pense

"Eles tentaram nos enterrar, mas não sabiam que éramos sementes! "

Proverbio mexicano
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quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

IMPRESSIONANTE RELATO DO HORROR EM BRASÍLIA...

AI-5 SE ATUALUZA APÓS  48 ANOS...
ESTADO DE EXCEÇÃO SE AFIRMA...

HÁ QUE COMPARTILHAR O MAIS AMPLAMENTE...

Saímos de Campina Grande- PB no domingo, dia 27. Éramos três professores: um do IF e dois da UEPB, e os demais 42 eram estudantes secundaristas e universitários. No dia da nossa chegada, nos concentramos na UNB.
No dia seguinte, fomos ao local das atividades. Após concentração e distribuição do almoço no MEC, assistimos a fala da Maria Lúcia Fatorreli. Em seguida, caminhamos para a concentração no Museu e de lá caminhamos em direção ao Senado. Nunca tinha visto tanta gente na rua lutando pela mesma causa. Não sou a melhor pessoa para números, mas acredito que tínhamos 50.000 pessoas na rua. A energia era forte, uma mistura de determinação e esperança. Nosso grupo rapidamente chegou ao gramado que antecede o espelho d'gua. Sem aparente identificação,  os policiais já estavam posicionados para nos receber. Até então não tinha havido nenhum tipo de embate, apenas algumas pessoas dentro da água. Do lado oposto em que estávamos, uma mulher dizia algo para os policiais. Nesse momento tive a idéia de abrir a bolsa e pegar o celular. Nessa fração de segundo ouvi uma vaia generalizada e levantei os olhos: a mulher estava inerte na água. Todos se revoltaram com o fato do policial jogar spray de pimenta algumas vezes e ela não recuar. No entanto, a maior revolta foi a agressão física que a fez desmaiar na água: enquanto jogava o spray, ele a chutou no rosto. Lembrem- se que ela estava no nível mais baixo ( na água) e ele no terraço do Senado. Sim, a polícia provocou e começou as agressões. Aí tudo virou um caos. Um grupo virou um carro branco, acendeu o fogo e em seguida o empurrou em direção aos policiais, numa espécie de barricada para tentar resgatar a moça. Outras pessoas foram de mãos para cima para tentar negociar a retirada garota, mas também levaram spray de pimenta.  Nesse momento, as bombas de gás lacrimogêneo começaram a cair por todos os lados. Uma caiu na nossa frente, saímos de lá com aquela sensação de queimor insuportável, mas, ao mesmo tempo, já estávamos com pequenas quantidades de vinagre ( já que este e o leite de magnésio são eficazes para barrar os sintomas que o gás causa). Todas essas recomendações recebemos e propagamos na viagem, bem como as estratégias de rota de fuga ( com uma montagem de um mapa do plano piloto) em caso de embate com a polícia, dispersamento ou desencontro.
A medida em que recuávamos, a polícia avançava. Ela não poupava ninguém. Quando o protesto começava a tomar corpo, já se aproximava do fim do expediente dos trabalhadores. Ninguém foi poupado. Vi idosos, mulheres com crianças, e nós, os militantes, apanharem muito. O desespero era fugir do gás e, simultaneamente, retirar quem estivesse atingido ao lado: foi a maior lição de solidariedade que vivi.
Nossa janela de fuga ( sim, porque 95% das pessoas que lá estavam não foram preparadas para uma guerrilha urbana) foi proporcionada pelos Blacks BLOCKs. Eles retardaram o avanço da polícia e criaram, junto com alguns militantes mais experientes, barricadas para conter o avanço policial. Eles também apanharam muito. Carros foram queimados para distrair atenção dos agressores, painéis e alguns prédios de ministérios foram quebrados na tentativa de diminuir as agressões e salvar as pessoas feridas.
Nesse momento percebemos os helicópteros ( eu contei 4 diferentes). No início eu achei que era apenas para acompanhamento da movimentação da massa. Já no início da noite, algumas aeronaves começaram a fazer voos mais baixos e, logo em seguida, estourava uma nova bomba. Eu não vi cair nenhuma bomba dos helicópteros, mesmo porque o inferno estava no solo, mas a polícia estava muito longe para que as bombas chegassem a nós. O pior aconteceu quando a cavalaria entrou em ação. O pânico tomou de conta. As pessoas corriam enlouquecidas com medo de serem pisoteadas pelos cavalos. E o confronto seguiu nesse terror. Estávamos assustados demais para reagir e, em nosso grupo, a prioridade era proteger os alunos já que a maioria deles nunca tinham presenciado embates tão duros. Hoje percebo que o país inteiro não tinha vivido tão recentemente tamanha truculência.
Conseguimos enviar boa parte do grupo para o ônibus, mas ainda tínhamos que pegar os outros no nosso ponto de fuga. Criou-se assim uma espécie de equipe de resgate. Nesse momento trocamos de blusas, tiramos botons/adesivos e jogamos as bandeiras fora. O mais importante era restabelecer em segurança o grupo. E as bombas continuavam a cair. Um dos aspectos que a bomba causa é o impacto psicológico: elas tem um som ensurdecedor e treme o chão quando toca o solo. Ainda assim, depois de juntarmos quase todos e o clima aparentemente ter  acalmado, ainha tínhamos os desaparecidos. Só tínhamos duas alternativas: hospital ou cadeia. A ajuda dos companheiros que não estavam no protesto foi fundamental. Eles nos ajudaram a localizar várias pessoas, entre elas, nossa companheira desaparecida que estava no hospital da UNB. Ela foi socorrida por uma enfermeira que tinha na mão o magnésio e a achou desacordada debaixo de uma árvore. Não sabemos seu nome, apenas que salvou nossa aluna. Para esta pessoa os meus mais sinceros agradecimentos. Não são todos que se dispõe a salvar a vida do outro, colocando a sua própria vida em jogo. Não podemos esquecer da equipe médica que a atendeu. Não tenham dúvidas de que foi um belíssimo trabalho, já que nossa aluna possuía uma fragilidade pulmonar que complicou os sintomas do gás em seu corpo. Obrigada equipe médica da UNB.
Ao acordar, nossa aluna conseguiu passar as informações para o pessoal do hospital, que entraram em contato com familiares e professores de sua unidade de ensino que, por sua vez, entraram em contato conosco. Ela nos relatou que o hospital estava cheio e que, em sua maioria, mulheres eram as principais vítimas, sobretudo as que estavam com os seios desnudos. Impossível não fazer um leitura sociológica desse fenômeno.  Ela também nos relatou um caso de uma criança de ( aparente)10 anos. Ela e sua mãe estavam muito machucadas: a mãe com marcas roxas pelo corpo causado pelo cacetete, a criança com 15 pontos na boca em direção às maçãs do rosto. A mãe foi buscá-la na escola vestindo uma camisa do "Fora Temer" e, por azar, estava no olhou do furação. A mãe foi agredida pelo policial que, não satisfeito com o espancamento, partiu para agredir a criança.
Pude perceber que existia prazer em alguns policiais em agredir as pessoas, outros, nos indicavam com um olhar uma rota de fuga. Pessoas e pessoas.
Não posso deixar de mencionar o papel de alguns cidadãos de Brasília. Mesmo não estando no protesto, eles nos indicavam os possíveis caminhos para fugir daquela insanidade. Muito obrigada.
Já passava das 21h e ainda tínhamos alunos desaparecidos. Ficamos sabendo que a polícia tinha fechado a rodoviária e estava prendendo militantes dentro dos ônibus estacionados nas imediações da rodoviária. Ao mesmo tempo, dois dos nosso alunos estavam em outra localidade com uma delegação diferente. Decidimos pegar um táxi e entrar na rodoviária para procurarmos o último desaparecido. Para nossa sorte, recebemos mensagem de que ele tinha encontrado nosso transporte e estava a salvo. Assim retornamos ao ônibus e saímos de Brasília naquele mesmo momento.
Sentimos falta da presença da CUT e MST.  Acredito que se eles estivessem lá o resultado poderia ser diferente. No entanto, as entidades que estavam, nos deram maior apoio possível, inclusive, de ordem tática. Não foi a toa que a polícia deu voz de prisão aos manifestantes que estavam no alto do trio elétrico chamando a militância a resistir ao avanços dos policiais.
Acredito que o protesto de ontem e seus desdobramentos deram início a outro momento na história do país. E o protagonismo será da juventude. Cabe a nós, os professores, o papel de elaborar proteger, orientar, salvar, zelar e agir por nosso jovens.
Me desculpem eventuais erros e equívocos, mas ainda estamos na estrada rumo ao nosso destino. Ao menor sinal de Internet, recebemos muitos pedidos de informações e, por este motivo, fiz esse relato.
Nesse momento, 20:56 do dia 30/11/16, em algum lugar desta enorme Bahia, decidi escrever esse texto como forma de informação, mas também de expurgo para a compreensão geral dos chocantes acontecimentos de ontem.

