vez. Em suma, podemos mudar para um clima mais estável e uma economia mais justa, ao mesmo tempo.
Esse entendimento crescente é a razão pela qual vocês está vendo algumas alianças surpreendentes e até improváveis. Como, por exemplo, eu no Vaticano. Como sindicatos, grupos indígenas, religiosos e ambientalistas trabalhando mais próximos do que nunca.
Dentro dessas coalizões, não concordamos sobre tudo – não mesmo. Mas entendemos que o que há em jogo é tão importante, que o tempo é tão curto e que a tarefa é tão grande que não podemos nos dar ao luxo de permitir que essas diferenças nos dividam. Quando 400 mil pessoas marcharam pela justiça climática em Nova York, em setembro passado, o slogan era "Para mudar tudo, precisamos de todos".
"Todos" inclui as lideranças políticas, é claro. Mas, depois de ter participado de muitos encontros com os movimentos sociais sobre a cúpula COP em Paris, eu posso relatar isto: há uma tolerância zero para mais um fracasso que possa ser travestido de sucesso diante das câmeras. Até mesmo uma semana depois, quando esses mesmos políticos estarão de volta para perfurar em busca de petróleo no Ártico e para construir mais rodovias e pressionar por novos acordos comerciais que dificultem ainda mais regular os poluidores.
Se a negociação fracassar no sentido de promover reduções às emissões imediatas, proporcionando um apoio real e substancial para os países pobres, então ela será declarada um fracasso. Como deveria ser.
O que devemos sempre lembrar é que não é tarde demais para sair da perigosa estrada em que estamos – que nos leva rumo a quatro graus de aquecimento. De fato, ainda poderíamos manter o aquecimento abaixo de 1,5 grau, se fizéssemos disso a nossa principal prioridade coletiva.
Seria difícil, com certeza. Assim como foi difícil o racionamento e as conversões industriais que já foram feitos em tempos de guerra. Assim como eram ambiciosos os programas antipobreza e de obras públicas lançados no período posterior à Grande Depressão e à Segunda Guerra Mundial.
Mas "difícil" não é o mesma coisa que "impossível". E desistir diante de uma tarefa que poderia salvar inúmeras vidas e evitar tanto sofrimento – simplesmente porque é difícil, caro e exige sacrifício por daqueles dentre nós que mais podem se dar ao luxo de viver com menos – não é pragmatismo.
É uma rendição do tipo mais covarde. E não há nenhuma análise custo-benefício no mundo que seja capaz de justificar isso.
* * *
"Não deixem que o 'perfeito' seja inimigo do 'bom'."
Temos ouvido essas palavras supostamente de pessoas sérias por mais de duas décadas. Durante todo o tempo de vida dos jovens ativistas climáticos de hoje.
E todas as vezes em que uma cúpula da ONU fracassa ao entregar políticas corajosas, juridicamente vinculantes e com base científica, polvilhando promessas vazias de ajudas monetárias reformuladas, nós ouvimos essas palavras novamente.
"Claro que não é o suficiente, mas é um passo na direção certa." "Faremos o trabalho mais difícil da próxima vez." E sempre: "Não deixem que o perfeito seja inimigo do bom."
Isso – é preciso dizê-lo no interior destas paredes sagradas – é puro absurdo. O "perfeito" perdeu o trem em meados da década de 1990, depois da primeira Cúpula da Terra do Rio.
Hoje, temos apenas duas estradas à nossa frente: a "difícil embora humano" e a "fácil embora repreensível".
Aos nossos chamados líderes que preparam as suas promessas para a COP 21 em Paris, tirando o batom e os saltos altos para se vestirem para outra negociação ruim, eu tenho que dizer isto: leiam a encíclica real – e não os resumos, mas a coisa toda.
Leiam-na e deixem-na entrar nos seus corações. A tristeza diante do que já perdemos e a celebração do que ainda podemos proteger e ajudar a florescer.
Ouçam, também, as vozes das centenas de milhares de pessoas que estarão nas ruas de Paris, do lado de fora da cúpula, reunidos simultaneamente em cidades ao redor do mundo.
Desta vez, eles vão estar dizendo mais do que "precisamos de ação". Eles vão estar dizendo: nós já estamos agindo.
Nós somos as soluções: nas nossas demandas de que as instituições renunciem às suas participações em empresas de combustíveis fósseis e as invistam nas atividades que irão reduzir as emissões.
Nos nossos métodos de agricultura ecológica, que dependem menos dos combustíveis fósseis, fornecem alimentos e trabalho saudáveis e retiram carbono.
Nos nossos projetos de energia renovável localmente controlados, que estão diminuindo as emissões, mantendo os recursos nas comunidades, reduzindo os custos e definindo o acesso à energia como um direito.
Na nossa demanda por um transporte público confiável, acessível e até mesmo gratuito, que vai nos tirar de dentro dos carros que poluem as nossas cidades, congestionam as nossas vidas e nos isolam uns dos outros.
Na nossa insistência intransigente de que vocês não podem se chamar líderes climáticos enquanto estiverem abrindo novas e vastas faixas de mar e de terra para a exploração de petróleo, o fracking do gás e a mineração de carvão. Temos de deixar tudo isso onde está, no chão, na terra.
Na nossa convicção de que vocês não podem se chamar de democracia, se estiverem em dívida com os poluidores multinacionais.
Em todo o mundo, o movimento de justiça climática está dizendo: vejam o belo mundo que se encontra do outro lado da política corajosa, cujas sementes já estão dando grandes frutos para qualquer pessoa que se importe em olhar.
Então, parem de fazer do "difícil" o inimigo do "possível".
E unam-se a nós para fazer do "possível" real.
in: Instituto Humanitas Unisinos, 03 de julho de 2015.
Publicamos aqui o discurso da ativista canadense Naomi Klein, publicada no sítio da Santa Sé, 01-07-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Laudato Si' e a mão invisível que sufoca a vida - Ricardo Machado, jornalista e mestre pelo PPG em Comunicação da Unisinos.

