pense

"Eles tentaram nos enterrar, mas não sabiam que éramos sementes! "

Proverbio mexicano
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quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

IMPRESSIONANTE RELATO DO HORROR EM BRASÍLIA...

AI-5 SE ATUALUZA APÓS  48 ANOS...
ESTADO DE EXCEÇÃO SE AFIRMA...

HÁ QUE COMPARTILHAR O MAIS AMPLAMENTE...

Saímos de Campina Grande- PB no domingo, dia 27. Éramos três professores: um do IF e dois da UEPB, e os demais 42 eram estudantes secundaristas e universitários. No dia da nossa chegada, nos concentramos na UNB.
No dia seguinte, fomos ao local das atividades. Após concentração e distribuição do almoço no MEC, assistimos a fala da Maria Lúcia Fatorreli. Em seguida, caminhamos para a concentração no Museu e de lá caminhamos em direção ao Senado. Nunca tinha visto tanta gente na rua lutando pela mesma causa. Não sou a melhor pessoa para números, mas acredito que tínhamos 50.000 pessoas na rua. A energia era forte, uma mistura de determinação e esperança. Nosso grupo rapidamente chegou ao gramado que antecede o espelho d'gua. Sem aparente identificação,  os policiais já estavam posicionados para nos receber. Até então não tinha havido nenhum tipo de embate, apenas algumas pessoas dentro da água. Do lado oposto em que estávamos, uma mulher dizia algo para os policiais. Nesse momento tive a idéia de abrir a bolsa e pegar o celular. Nessa fração de segundo ouvi uma vaia generalizada e levantei os olhos: a mulher estava inerte na água. Todos se revoltaram com o fato do policial jogar spray de pimenta algumas vezes e ela não recuar. No entanto, a maior revolta foi a agressão física que a fez desmaiar na água: enquanto jogava o spray, ele a chutou no rosto. Lembrem- se que ela estava no nível mais baixo ( na água) e ele no terraço do Senado. Sim, a polícia provocou e começou as agressões. Aí tudo virou um caos. Um grupo virou um carro branco, acendeu o fogo e em seguida o empurrou em direção aos policiais, numa espécie de barricada para tentar resgatar a moça. Outras pessoas foram de mãos para cima para tentar negociar a retirada garota, mas também levaram spray de pimenta.  Nesse momento, as bombas de gás lacrimogêneo começaram a cair por todos os lados. Uma caiu na nossa frente, saímos de lá com aquela sensação de queimor insuportável, mas, ao mesmo tempo, já estávamos com pequenas quantidades de vinagre ( já que este e o leite de magnésio são eficazes para barrar os sintomas que o gás causa). Todas essas recomendações recebemos e propagamos na viagem, bem como as estratégias de rota de fuga ( com uma montagem de um mapa do plano piloto) em caso de embate com a polícia, dispersamento ou desencontro.
A medida em que recuávamos, a polícia avançava. Ela não poupava ninguém. Quando o protesto começava a tomar corpo, já se aproximava do fim do expediente dos trabalhadores. Ninguém foi poupado. Vi idosos, mulheres com crianças, e nós, os militantes, apanharem muito. O desespero era fugir do gás e, simultaneamente, retirar quem estivesse atingido ao lado: foi a maior lição de solidariedade que vivi.
Nossa janela de fuga ( sim, porque 95% das pessoas que lá estavam não foram preparadas para uma guerrilha urbana) foi proporcionada pelos Blacks BLOCKs. Eles retardaram o avanço da polícia e criaram, junto com alguns militantes mais experientes, barricadas para conter o avanço policial. Eles também apanharam muito. Carros foram queimados para distrair atenção dos agressores, painéis e alguns prédios de ministérios foram quebrados na tentativa de diminuir as agressões e salvar as pessoas feridas.
Nesse momento percebemos os helicópteros ( eu contei 4 diferentes). No início eu achei que era apenas para acompanhamento da movimentação da massa. Já no início da noite, algumas aeronaves começaram a fazer voos mais baixos e, logo em seguida, estourava uma nova bomba. Eu não vi cair nenhuma bomba dos helicópteros, mesmo porque o inferno estava no solo, mas a polícia estava muito longe para que as bombas chegassem a nós. O pior aconteceu quando a cavalaria entrou em ação. O pânico tomou de conta. As pessoas corriam enlouquecidas com medo de serem pisoteadas pelos cavalos. E o confronto seguiu nesse terror. Estávamos assustados demais para reagir e, em nosso grupo, a prioridade era proteger os alunos já que a maioria deles nunca tinham presenciado embates tão duros. Hoje percebo que o país inteiro não tinha vivido tão recentemente tamanha truculência.