É imprecionante o crescimento individual deste grupo de alunos. Eles estão mais coesos e solidários. No início da viagem houve pequenos ruídos por causa dos posicionamentos de um grupo de alunos com outro grupo que tinha orientação  lgbt. Neste exato momento estou sentada entre dois grandes grupos que estão debatendo questões específicas. Os rapazes mais conservadores estão discutindo gênero com parte do grupo lgbt e o outro discutindo formas de exploração do trabalho. Se tornaram homens e mulheres, literalmente, do dia pra noite. Eu apenas os observo, afinal quem mais está aprendendo aqui sou eu. E meu coração está inundando de amor e felicidade.

A PEC passou e irá passar. Mas o sentimento de que fiz ( fizemos) tudo que estava ao meu (nosso) alcance me conforta, mas não me resigna. Saio mais convicta da necessidade da luta.

Mauriene Freitas, Profa da UEPB.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

FREDDIE MERCURY

 Músico, compositor e cantor, Freddie Mercury era vocalista da banda de rock "Queen" e ficou conhecido por isso. Também flertava com a ópera! 


Infância, adolescência e faculdade.

Freddie Mercury nasceu na localidade da Cidade de Pedra, em Zanzibar, à época colônia britânica e hoje pertencente à Tanzânia, na África Oriental. Seus pais, Bomi e Jer Bulsara, eram parsis zoroastrianos de Guzerate, na Índia. Mercury foi educado na St. Peter Boarding School, uma escola inglesa perto de Bombaim, onde deu seus primeiros passos no âmbito da canção, ao ter aulas de piano. Foi na escola que ele começou a ser chamado "Freddie" e, com o tempo, até os seus pais passaram a chamá-lo assim.
Depois de se formar em sua terra natal, Freddie e sua família mudaram-se em 1964 para a Inglaterra, devido a uma revolução
iniciada em Zanzibar. Ele tinha dezoito anos. Lá diplomou-se em design gráfico e artístico na Ealing Art College, seguindo os passos de Pete Townshend. Esse conhecimento mostrar-se-ia útil depois, quando Freddie projetou o famoso símbolo da banda.
Freddie conheceu na faculdade o baixista Tim Staffell. Tim tinha uma banda na faculdade chamada Smile, que tinha Brian May como guitarrista e Roger Taylor como baterista, e levou Freddie para participar dos ensaios. 

Queen

 


Em abril de 1970, Tim deixa o grupo e Freddie acaba ficando como vocalista da banda, que passa a se chamar Queen. Freddie decide colocar Mercury no nome. Ainda em 1970, ele conheceu Mary Austin, sua namorada, com quem viveu por cinco anos. Foi com ela que assumiu ser bissexual.[6] Os dois, mesmo separados, mantiveram forte laço de amizade até o fim de sua vida. De acordo com declaração do cantor e de seus companheiros de banda, Mary inspirou Freddie na música "Love of My Life".
No visual de Freddie Mercury, há uma mudança que não deixa de ser notada: se, na era Glam dos anos 1970, o cabelo comprido, o delineador preto, as unhas pintadas , os maillots de bailado e o sapato de salto alto eram moda, estes iriam dar lugar a uma postura mais "macho": cabedal preto, chapéu de polícia, cabelo curto e, meses mais tarde, bigode: essa seria a sua imagem de marca na década de 1980. Nessa época, seus amigos descobriram sua bissexualidade, pois ele passou a levar rapazes e algumas garotas para dormir em seu quarto.
Mercury compôs muitos dos sucessos da banda, como "Bohemian Rhapsody", "Somebody to Love", "Killer Queen", "Love of My Life", "Crazy Little Thing Called Love" e "We Are the Champions" - hinos eloquentes e de estruturação extraordinária, particulares e sempiternos. Suas exibições ao vivo eram lendárias. A facilidade com que Freddie dominava as multidões e os seus improvisos vocais, envolvendo o público no show, tornaram as suas turnês um enorme sucesso na década de 1970, enchendo estádios de todo o mundo nos anos 80.