Levei mais de 31 anos para ler uma Encíclica papal, e comecei com a Laudato Si’. Ao concluir a leitura, de um fôlego só, sinto-me diante de uma espécie de ode ao Outro, ao reconhecimento das singularidades da vida (não somente humanas) como uma potência da materialização divina e que, portanto, exige compaixão. Porém, antes apresentar as demais considerações, preciso ressaltar que não sou católico, nem cristão na acepção religiosa do termo (embora tente seguir a perspectiva humanista de Jesus).
Minha ignorância (no sentido da Grécia Antiga, a-gnostos), em vez de levar-me aos mistérios do deus judaico-cristão, tornou-me agnóstico. Não se trata de preguiça, ao contrário, é um esforço que no meu caso jamais gerou resposta, senão inúmeras e irrespondíveis perguntas. Minha voz, logo, é marginal. Eu sou o Outro, o estrangeiro. Eu e a Igreja somos, na mesma medida, estrangeiros um ao outro.
Dinâmica textual
No que se refere à dinâmica textual do documento apostólico, Laudato Si' é um exercício redacional muito sofisticado. Bergoglio é cuidadoso ao se expressar, postura que fica evidenciável sempre que se pronuncia publicamente. Sua Encíclica se desdobra em 246 parágrafos e duas orações. Constrói cada um deles de forma concisa e contundente, cuja fluidez narrativa disfarça um extremo cuidado na formulação das frases. Não há excessos, tampouco sobras. As primeiras frases sempre apresentam o ponto central a ser discutido no parágrafo e agenciam a mensagem. É um texto preciso.
Universo
Foram necessários aproximadamente 15 bilhões de anos para que o universo (talvez multiverso) alcançasse o estágio atual, processo resultante de um momento inicial de fusão da poeira estrelar que deu origem aos componentes químicos que formam os seres humanos e tudo o mais que há de natural na face da terra. Ainda que Francisco não retome, objetivamente, a Teoria do Big Bang na Encíclica, ele lembra que Deus é trino (portanto relacional) e nos convida a pensar na nossa relação com todas as formas de vida e no vagar misterioso de cada uma delas.
“O universo não apareceu de uma onipotência arbitrária, de uma demonstração de força ou de um desejo de autoafirmação. A criação pertence à ordem do amor”, (LS, 77). O amor, antes de tudo, é (ou deveria ser) uma relação dialética de reconhecimento (semelhança) e estranhamento (alteridade). Reconhecer o Outro implica ter dimensão da complexidade do Universo.
A mão invisível
A mais maldita herança do racionalismo judaico-cristão, imanentizado na modernidade pelo soberano do Estado, é a ideia vulgar de um ser todo poderoso que domina tudo e todos. Esta vertente racional desemboca, na aurora do século XXI, no paradigma tecnocrático – e no tecnoeconomicismo - das relações contemporâneas, que se desenvolve à luz de um “antropocentrismo desorientado”, como classifica Bergoglio.
Essa ideia de que há algo onipotente, a quem (ou a que) devemos cega obediência e que é capaz de gerir todas as formas vidas, fez emergir a “mão invisível” que sufoca as vidas e permite a vazão de toda a sorte de barbárie e do crime organizado (inclusive o de Estado e o da iniciativa privada). Em contrapartida todos conhecemos, mas fingimos não ver (eis a Crise Ecológica), a face horrorosa desta dinâmica, isto é, a dor dos miseráveis, dos imigrantes, das crianças exploradas sexualmente, dos idosos, dos animais, da riqueza biológica e da atmosfera, em última medida, que sentem seus corpos desfalecerem pelo sufocamento do mercado.
A cultura do relativismo é a mesma patologia que impele uma pessoa a aproveitar-se da outra e tratá-la como mero objeto. (…) É também a lógica interna daqueles que dizem: 'Deixemos que as forças invisíveis do mercado regulem a economia, porque os seus efeitos sobre a sociedade e a natureza são danos inevitáveis’”, (LS, 123) critica Bergoglio.
A casca de Noz
Frente tamanho desafio, desde uma perspectiva cujo paralelismo observacional se encontra com o paradigma da complexidade de Edgar Morin, o Papa propõe uma Ecologia Integral. Neste terreno da teoria teológica que exige ferramentas conceituais que não disponho, me furto às reflexões, pois estas já foram tratadas de forma mais produtiva por especialistas da área.
No entanto, retomo o paradigma da física quântica, cuja sensibilidade me é mais próxima. Assim, talvez, a síntese mais vulgar que se possa fazer da Laudato Si' é interpretá-la como um manifesto à preposição “e”, que deve substituir a ideia do racionalismo newtoniano – e moderno – que interpreta o mundo a partir da lógica do “ou”, que invés de propor uma abertura às relações, à complexidade, fecha-se no individualismo cartesiano.“Quando as pessoas se tornam autorreferenciais e se isolam na própria consciência, aumentam sua voracidade”, (LS, 204) reflete Bergoglio.
Outro sujeito de capacidade textual igualmente brilhante, chamado Stephen Hawking, parafraseou Shakespeare, em seu livro o Universo na casca de noz (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009), ao lembrar de uma cena não publicada em Hamlet em que o personagem diz: “Eu poderia viver numa casca de noz e ainda assim me sentir o dono do universo”.
Eis a Laudato Si', eis o convite à reflexão proposto por Francisco. Caberá a nós quebrarmos a casca da noz ou seguirmos isolados na lógica assassina de não reconhecimento ao Outro.