Conseguimos enviar boa parte do grupo para o ônibus, mas ainda tínhamos que pegar os outros no nosso ponto de fuga. Criou-se assim uma espécie de equipe de resgate. Nesse momento trocamos de blusas, tiramos botons/adesivos e jogamos as bandeiras fora. O mais importante era restabelecer em segurança o grupo. E as bombas continuavam a cair. Um dos aspectos que a bomba causa é o impacto psicológico: elas tem um som ensurdecedor e treme o chão quando toca o solo. Ainda assim, depois de juntarmos quase todos e o clima aparentemente ter  acalmado, ainha tínhamos os desaparecidos. Só tínhamos duas alternativas: hospital ou cadeia. A ajuda dos companheiros que não estavam no protesto foi fundamental. Eles nos ajudaram a localizar várias pessoas, entre elas, nossa companheira desaparecida que estava no hospital da UNB. Ela foi socorrida por uma enfermeira que tinha na mão o magnésio e a achou desacordada debaixo de uma árvore. Não sabemos seu nome, apenas que salvou nossa aluna. Para esta pessoa os meus mais sinceros agradecimentos. Não são todos que se dispõe a salvar a vida do outro, colocando a sua própria vida em jogo. Não podemos esquecer da equipe médica que a atendeu. Não tenham dúvidas de que foi um belíssimo trabalho, já que nossa aluna possuía uma fragilidade pulmonar que complicou os sintomas do gás em seu corpo. Obrigada equipe médica da UNB.
Ao acordar, nossa aluna conseguiu passar as informações para o pessoal do hospital, que entraram em contato com familiares e professores de sua unidade de ensino que, por sua vez, entraram em contato conosco. Ela nos relatou que o hospital estava cheio e que, em sua maioria, mulheres eram as principais vítimas, sobretudo as que estavam com os seios desnudos. Impossível não fazer um leitura sociológica desse fenômeno.  Ela também nos relatou um caso de uma criança de ( aparente)10 anos. Ela e sua mãe estavam muito machucadas: a mãe com marcas roxas pelo corpo causado pelo cacetete, a criança com 15 pontos na boca em direção às maçãs do rosto. A mãe foi buscá-la na escola vestindo uma camisa do "Fora Temer" e, por azar, estava no olhou do furação. A mãe foi agredida pelo policial que, não satisfeito com o espancamento, partiu para agredir a criança.
Pude perceber que existia prazer em alguns policiais em agredir as pessoas, outros, nos indicavam com um olhar uma rota de fuga. Pessoas e pessoas.
Não posso deixar de mencionar o papel de alguns cidadãos de Brasília. Mesmo não estando no protesto, eles nos indicavam os possíveis caminhos para fugir daquela insanidade. Muito obrigada.
Já passava das 21h e ainda tínhamos alunos desaparecidos. Ficamos sabendo que a polícia tinha fechado a rodoviária e estava prendendo militantes dentro dos ônibus estacionados nas imediações da rodoviária. Ao mesmo tempo, dois dos nosso alunos estavam em outra localidade com uma delegação diferente. Decidimos pegar um táxi e entrar na rodoviária para procurarmos o último desaparecido. Para nossa sorte, recebemos mensagem de que ele tinha encontrado nosso transporte e estava a salvo. Assim retornamos ao ônibus e saímos de Brasília naquele mesmo momento.
Sentimos falta da presença da CUT e MST.  Acredito que se eles estivessem lá o resultado poderia ser diferente. No entanto, as entidades que estavam, nos deram maior apoio possível, inclusive, de ordem tática. Não foi a toa que a polícia deu voz de prisão aos manifestantes que estavam no alto do trio elétrico chamando a militância a resistir ao avanços dos policiais.
Acredito que o protesto de ontem e seus desdobramentos deram início a outro momento na história do país. E o protagonismo será da juventude. Cabe a nós, os professores, o papel de elaborar proteger, orientar, salvar, zelar e agir por nosso jovens.
Me desculpem eventuais erros e equívocos, mas ainda estamos na estrada rumo ao nosso destino. Ao menor sinal de Internet, recebemos muitos pedidos de informações e, por este motivo, fiz esse relato.
Nesse momento, 20:56 do dia 30/11/16, em algum lugar desta enorme Bahia, decidi escrever esse texto como forma de informação, mas também de expurgo para a compreensão geral dos chocantes acontecimentos de ontem.