Carreira Solo

Freddie Mercury lançou dois discos-solo, aclamados pela crítica e pelo público. Mr. Bad Guy foi lançado em maio de 1985, e entre seus estilos estão desde reggae até dance e até uma parte orquestrada na faixa Mr. Bad Guy. Em 1988, é lançado o disco Barcelona, sendo que a faixa de mesmo nome tinha participação da cantora lírica espanhola Montserrat Caballé. Esta canção fez um enorme sucesso mundial na época e foi usada como tema nos Jogos Olímpicos de Barcelona, em 1992.

 Curiosidades

 
Freddie Mercury era proprietário de uma voz potente. Contam alguns que, durante as gravações do álbum Barcelona, ele desafiou Montserrat Caballé, uma das cantoras líricas mais conhecidas no mundo, para ver quem possuía maior fôlego. Mercury venceu com uma grande vantagem.
Em 1992, um ano depois da morte de Freddie Mercury, realizam-se os Jogos Olímpicos de Barcelona, durante os quais Montserrat Caballé intrepreta a famosa canção "Barcelona" (gravada em 1988) em dueto virtual com o cantor falecido. Ainda hoje o dueto é recordado como um marco histórico da música.
Em 5 de setembro de 2011, o website de busca, Google, homenageou o cantor. Na página, existia um doodle musical, que executa a "Dont Stop Me Now", grande sucesso da sua carreira.

Morte


Em 1991, após ficar muito doente, surgiam rumores de que estaria com AIDS, o que se confirmou afinal, através de uma declaração feita por ele mesmo em 23 de novembro, um dia antes de morrer.
Freddie faleceu na noite de 24 de novembro de 1991, em sua casa, chamada Garden Lodge. Sua morte causou repercussão e tristeza em todo o mundo. Sua casa foi passada por testamento à ex-namorada, Mary Austin, que recebeu muitos buquês de flores na época e continua a recebê-los até hoje.
O corpo de Freddie Mercury foi cremado e suas cinzas foram espalhadas na margem do Lago Genebra na Suíça.
Em 25 de novembro de 1992, foi inaugurada uma estátua em sua homenagem, com a presença de Brian May, Roger Taylor, da cantora Montserrat Caballé, Jer e Bomi Bulsara (pais de Freddie) e Kashmira Bulsara (irmã de Freddie), em Montreux, na Suíça, cidade adotada por Freddie como seu segundo lar.
Os membros remanescentes do Queen fundaram uma associação de caridade em seu nome, a The Mercury Phoenix Trust, e organizaram, em 20 de abril de 1992, no Wembley Stadium, o concerto beneficente The Freddie Mercury Tribute Concert, para homenagear o trabalho e a vida de Freddie.

http://www.freddiemercury.com/


sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Qual o significado do anel de tucum usado por muitos religiosos?

Qual o significado do anel de tucum usado por muitos religiosos?

Pe. Lucas Emanuel, C.Ss.R

Historicamente falando, o Anel de Tucum nasce no tempo do Império do Brasil. Enquanto a realeza usava joias de metais e ouro, os escravos e índios, sem acesso a esses materiais, criaram o Anel do Tucum. Tucum é uma Palmeira comum na Amazônia. Fizeram, então, desse objeto rústico um símbolo de amizade entre si, pactos matrimoniais e, também, de resistência na luta por libertação. Desse modo, o anel de Tucum era um símbolo cuja linguagem, só eles conheciam. Um símbolo secreto da amizade deles e de suas lutas cotidianas. Mais tarde, os cristãos passam a ter no Anel de Tucum um símbolo de fé e compromisso. Especialmente com a Teologia da Libertação, nos anos 60, quando o apelo às causas dos mais pobres e abandonados começa a crescer, não só no Brasil como também em nossa América Latina. Tivemos, portanto, nesse período um grupo grande de pessoas dedicadas à luta dos mais fracos, o que rendeu muitos testemunhos e martírios. Dom Pedro Casaldáliga é um exponente que nos retrata essas lutas. Esse ilustre Bispo Profeta, num Filme sobre o Anel de Tucum, nos apresenta o significado do anel com essas palavras: “Anel de Tucum é sinal da aliança com a causa indígena e com as causas populares. Quem carrega esse anel significa que assumiu essas causas. E, as suas consequências”. Dizendo isto, lança o convite: “Você toparia levar um anel? Topa?”. As causas de ontem se encontram com as causas de hoje. Nossas lutas mudaram de cenários e nomes e os pobres ainda continuam excluídos e oprimidos. Por isso, o anel de Tucum quer simbolizar uma fé engajada, um compromisso com os pobres, com os sem voz e os sem vez, um compromisso com a VIDA!
Jesus nos revela que Deus está ao lado dos pobres e quer promover sua dignidade, no rosto do pobre encontramos o rosto de Deus. “Na verdade vos digo: toda vez que fizestes isso a um desses mais pequenos dentre meus irmãos foi a mim que o fizestes!” (Mt 25, 40). Portanto, se nos comprometemos às causas dos preferidos de Deus é com Ele que nos comprometemos!


 


quinta-feira, 7 de julho de 2016

Levantamento estudantil na América Latina

Levantamento estudantil na América Latina - 

Estudantes chilenos protestam contra a reforma educacional de Bachelet 


IHU - Unisinos - Adital


*Por João Flores da Cunha/ IHU e agências | Tradução: Juan Luis Hermida

Na terça-feira (5) milhares de estudantes protestaram em Santiago do Chile contra o projeto de reforma educacional que a presidenta Michelle Bachelet enviou ao Congresso Nacional no dia anterior (04 de julho). Os manifestantes foram contidos pela polícia quando tentavam se dirigirem ao Palácio de La Moneda, sede do governo, e houve confronto. Os órgãos de segurança justificaram a repressão pelo fato de que os estudantes não informaram previamente para as autoridades sobre o protesto.
A Confederação de Estudantes do Chile - Confech, entidade representativa dos alunos, promete realizar outro protesto no próximo domingo (10). A luta estudantil no Chile, que já dura uma década, faz parte de um processo maior de demanda pelo direito à educação que se desenvolve na América Latina atualmente, em especial no Brasil e no México.