in Instituto Humanitas Unisinos, 03 de julho de 2015.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

O grito da terra, dos pobres e dos migrantes Pe. Alfredo J. Gonçalves

"As mudanças climáticas são um problema global com graves implicações ambientais, sociais, econômicas, distributivas e políticas, constituindo atualmente um dos principais desafios para a humanidade. Provavelmente os impactos mais sérios recairão, nas próximas décadas, sobre os países em vias de desenvolvimento. Muitos pobres vivem em lugares particularmente afetados por fenômenos relacionados com o aquecimento, e os seus meios de subsistência dependem fortemente das reservas naturais e dos chamados serviços do ecossistema como a agricultura, a pesca e os recursos florestais. Não possuem outras disponibilidades econômicas nem outros recursos que lhes permitam adaptar-se aos impactos climáticos ou enfrentar situações catastróficas, e gozam de reduzido acesso a serviços sociais e de protecção. Por exemplo, as mudanças climáticas dão origem a migrações de animais e vegetais que nem sempre conseguem adaptar-se; e isto, por sua vez, afeta os recursos produtivos dos mais pobres, que são forçados também a emigrar com grande incerteza quanto ao futuro da sua vida e dos seus filhos. É trágico o aumento de emigrantes em fuga da miséria agravada pela degradação ambiental, que, não sendo reconhecidos como refugiados nas convenções internacionais, carregam o peso da sua vida abandonada sem qualquer tutela normativa. Infelizmente, verifica-se uma indiferença geral perante estas tragédias, que estão acontecendo agora mesmo em diferentes partes do mundo. A falta de reações diante destes dramas dos nossos irmãos e irmãs é um sinal da perda do sentido de responsabilidade pelos nossos semelhantes, sobre o qual se funda toda a sociedade civil” (Laudato Si’, nº 25).


Vale a pena citar todo esse número da nova Carta Encíclica do Papa Francisco – Laudato Si’ – centrado sobre as mudanças climáticas e as implicações para os, digamos, "refugiados climáticos”. Estes, apesar de seu "trágico aumento”, não são reconhecidos como tais. Prevalece, como se pode ver, a "indiferença geral”. Forçados a fugir de sua terra natal e ignorados quanto ao seu estado de refugiados, terminam ao mesmo tempo praticamente eliminados da própria face do globo terrestre, "nossa casa comum”, título do documento pontifício. Indesejados e rechaçados, constituem, aos milhares e milhões, os errantes e excluídos de uma "economia que mata e descarta”, insiste o Papa.

Uma das ideias centrais do texto – espécie de fio condutor que percorre suas páginas – é a estreita relação entre "a dívida ecológica”, de um lado, e a "dívida social”, de outro. Na verdade, duas faces da mesma moeda, uma vez que os primeiros a sofrerem pela devastação dos ecossistemas são aqueles que não dispõem de meios para defender-se de inundações, secas e outras catástrofes do gênero. "As agressões ambientais atingem o povo mais pobre”, diz o Pontífice, citando a Conferência Episcopal Boliviana (LS, nº 48). Em outras palavras, a degração do meio ambiente e a degradação do ser humano ocorrem simultaneamente, por isso mesmo não podem ser consideradas desvinculadas uma da outra. Qualquer conjunto de políticas públicas destinadas a sanar as feridas e "sintomas de doença” (LS, nº 2) do planeta terra, deve levar em conta as "feridas sociais” (LS, nº 6) das populações mais afetadas, debilitadas e indefesas.

questão ecológica vem ganhando "maior consciência” e crescente sensibilidade de movimentos, entidades e organizações não governamentais (LS, nº 19). Insere-se intrisecamente na questão social, por sua vez fio condutor de toda a Doutrina Social da Igreja. Disso resulta uma "intima relação entre os pobres e a fragilidade do planeta” (LS, nº 16). Hoje – diz literalmente o Papa – "não podemos deixar de reconhecer que uma verdadeira abordagem ecológica sempre se torna uma abordagem social, que deve integrar a justiça nos debates sobre o meio ambiente, para ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres” (LS, nº 49).

Os migrantes – refugiados climáticos – costumam desmascarar essa estreita ligação entre os danos causados ao meio ambiente e os danos sofridos pelos extratos mais desfavorecidos da população mundial. O grito da terra, dos pobres e dos migrantes é um só e único. Muitos, impossibilitados de autodefesa, são pressionados à fuga em massa. Isto quer dizer que as soluções apontadas pelo documento, insistindo sempre sobre o protagonismo dos envolvidos, não podem deixar de lado os dramas dos migrantes, refugiados, prófugos, fugitivos... número que hoje alcança dezenas de milhões.

Pe. Alfredo J. Gonçalves

Assessor das Pastorais Sociais

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Laudato Si’ – Prestemos atenção às notas de rodapé