O projeto de Bachelet
A reforma educacional, promessa de campanha de Bachelet, prevê a gratuidade do ensino superior para todos, mas não estabelece um prazo para isso. Ela estende o custo zero para alunos selecionados com base em critérios sócioeconômicos de forma gradual até 2020. Depois disso, a gratuidade pode começar a valer para todos, mas será implementada a partir de um cálculo ligado ao crescimento do Produto Bruto Interno - PBI do país (PIB, em português). Ou seja, que na prática, a gratuidade passa a valer apenas se o Chile conseguir alcançar as metas de crescimento econômico.
A Confech denuncia que "o governo está conduzindo uma reforma que consolida o negócio de educação ao custo da educação pública como um direito". Os estudantes demandam a gratuidade da educação para todos e querem o fim do lucro das instituições privadas. Eles também pedem a renúncia da ministra de Educação, Adriana Delpiano.

Debate público
O governo afirma que a gratuidade imediata do ensino superior que pedem os estudantes custaria aos cofres públicos 3,5 bilhões de dólares. O ministro da Fazenda, Rodrigo Valdés, declarou que "se o Chile tivesse esse dinheiro - vamos supor que tivéssemos essa sorte - seria preciso ver se queremos utilizá-lo em educação superior ou destiná-lo a outras necessidades como saúde e prensões". A economia chilena, assim como a de outros países latino-americanos, sofre atualmente com a queda do preço das commodities - no caso, do cobre.
A proposta da reforma educacional, que já passou por diversas idas e vindas, desgasta a imagem de Bachelet, que encerrou sua presidência (2006 - 2010) com um índice de aprovação superior a 80%, mas sofre com a impopularidade no atual mandato, que se iniciou em 2014. O projeto inicia agora sua tramitação na Câmara dos deputados sob a perspectiva de extensas discussões: o debate público sobre o tema está longe de um consenso.

Reforma depois dos protestos
A educação está no centro do debate nacional no Chile desde 2006, quando ocorreu uma grande mobilização de estudantes de ensino secundário, que apresentavam suas demandas a partir de paralisações e de protestos na rua. O movimento ficou conhecido como revolução dos pinguins, uma referência aos uniformes dos estudantes, e teve conquistas como a criação de um passe escolar nacional e a derrogação de leis impostas pela ditadura do general Augusto Pinochet (1973-1990) que ainda se mantinha em vigor.
No entanto, não foram tomadas medidas estruturais para reformar um sistema educacional cujos problemas são reflexo da alta desigualdade do país. Assim, em 2011, uma nova onda de protestos de estudantes tomou o país. Em sua essência, o movimento demandava maiores investimentos públicos na educação, setor dominado pela iniciativa privada no Chile.
Ao longo da última década, portanto, o governo teve que lidar com demandas estudantis. O governo de Bachelet já havia aprovado uma lei sobre a educação, que entrou em vigor em março de 2016. A presidente também retirou da pauta três leis sobre o tema propostas por seu antecessor, Sebastián Piñera.

A luta latino-americana
A luta pelo direito à educação na América Latina não se reduz ao Chile. No Brasil, em 2015 e em 2016 houveram movimentos de ocupações de escolas em São Paulo, no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul. A luta dos chilenos inspirou aos estudantes brasileiros, que inclusive utilizaram manuais produzidos por aqueles com instruções sobre como ocupar as escolas.
Embora os alunos tenham demandas pontuais, como a investigação sobre os desvios da merenda, no caso de São Paulo, eles também pedem maiores investimentos para a educação. Embora a presidente afastada Dilma Rousseff tenha colocado como lema de governo de seu segundo mandato 'Pátria Educadora', o Ministério da Educação foi alcançado por cortes orçamentários em 2015 e em 2016, em um contexto de ajuste fiscal.
No México, uma manifestação de professores em greve foi duramente reprimida pela polícia federal no estado de Oaxaca. Nove pessoas foram mortas pela ação das forças de segurança. O país está agora em um impasse: os docentes, contrários a uma reforma educacional proposta pelo presidente Enrique Peña Nieto, bloqueam estradas nos estados de Chiapas e de Oaxaca. O governo se dispõe ao diálogo, mas impõe como condição o fim dos bloqueios.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Lançamento do Livro: PRECONCEITO CONTRA A JUVENTUDE

Amigos e amigas,

Boa noite!

Apresento a voces um Livro novo que está em pré-lançamento!
Este livro tem como título PRECONCEITO CONTRA A JUVENTUDE e é organizado pelo Padre 
Paulo F. Dalla-Déa, da Diocese de São Carlos/SP. Está sendo lançado pela Editora Prismas, de Curitiba/Paraná.

Neste livro tem um capítulo de minha autoria: A gangue dos invisíveis: a “invisibilidade” da PJ na Igreja Católica. Abaixo partilho com vocês o Sumário e a Introdução do mesmo para ter uma visão de todos conjunto.

e também um amigo pejoteiro escreve outro capítulo: Juventudes sob controle - José Luiz Possato Jr

Para adquirir o livro entrar em contato com a Editora Prismas no seguinte endereço:
Editora Prismas Ltda.
agenteeditorial@editoraprismas.com.br
Rua Cel. Ottoni Maciel, 545 – Vila Izabel
Tel: (41) 3030-1962  – 3030-1964
Celular (41) 9828-0148
CEP.80320-000 - Curitiba, PR

O preço de cada exemplar é de R$ 28,00.

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PRECONCEITO CONTRA A JUVENTUDE
Paulo F. Dalla-Déa (Org.)
1ª Edição - Copyright© 2016 Editora Prismas

Sumário

INTRODUÇÃO
Um assunto difícil de abordar... ..........................7
Ensaio sobre o preconceito contra a juventude
Paulo F. Dalla Déa ..................................................... 11
Juventudes sob controle
José Luiz Possato Jr ................................................... 33
A gangue dos invisíveis: a “invisibilidade” da PJ na
Igreja Católica
Onivaldo Dyna ......................................................57
Preconceito Religioso no Amapá
Msc. Marcos Vinicius de Freitas Reis e Esp. Bruno Rafael
Machado Nascimento .............................................87
Testemunhos de jovens .................................. 117

INTRODUÇÃO
Um assunto difícil de abordar...