escreve Kevin Ahern, eticista teológico e professor assistente de Estudos Religiosos na Manhattan College, em artigo publicado pelo sítio America, 18-06-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.
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Além da utilização de uma linguagem inclusiva de gênero – a primeira nas encíclicas sociais católicas –, um dos aspectos mais surpreendentes de Laudato Si’ são as notas de rodapé. Para ser honesto, elas foram uma das primeiras coisas que olhei. Francisco se afasta da tradição das encíclicas sociais católicas ao citar várias fontes não católicas oficiais, tais como documentos da ONU, as conferências episcopais nacionais e, de modo mais surpreendente, um místico sufi!
Agora, embora possa parecer um tanto pedante para a maioria dos leitores, as notas de rodapé de Francisco constituem um afastamento significativo da tradição. A maioria das encíclicas papais oficiais do ensino social católico têm um estilo específico e as notas de rodapé desempenham um papel importante. Diferentemente das citações que meus alunos usam em seus trabalhos para referirem a origem das ideias apresentadas, as notas de rodapé no ensino papal têm funcionado como uma forma de alertar o leitor para a continuação de uma tradição. Em geral, as notas de rodapé não estão muito preocupadas em fazer referências propriamente; estão mais interessadas em comunicar que este ensino está harmonia com uma longa tradição no assunto, mesmo quando ele pode estar discordando ligeiramente da fonte.
Por exemplo, a Caritas in Veritate, a encíclica social de 2009 do Papa Bento XVI, dispõe de 159 notas. A maioria delas fazem referência aos ensinamentos sociais oficiais de outros papas; várias destas notas se referem aos seus próprios ensinamentos; algumas mencionam os escritos de importantes santos ou dicastérios vaticanos. Nenhum menciona fontes não católicas ou não doutrinárias. Em grande parte, é assim também com as encíclicas sociais de São João Paulo II.
Esta tradição reflete uma teologia específica do papado que entende que o papa deva ser o professor principal da doutrina católica com uma rígida divisão dos papéis entre professor e aluno. Como tal, o papa nunca precisaria aprender de fontes “abaixo” dele. Isso também inclui as declarações emitidas pelas conferências nacionais dos bispos. Por mais de perto 50 anos, tem havido um longo debate quanto ao estatuto do magistério das declarações feitas por grupos de bispos em nível nacional, continental e mundial.
Sob os pontificados de João Paulo II e Papa Bento XVI, as publicações sociais das conferências episcopais nacionais e dos sínodos foram percebidas como carecendo de competência para um ensino (magisterial) com autoridade. Esta alegação é feita frequentemente pelos críticos das políticas sociais da Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos – USCCB (na sigla em inglês), em particular contra os seus ensinamentos sobre a justiça econômica, a paz e o racismo. Em Evangelii Gaudium, o Papa Francisco abordou este ponto quando pediu pelo desenvolvimento do “estatuto das Conferências Episcopais” com “autêntica autoridade doutrinal” para melhor servir a missão da Igreja (n. 32).
Embora não tenha sido bem recebida por todos, Laudato Si’ afirma a autoridade destas estruturas regionais com 20 citações de declarações de 18 conferências episcopais nacionais e regionais. Isso inclui o documento da USCCB, de 2001, intitulado “Global Climate Change: A Plea for Dialogue, Prudence and the Common Good”. A seleção de documentos de várias regiões do mundo parece querer significar algo referente às preocupações expressas pelos bispos quanto aos problemas em jogo. Com efeito, ela construtivamente mostra como a promoção de uma ecologia integral não é apenas a preocupação do Papa Francisco. Embora sutil, é também um aceno para uma visão indutiva e mais descentralizada de Igreja, onde as declarações (os documentos) das conferências episcopais têm valor na formação do ensino social católico universal.
Além de quebrar a tradição ao citar textos de conferências nacionais, o Papa Francisco lança mão de uma gama de pensadores católicos. Ele cita oito vezes Romano Guardini, sacerdote e teólogo influente (1885-1968). Faz uma referência surpresa para o controverso jesuíta Teilhard de Chardin, na nota n. 53, e cita por extenso o Patriarca Bartolomeu no início do texto. Faz também referência a um livro [de John Chryssavgis] publicado pela Fordham University Press, na nota n. 15.
Talvez a referência mais surpreendente é a um místico sufi muçulmano, Ali al-Khawas, na nota n. 159, que diz:
“Um mestre espiritual, Ali Al-Khawwas, partindo da sua própria experiência, assinalava a necessidade de não separar demasiado as criaturas do mundo e a experiência de Deus na interioridade. Dizia ele: ‘Não é preciso criticar preconceituosamente aqueles que procuram o êxtase na música ou na poesia. Há um ‘segredo’ subtil em cada um dos movimentos e dos sons deste mundo. Os iniciados chegam a captar o que dizem o vento que sopra, as árvores que se curvam, a água que corre, as moscas que zunem, as portas que rangem, o canto dos pássaros, o dedilhar de cordas, o silvo da flauta, o suspiro dos enfermos, o gemido dos aflitos…’”.
Ficamos mais impressionados ainda quando lemos a seção intitulada “Os sinais sacramentais e o descanso celebrativo” (n. 233). De um ponto de vista teológico, a inclusão de textos explicitamente religiosos de fora da tradição católica levanta questões interessantes sobre o desenvolvimento da doutrina: O que significa para um documento oficial de doutrina social citar um místico muçulmano? O que isso diz sobre o papel do Espírito Santo para além da Igreja?
Entre as 172 notas de rodapé desta encíclica, nem todas são de fontes surpreendentes. Os escritos de João Paulo II são citados 37 vezes – o mais próximo é o Papa Bento XVI, que vem em segundo lugar com 30 citações. Enquanto alguns podem tentar distanciar os ensinamentos sociais de Francisco sobre o meio ambiente e a economia dos ensinamentos de seus antecessores, estas referências – e este é o propósito delas – devem ajudar a lembrar ao leitor que ele está se baseando numa tradição profundamente estabelecida de preocupação social.
Tal como acontece com outras encíclicas papais, Laudato Si’ destaca a importância de prestarmos atenção às notas de rodapé. Como digo aos meus alunos nos cursos sobre doutrina social católica: sigam as notas de rodapé. Talvez nos surpreendamos com o lugar aonde elas podem nos levar.

Quinta, 25 de junho de 2015. in Instituto Humanitas Unisinos.


Sete chaves para uma encíclica urgente

Na manhã desta quinta-feira, 18 de junho de 2015, foi publicada a esperada encíclica do Papa Francisco sobre a ecologia. O título, Laudato Si’, é tomado do Cântico das Criaturas de São Francisco de Assis, e tem como subtítulo “O cuidado da casa comum”. São quase 200 páginas na tradução castelhana, agrupadas em 246 números e acompanhada de 172 notas de rodapé. É, portanto, impossível oferecer aqui um resume e uma avaliação detalhada da encíclica. São seis capítulos, que seguem o esquema já clássico do Ver (capítulo 1), Julgar (capítulos 2 a 4) e Agir (capítulos 5 e 6). Neste comentário nos limitamos a indicar e comentar sete chaves de leitura para uma encíclica e uma temática urgentes.
A reportagem é de Daniel Izuzquiza, SJ e publicada por EntreParentesis, 18-06-2015. A tradução é de André Langer.
[1] A chave científica. Antes de ser publicada, a encíclica e o próprio Papa foram duramente criticados por setores conservadores, sobretudo norte-americanos, querendo aplicar a ela o dito popular ‘sapateiro, aos teus sapatos’. Sem ler o texto, já estavam dizendo que havia erros científicos, que o Papa não sabe de questões científicas e não deve se meter em questões polêmicas. Pois bem, qualquer Papa em qualquer encíclica consulta diversos especialistas, como aconteceu também neste caso. A análise de situação que o texto recolhe baseia-se, de maneira clara, nos consensos científicos do momento.
As afirmações são matizadas, ponderadas e equilibradas. Para referir-me apenas a duas das questões mais polêmicas, sugiro a leitura do número 23, sobre a mudança climática, ou o número 133, sobre os organismos geneticamente modificados. Analisadas as contribuições da ciência, com suas clarezas e suas questões abertas, “sem dúvida é necessário uma atenção constante, que tenha em consideração todos os aspectos éticos implicados” (n. 135).
[2] A chave ético-filosófica. Embora no campo científico a exposição seja comedida, a encíclica contém uma crítica dura e contundente ao “paradigma tecnocrático dominante” (n. 101). Não porque a ciência e a tecnologia sejam más, mas porque “a humanidade de fato assumiu a tecnologia e seu desenvolvimento junto com um paradigma homogêneo e unidimensional” (n. 106). É que, além disso, “o paradigma tecnocrático também tende a exercer seu domínio sobre a economia e a política” (n. 109). Por isso, estamos “diante da urgência de avançar numa corajosa revolução cultural” (n. 114) que permita superar a “grande desmedida antropocêntrica” (n. 116), sem cair no biocentrismo nem “colocar em um segundo plano o valor das relações entre as pessoas” (n. 119).
[3] A chave política também é importante para ler a encíclica, que quis ser apresentada com suficiente tempo antes da Cúpula do Desenvolvimento Sustentável, em setembro de 2015, e a Cúpula sobre a Mudança Climática, em dezembro deste mesmo ano. A avaliação global é clara e negativa: “as cúpulas mundiais sobre o meio ambiente dos últimos anos não corresponderam às expectativas, porque não alcançaram, por falta de decisão política, acordos ambientais globais realmente significativos e eficazes” (n. 166).
Após fazer um chamamento a uma ação política que supere a estratégia eleitoral e as visões de curto prazo, o Papa reivindica “uma política que pense com visão ampla e leve adiante uma reformulação integral” (n. 197) e que deixe de estar dominada pelos interesses econômicos, evitando “uma concepção mágica do mercado, que tende a pensar que os problemas se resolvem apenas com o crescimento dos lucros das empresas ou dos indivíduos” (n. 190).