“Alegra-te jovem na tua mocidade,
alegre-se o coração nos dias de tua mocidade
e anda pelos caminhos do teu coração e pela vista
dos teus olhos;
sabe porém que por todas essas coisas te dará
Deus o juízo.
Afasta a ira do teu coração e remove de tua carne
o mal,
porque adolescência e juventude são vaidades. ”
Eclesiastes 11, 10-11

A Bíblia é um livro fenomenal. Recorde de edições, de traduções e de leitores, nunca houve um livro tão lido e que fizesse tanta diferença na vida de tanta gente.... Extraordinário para o bem e para o mal. Hoje, conflitos entre povos ainda são inspirados pela Bíblia: conflitos entre católicos e protestantes na Irlanda; entre judeus e palestinos na Terra Santa (deve ser chamada assim pelos inúmeros mártires de todos os lados que lá tombaram em nome da fé) e muitos outros, tanto hoje como ontem (receio que amanhã também, mas queria crer que não).
Contudo, pela citação de Eclesiastes, podemos ver que o que valia mesmo na época da escritura do Eclesiastes era a idade avançada. Não sou biblista e não vou me aventurar pelos caminhos tortuosos e técnicos da exegese e da crítica textual ou da historiografia e da história da composição do texto. Se quiser, o leitor poderá acompanhar essa discussão técnica em outros livros e textos. Estou aqui para falar um pouco dos preconceitos sobre a juventude. Essa pretende ser uma obra coletiva, recolhendo textos meus e de alguns amigos, jovens autores, sobre o tema.
Juventude é sempre um tema carregado de emoção: ou porque as pessoas tendem a idealizar o jovem como algo sempre bom (como as propagandas de refrigerantes e de roupas) ou tendem a projetar sobre ele as frustrações de sua época que não foram bem resolvidas. Dificilmente o olhar é sereno sobre o assunto. Pior ainda se falar sobre
adolescência.... Aí o assunto tende sempre a sair dos trilhos, para o bem e para o mal, sem se dar conta que a projeção é um mecanismo psicológico bastante traiçoeiro.
O presente texto não pretende ser totalmente acadêmico, mas contribuir para uma discussão que tem um viés prático-pastoral. Entre os colaboradores temos acadêmicos e jovens que vivem na pele de suas opções vitais o compromisso com a juventude. Não se pode apenas discutir de fora um tema: a neutralidade científica absoluta é um mito já desmascarado há décadas, já no século XX.
Por isso, gostaria de apresentar os autores do texto, alguns são acadêmicos, outras trabalham com a Pastoral e já foram assessores da CNBB, outros são carismáticos e todos são interessados no tema.

Laísa Silva é formada em Psicologia e é membra da Pastoral da Juventude de Belo Horizonte. Tem 24 anos.
Guilherme Gutierrez tem 25 anos, é membro da Pastoral da Juventude de Belo Horizonte e trabalha no Colégio Santo Agostinho.
Marcos Vinícius é doutorando pela UFSCAR e professor universitário da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP) do Curso de Graduação em Relações Internacionais.
Bruno Rafael é professor da rede de ensino do Estado do Amapá. Especialista em metodologia do ensino de História e Geografia; e especialista em ensino religioso.
José Possato Júnior é formado em Literatura, professor na rede estadual de ensino no RS e membro do CEBI. É mestrando em Bíblia pela Escola Superior de Teologia em São Leopoldo-RS.
Onivaldo Dyna é formado em Filosofia e Teologia. Fez mestrado na FAJE - Faculdade Jesuíta em Belo Horizonte MG. Foi coordenador da Pastoral de Juventude Nacional (CNBB), mora em Jales-SP.

Se – ao se falar sobre um tema – se deve tomar distância teórica para se ver com mais objetividade, distanciar-se demais do tema poderá desenraizar e tirar o substrato que dá relevância ao tema. A alternância de distância e enraizamento é difícil, mas é totalmente necessária. Olhar o horizonte sem perder de vista as raízes e os compromissos históricos é absolutamente coerente com o tema a ser estudado aqui. Por isso, queremos empreender esse caminho metodológico. Esperamos dar novas luzes sobre um tema tão desfocado na Teologia e na prática de algumas comunidades.
Como última palavra, quero acrescentar que o livro não tem conclusão, pois o tema é vivo e não tem fechamento, conclusão ou coisa do tipo. O presente texto quer contribuir modestamente com a discussão, dando possibilidades novas para uma discussão velha e - às vezes - rançosa.
Boa leitura e boa reflexão! Se puder, entre em contato com os autores, gostaremos de um feedback.

Paulo Dalla-Déa


A gangue dos invisíveis: a “invisibilidade” da PJ na Igreja Católica
Onivaldo Dyna ......................................................57

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Ele estava de luto pela perda do amigo, até um “velho” enviar essa mensagem.


awebic-conselho-old-guy-fb

"My friend just died. I don't know what to do."

Em português: “Meu amigo morreu. Eu não sei o que fazer”.  
 A postagem completa foi deletada, deixando apenas a frase acima como título. Porém, só isso foi o suficiente para gerar respostas de diversos usuários, preocupados e solidários. E foi uma dessas pessoas que deixou um comentário que simplesmente vai mudar o jeito que você encara a vida e a morte.

Veja a resposta traduzida do usuário autointitulado de “Old Guy”:

Eu sou velho. O que significa que eu tenho sobrevivido (por tanto tempo) e um monte de gente que eu conheci e amei, não. Eu perdi amigos, melhores amigos, conhecidos, colegas de trabalho, avós, mães, parentes, professores, mentores, estudantes, vizinhos e várias outras pessoas. Eu não tive crianças e eu não posso imaginar a dor que deve ser perder um filho. Mas aqui vão algumas dicas: Eu poderia te dizer que você se acostuma com as mortes, mas eu nunca me acostumei. E eu não quero. Sempre que morre alguém que eu amo é como se abrisse um buraco em mim, não importam as circunstâncias. Eu não quero que isso seja algo que simplesmente passe. 
Minhas cicatrizes são provas do amor e da relação que eu tinha com essa pessoa. E se a cicatriz é profunda, assim era o amor. E que assim seja. As cicatrizes são um testemunho de vida. As cicatrizes são a prova de que eu posso amar e viver profundamente e ser ferido, ou mesmo arrancado, para que eu possa me curar e continuar a viver, e continuar a amar. O tecido da cicatriz é mais forte que a carne original sempre foi. As cicatrizes são um testemunho de vida. As cicatrizes são feias apenas para as pessoas que não podem ver. 
  Quanto à dor, você vai recebê-la como ondas. Quando o navio é destruído, você está se afogando e com destroços ao seu redor. Tudo que flutua em volta faz lembrar a beleza e magnificência do navio que ele era, e não é mais. E tudo o que você pode fazer é boiar. Você encontra algum pedaço dos destroços para se apoiar por um tempo. Talvez seja alguma coisa física. Talvez seja uma memória feliz ou uma fotografia. Talvez seja uma pessoa que também está flutuando. 
Por um tempo, tudo o que você pode fazer é boiar. Ficar vivo. No começo as ondas têm 100 pés de altura e quebram em você sem misericórdia. Elas chegam a cada 10 segundos e não te dão tempo para retomar o ar. Tudo o que você pode fazer é aguentar e flutuar. Depois de um tempo, talvez semanas ou meses, você verá que as ondas continuam com 100 pés, mas elas chegam em intervalos maiores. Quando elas vêm ainda acabam com você, mas, pelo menos, você consegue respirar, consegue funcionar. Você nunca sabe o que desencadeia a dor. Pode ser uma música, uma foto, uma rua, o cheiro de copo de café. Pode ser qualquer coisa... e a onda vem te quebrar. Porém,entre as ondas, existe vida. Em algum momento, e isso é diferente em cada um, você pode achar que as ondas têm apenas 80 ou 50 pés. E quando elas vêm, chegam mais distantes. Você pode vê-las chegando. Uma data importante, um aniversário, natal, ou um desembarque no O’Hare (Aeroporto Internacional de Chicago/EUA). Você pode vê-las chegando - em sua maioria - e se preparar. E quando ela te cobrir, você já sabe que de alguma forma você, de novo, sairá do outro lado. Encharcado, arranhado e ainda apoiado nos destroços, mas você sairá. 
Aprenda isso de um velho. As ondas não param de chegar, e de alguma forma você realmente não quer que parem. Mas você aprende que você vai sobreviver a elas. E outras ondas virão. E você vai sobreviver também. Se você tiver sorte, você vai ter um monte de cicatrizes de um monte de amores. E um monte de navios naufragados.” 
 

Postado: 30 Outubro 2015 03:00. 
Fonte: reddit.com.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

‘Hoje, os meninos não estão tendo tempo de chegar ao sistema prisional, eles morrem antes’

Entrevistada por Mariana Oliveira e Luciana Guedes, equipe da Anistia Internacional Brasil.

Mônica Cunha é uma lutadora e basta olhar e escutar para ter certeza. Mulher, negra, do subúrbio do Rio de Janeiro, criou três filhos. Há 14 anos, sua vida virou de ponta-cabeça. Um de seus filhos, Rafael, de 15 anos, foi apreendido pela polícia depois de participar de um roubo. A dor como mãe a conduziu por caminhos de aprendizado e de mobilização. Hoje, ela se orgulha de ser uma das fundadoras do Movimento Moleque, que promove direitos de adolescentes que estão no sistema socioeducativo e seus familiares.
anistia
O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) se transformou em seu livro de cabeceira. Depois de mais de 10 anos de dedicação, ela sabe como poucos onde estão os problemas e como poderiam ser algumas soluções. Nesta entrevista exclusiva à Anistia Internacional, ela fala sobre sua história de vida, suas motivações, maioridade penal e os 25 anos do ECA.


Anistia Internacional – Como nasceu o Movimento Moleque?

Porque tive um filho, o filho do meio, o Rafael, que veio a cometer o primeiro ato infracional aos 15 anos, em 2001. Eu morava em São Cristóvão [Rio de Janeiro], trabalhava numa pensão onde vendia quentinhas. Certo dia, me ligaram da delegacia dizendo que o meu filho estava preso. Eu não acreditei e bati o telefone. Em seguida, uma detetive ligou com todos os meus dados, pedindo que eu comparecesse à DPCA – Delegacia de Proteção à Infância e ao Adolescente.
Quando cheguei à delegacia, meu filho estava algemado e sujo, como se o tivessem arrastado pelo chão. Eu fiquei desesperada e, até esse momento, eu não sabia o que tinha acontecido. Corri para abraçar meu filho, mas um dos policiais, que estavam ao lado dele, o segurou e falou para mim: "Na hora que vocês estão parindo bandido, não percebem. Aí a gente vai na rua para limpar e vocês vêm cheias de amor. Aí o bandido tem mãe”. Eu, abusada, simplesmente respondi: "Quando eu pari meu filho, o médico só disse que foi do sexo masculino. Não disse que era bandido não”.
Isso me fez enxergar a necessidade de criar o Movimento Moleque, que nasceu no dia 10 de dezembro de 2003, com as mães dos meninos de todas as unidades do Padre Severino (unidade do sistema socioeducativo da cidade do Rio de Janeiro), vestidas de preto e viradas de costas para a porta da instituição.
O Movimento Moleque é de denúncia, de reivindicações. Ele apresenta para as famílias de adolescentes cumprindo medida socioeducativa os direitos que elas têm, e os ajuda a cobrar sua implementação. É para empoderar essas mães, porque elas vão poder não só se ajudar, como ajudar os meninos.
Antes do Estado controlar esses jovens, quem deve fazer isso são as mães. Foram elas que deram a vida para esses meninos, não o Estado. E são elas que cobram para que o Estado implemente o Estatuto da Criança e do Adolescente.

reproducao
AI – Como foi sua experiência no sistema socioeducativo com o Rafael?

Eu fui com meu filho ao Degase – Departamento Geral de Ações Socioeducativas – e, ao chegarmos lá, a assistente social perguntou nosso endereço. Quando eu disse "São Cristóvão”, ela disse que colocaria meu filho no bloco do Comando Vermelho. Eu tomei um susto e respondi "Quem comanda meu filho sou eu!”. Só então ela me explicou que devido ao local onde morávamos, se ela o colocasse em um bloco de outra facção, ele poderia ser assassinado.
Rafael, até os 17 anos, teve quatro entradas no Degase. Quando ele foi para a internação, levaram para o Educandário Santo Expedito. Quando eu cheguei para visitar, já sabia que eu precisava fazer alguma coisa, mas ainda não sabia o quê.
Em uma das minhas visitas, houve uma rebelião dos meninos contra os agentes. Nessas rebeliões, quem sempre sai perdendo são os meninos, porque os agentes ‘metem a porrada”. Esta não foi a principal violência que o meu filho sofreu lá dentro, mas ela, de fato, acontece.
Quando as mães entraram, os meninos estavam todos machucados, nós podíamos ver as marcas. Eu não aguentei. Levantei e disse: "Isso não pode mais continuar assim. Eu não pari meu filho para vocês baterem. Se fosse para bater, eu mesma fazia na minha casa”.
Eu pedi para falar com o diretor, fui como representante dos pais. O diretor quis fazer um acordo, pois ele dizia que não sabia de nada. Não via nada, não escutava nada e que toda a culpa era dos funcionários.