[4] A chave social. O Papa Francisco está convencido de que se “deve integrar a justiça nos debates sobre o meio ambiente, para ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres” (n. 49). Como São Francisco de Assis, sabe “até que ponto são inseparáveis a preocupação pela natureza, a justiça para com os pobres, o empenho na sociedade e a paz interior” (n. 10). Por isso, a encíclica fala de iniquidade mundial ou de dívida ecológica entre o Norte e o Sul, e se converte “em um chamado à solidariedade e em uma opção preferencial pelos mais pobres” (n. 158) e denuncia, uma vez mais, a globalização da indiferença. Talvez seja esta uma das insistências do documento, que não vê a ecologia como uma moda esnobe de burgueses acomodados, mas de uma questão chave para as populações empobrecidas de nossa Terra.
[5] A chave cultural. Esta chave desdobra-se em ao menos três assuntos, que somente podemos esboçar. Primeiro, “não se pode excluir a cultura na hora de repensar a relação do ser humano com o meio ambiente” (n. 143), vinculando as ameaças à biodiversidade com os ataques à diversidade cultural, sobretudo das minorias empobrecidas.
Segundo, reconhece que estamos diante de “um grande desafio cultural, espiritual e educativo que implicará longos processos de regeneração” (n. 202), tema ao qual dedica o sexto capítulo, sobre a educação e a espiritualidade ecológica.
Em terceiro lugar, uma relevante questão de gênero literário: como já fez em outras ocasiões, muito chamativamente na exortação Evangelii Gaudium, o Papa Francisco acolhe boa parte dos documentos de diversas Conferências Episcopais de todo o mundo. Nesta ocasião, há mais de 20 referências, de países dos cinco continentes e de entidades de coordenação como o CELAM, na América Latina, ou a FABC, na Ásia.
[6] A chave teológica. Embora a encíclica esteja dirigida a todas as pessoas, crentes ou não (e esta é outra novidade), há nela um desenvolvimento explicitamente teológico. Após o primeiro capítulo dedicado “ao que está acontecendo em nossa casa”, o Papa dedica o segundo capítulo a desenvolver o Evangelho da criação: “a criação só se pode conceber como um dom que vem das mãos abertas do Pai de todos, como uma realidade iluminada pelo amor que nos chama a uma comunhão universal” (n. 76). A partir daqui se recupera o sentido da gratuidade e da contemplação, o destino universal dos bens e a responsabilidade no cuidado da criação, entre outras implicações básicas. “Tudo está interligado, e isto convida-nos a amadurecer uma espiritualidade da solidariedade global que brota do mistério da Trindade” (n. 240).
[7] A chave espiritual. Em sintonia com João Paulo II, o Papa Francisco chama para uma verdadeira conversão ecológica, e acrescenta: “Desejo propor aos cristãos algumas linhas de espiritualidade ecológica que nascem das convicções da nossa fé, pois aquilo que o Evangelho nos ensina tem consequências no nosso modo de pensar, sentir e viver” (n. 216). Continua indicando que “a conversão ecológica, que se requer para criar um dinamismo de mudança duradoura, é também uma conversão comunitária” (n. 219).
Falará depois de gratuidade e gratidão, de sobriedade, de humildade, de paz e de outras “sólidas virtudes” (n. 211). É curioso e significativo que a encíclica termine com duas orações (n. 246), uma para todos os crentes e outra específica para os cristãos. Está em consonância com os destinatários da carta, pois já no começo da encíclica o Papa diz: “quero dirigir-me a cada pessoa que habita neste planeta” (n. 3). Oxalá, cada pessoa possa escutar esta mensagem urgente e comprometer-se com o cuidado de nossa casa comum.