AI – E o que você fez?

A partir daí eu passei a fazer um trabalho, que era o que estava no Estatuto da Criança e do Adolescente, mesmo sem saber exatamente o que era o ECA. Eu acompanhava as reuniões, pedia para entrar para ver como eles se comportavam nos dias de semana etc. Por eu estar fazendo isso, um dos agentes me deu o ECA de presente e disse para mim: "Dona Mônica, lê o Estatuto na parte de adolescente autor de ato infracional. O que a senhora não entender, escreve no cantinho que depois eu explico”. Aí eu fui entendendo, que aqueles meninos tinham direitos, por mais que tivessem cometido ato infracional.
Enquanto eu esperava nas filas para a visitação, aos domingos, eu já via a necessidade de conversar com essas famílias. Eu percebia, nas conversas, que as pessoas tinham origens humildes, em geral, o nível de escolaridade era mais baixo que o meu e não tinham informação nenhuma. Eu comecei a pensar "Não sou só eu que preciso saber do Estatuto não, esse povo também precisa”.
Então, aos domingos, nas visitas do Santo Expedito, eu combinava com o pessoal de chegarmos às 8h da manhã, e tinha uma pedra onde eu sentava e ficava lendo o Estatuto com todo mundo. O que elas me perguntavam que eu não sabia responder, eu perguntava para o agente e respondia na outra semana. Fiz isso durante uns dois meses.
Também fiz esse trabalho com os meninos. Peguei um Estatuto, dei para um, que levou para dentro da internação e que fazia a mesma coisa.

AI – E isto cresceu, não foi?

Aí eu quis aprender mais. Esse mesmo agente, que me deu o Estatuto de presente, me apresentou para as organizações não-governamentais (ONGs). Tinha uma chamada Fundação Bento Rubião, que era uma grande instituição de direitos da criança e dos adolescentes, na década de 1990 (hoje, só trabalha com terra e habitação). Eles tinham um projeto do Ministério da Justiça para trabalhar com os jovens infratores e seus familiares, com o dinheiro depositado na conta deles, só não tinham um público. E quando eles perceberam que eu conseguia liderar aquele público, e que todos me ouviam, eles decidiram: é essa que vai levar o projeto até as famílias.
Foi então que a Fundação Bento Rubião me chamou para trabalhar com eles. Lá, eu descobri o que eram os direitos humanos e foi como nascer de novo. Trabalhei em diversas instituições, não só com jovens infratores, mas também com adolescentes de rua; que sofrem exploração sexual etc. Eu queria entender como um adolescente se torna autor de um ato infracional. Porque, na minha cabeça, eu nunca aceitei que se dormia de um jeito e acordava ladrão.
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AI – E você chegou a alguma conclusão?

Sim: que o adolescente se torna infrator, não nasce assim. E isso acontece por diversos motivos. Por conta do meio e do convívio. Ele pode ter sofrido violência doméstica, mesmo que não seja fisicamente. Ou vive um desamor dos pais. Isso acontece muito porque a gente vive, hoje, num mundo em que o capitalismo faz você procurar dinheiro 24 horas por dia. Não tem dinheiro que dê. Assim, a gente não tem tempo nem para a gente, imagina dedicar tempo ao outro? A gente vive dentro de uma guerra e os meninos estão sendo criados no meio disso tudo. E você, sem tempo, deixou de passar os valores que seus pais te ensinaram para os seus filhos. É muito difícil educar filho quando se sai de casa às 4h da manhã para trabalhar e só volta às 10h da noite.

AI – Você acha que a redução da maioridade penal pode ajudar esses jovens?

A redução da idade penal não ajuda esses meninos. Este assunto está muito forte por conta dos empresários e das privatizações dos presídios. A privatização é para dar dinheiro e, para isso, eles vão precisar dos presídios cheios. Quem é que vai estar lá dentro? É o adolescente, é o jovem, e não é qualquer jovem. É o jovem negro, porque é este jovem que está sendo criminalizado. São estes que estão sendo assassinados, são estes que estão sendo encarcerados. Hoje em dia, a medida socioeducativa tem cor: negra. O sistema penal tem cor: negra. E o cemitério, tristemente, também tem cor: negro.
Hoje, os meninos não estão tendo nem tempo de chegar ao sistema prisional aos 18 [anos]. Eles estão morrendo antes.

AI – Qual é a solução, na sua opinião?

A solução é a educação. Não só aquela que você aprende português e matemática na escola. Estou falando de educação, que fale de cidadania, que diga de onde você veio, quem é você, qual é o seu papel na sociedade. Que responda o porquê de um adolescente autor de ato infracional branco, morador de Ipanema, ter um tratamento diferenciado em relação ao adolescente autor de ato infracional, morador do Complexo do Alemão. Que responda o porquê do primeiro adolescente receber liberdade assistida e o morador do Alemão ser internado no sistema socioeducativo, mesmo os dois tendo cometido o mesmo crime.
AI – Você acha que se fosse possível implementar, de fato, as medidas previstas no ECA resolveríamos o problema?
Sim. A questão é que as pessoas saíram falando: "reduza, reduza, reduza” [a idade penal], mas nunca conseguiram implementar as medidas socioeducativas. Nem sabem se dá certo ou não.
No dia 13 de julho, o ECA completou 25 anos e há 22 anos pede-se redução da maioridade penal. Por que querer mudar algo que nem se sabe se dá certo ou não? Talvez porque, se implementar, vai dar certo. Se educar, se der suporte, esses meninos podem ser doutores amanhã. Mas eles serão doutores negros e isso muita gente não quer. A questão da redução da maioridade penal é também uma questão racial.

AI – E se você pudesse dizer alguma coisa a essas pessoas que apoiam a medida?

Eu diria que pelo menos leiam o Estatuto da Criança e do Adolescente. Quando vemos as pessoas que são a favor da redução da maioridade penal, muitas delas expressam ódio, raiva, vontade de que quem está naquela situação, não seja só punido, mas que sofra. O debate não deve ficar apenas no "sou contra” ou "sou a favor”. Que essas pessoas procurem se informar, porque se não nos preocuparmos com o outro, se ficarmos em cima do muro e não fizermos nada para ajudar, nós seremos responsáveis. Estaremos ajudando a colocar adolescentes no sistema prisional e acabando com todas as esperanças desses jovens. Não só deles, como de toda a família.




terça-feira, 28 de julho de 2015

A morte de Rafael pelo Bope e o genocídio de nossa juventude. Por Jean Wyllys

Mais uma vítima do BopeMais uma vítima do Bope
Publicado por Jean Wyllys no facebook:
Estou muito comovido por esta notícia e peço a vocês que dediquem alguns minutos para ler o que vou contar. Hoje mais cedo, através de amigos e assessores, soube da morte de Rafael Camilo Neres, um jovem trabalhador de 23 anos que foi assassinado pelo Batalhão de Operações Especiais (BOPE) da Polícia Militar do Rio de Janeiro no domingo à noite, enquanto entregava uma pizza no Morro da Coroa, no Rio Cumprido. Sim, ele era entregador de pizza, mas com esse emprego não ganhava o suficiente para viver, então trabalhava também fazendo entrega de livros para uma editora independente.
“Estou em estado de choque. Rafael, o nosso entregador, foi morto ontem pelo Bope”, contou o dono da editora, Sergio Cohn, a um dos meus assessores. “O Bope já está colocando ele como criminoso, apresentaram armas como se fossem dele. Vão tentar desqualificar. Ele era um garoto que criou uma empresa de entregas e, embora muito jovem, era muito sério e maduro, tanto que conversávamos em dividir um espaço para estocagem e logística conjunto. Lembro de Rafael ter feito outra entrega extraordinária, dois meses atrás, em um sábado na Casa Daros, para o lançamento da revista Mesa. Quando chegou, comentei que tinha ficado preocupado que ele não viesse, por conta de ser feriado e ter sido solicitado muito em cima hora. Ele respondeu imediatamente: ‘Não falto em compromissos’, mostrando sua seriedade e rigor”, diz Cohn. Eu já coloquei meu mandato a disposição dele e vou tentar contato com a família de Rafael.
A história se repete. A polícia chega na favela atirando, em alguma suposta operação “contra o tráfico”, mais uma vez, nessa absurda guerra contra as drogas que custa milhares de vidas. E sempre alguém morre. Às vezes, alguém envolvido no tráfico, geralmente um rapaz que chegou na “boca” procurando um meio de subsistência, numa sociedade que oferece a ele poucas alternativas. Outras vezes é um policial, que por um salário miserável arrisca a vida. Outras vezes, como aconteceu com Rafael, é alguém que simplesmente estava ali por alguma outra razão, como a entrega de uma pizza. Não vou falar em “vítima inocente”, porque inocentes são todos. Qualquer pessoa executada ilegalmente pelas forças de segurança é inocente. Só é culpado quem for condenado pela justiça depois ser julgado com direito de defesa e de acordo com a lei, e a execução não está prevista como pena no Código Penal. Não há, portanto, execuções justificáveis. Nenhuma.
Contudo, quando elas acontecem — e acontecem o tempo todo — a primeira reação da polícia é ocultar o crime dizendo que a vítima “era traficante”, palavra que é usada com uma grande flexibilidade semântica, incluindo desde Pablo Escobar até um menino de 16 anos que fazia uma bico para “o dono” do morro. Provas são plantadas, armas aparecem, drogas que não estavam ali são achadas. Às vezes, pouquíssimas vezes, algum jornalista investiga, a família ou os amigos conseguem falar com um parlamentar como eu, alguma ONG intervém, uma parte da classe média se comove, faz barulho e consegue ser ouvida de uma forma que os que moram no morro nunca são. E a verdade acaba sendo contada. Contudo, infelizmente, na maioria das vezes não é assim. O caso é fechado com a alegação de que a vítima era “traficante”, “bandido”, “marginal” — palavras que não são usadas quando um jovem branco, morador da Barra, vende drogas sintéticas numa festa badalada — e a manchete do jornal elogia o trabalho dos policiais. É o cotidiano de quem mora naqueles territórios das nossas cidades onde o Estado só chega em forma de blitz, caveirão e tiro de metralhadora.
A família de Rafael está tendo dificuldades para retirar o corpo do IML. Testemunhas contaram que o jovem pediu ajuda após tomar o primeiro tiro e o policial do BOPE pediu para as pessoas se afastarem, para ele poder “acabar o serviço”, e o baleou novamente. Um tiro no peito e outro no rosto. Enquanto a Câmara dos Deputados debate a infame proposta de redução da maioridade penal, o que vigora na vida real das favelas e das periferias é a pena de morte, executada pelas polícias no vácuo da legalidade. A polícia acusa, julga, condena e executa. E a justificativa disso é a fracassada e absurda “guerra às drogas”.
Segundo o Instituto de Segurança Pública (ISP), só no Rio de Janeiro, em 2013, houve 4761 homicídios, 16,7% mais que em 2012. Desse total, 416 foram assassinatos cometidos pela polícia e registrados sob o eufemismo de “auto de resistência”. O panorama é assustador em todo o país. Entre 1980 e 2010, a taxa de mortalidade por armas de fogo no Brasil cresceu de 7,3 a 20,4 por cada 100 mil habitantes, mas esse número, já altíssimo, dobra quando falamos dos jovens: quando as vítimas têm entre 15 e 29 anos, a taxa é 44,2. E a principal causa disso é a guerra às drogas.
Precisamos acabar com esse genocídio da nossa juventude, que atinge principalmente a juventude negra, pobre e favelada. É uma realidade que os poderes públicos não fazem nada para reverter. E precisamos desmilitarizar as polícias e acabar com a lógica de exército de ocupação e combate contra os destituídos de cidadania que elas praticam, amparadas por governos e pelos discursos fascistas que proliferam na grande mídia. Se não mudarmos com urgência esse quadro, vamos continuar chorando mais e mais meninos como Rafael.
Precisamos dizer basta a essa lógica perversa. Não acabou, tem que acabar.

in: 
Postado em 28 jul 2015