É imprecionante o crescimento individual deste grupo de alunos. Eles estão mais coesos e solidários. No início da viagem houve pequenos ruídos por causa dos posicionamentos de um grupo de alunos com outro grupo que tinha orientação  lgbt. Neste exato momento estou sentada entre dois grandes grupos que estão debatendo questões específicas. Os rapazes mais conservadores estão discutindo gênero com parte do grupo lgbt e o outro discutindo formas de exploração do trabalho. Se tornaram homens e mulheres, literalmente, do dia pra noite. Eu apenas os observo, afinal quem mais está aprendendo aqui sou eu. E meu coração está inundando de amor e felicidade.

A PEC passou e irá passar. Mas o sentimento de que fiz ( fizemos) tudo que estava ao meu (nosso) alcance me conforta, mas não me resigna. Saio mais convicta da necessidade da luta.

Mauriene Freitas, Profa da UEPB.

quinta-feira, 24 de março de 2016

Amigos e amigas....
abaixo segue a Homilia de Quinta-feira Santa pronunciada pelo Bispo Monsenhor Leonidas Proaño no de 1980.
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O Povo te fez Santo.

Neste dia, 24 de março de 1980, 36 anos atrás, Mons. Oscar Arnulfo Romero, deu sua vida em defesa dos direitos dos mais pobres e excluídos pela sociedade dominante.

Nós todos queremos que sua memória seja mantida viva e, especialmente, a sua mensagem e sua palavra seja praticada, já que esta é a melhor maneira de retribuir o legado enorme e profundo de Mons. Romero e todos os inúmeros mártires que deram suas vidas em defesa doa direitos.

Mons. Romero vive na memória do nosso povo.

Abaixo compartilho a Homilia Quinta-feira Santa  pronunciada por Mons. Leonidas Proaño.
fraternalmente
Surimana
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HOMILIA DE JUEVES SANTO Mons. Leonidas Proaño, 1980

Hermanos: Durante unos breves minutos más yo voy a hacer unas reflexiones tomando el Evangelio en nuestras manos, el que hemos leído, pero antes de hacerlo quiero hacer un breve relato primero de la muerte de Mons. Óscar Arnulfo Romero, y luego, de los acontecimientos de los cuales fui testigo el último domingo.

Mons. Óscar Romero fue asesinado en la Capilla del Hospital La Providencia de San Salvador mientras decía la Misa en recuerdo, en memoria de una señora que había sido también asesinada. Dos años de su muerte.

Pronunciaba su homilía, acababa de pronunciarla, se disponía a hacer el ofertorio. Qué mejor ofertorio que éste de su vida. Sonó un disparo certero, le llegó directo al corazón. Y cayó desplomado. Muerte instantánea. Ríos de sangre brotaron por su boca, por sus narices y aún por sus ojos.

He estado en la capilla en donde fue asesinado, y allí se exhiben diversas fotografías, porque por coincidencia estaba un fotógrafo allí y pudo tomar toda una secuencia de fotografías del acontecimiento.

El asesino huyó de inmediato y no pudo ser capturado, ni siquiera reconocido.   Por esta razón en la declaración que hicimos y firmamos todos los Obispos que estuvimos reunidos allá, hemos dicho que la Misa de Mons. Romero es una Misa inacabada, inconclusa. Y nos hemos comprometido a terminar esa Misa, a llevar a nuestros pueblos la misma voz que él llevó a su pueblo salvadoreño. La misma voz del Evangelio. La misma voz  del amor que es capaz de entregar la vida, para concluir su Misa.
Luego, ¿de qué fui testigo el domingo último? Se organizó la procesión de Ramos desde la basílica del Divino Corazón hasta la Catedral, distancia unas diez cuadras. La procesión transcurrió sin ningún incidente. La Misa se empezó de inmediato en el atrio mismo de la Catedral que daba frente a la Plaza Barrios. La gente, el pueblo colmaba la Plaza. El Cardenal Corripio Ahumada, cardenal mexicano, fue delegado por el Papa para representarlo ante la Iglesia de El Salvador en los funerales y en el sepelio.

Y, en nombre del Papa Juan Pablo II, el Cardenal estaba pronunciando su homilía, estaba exaltando la figura de Mons. Romero como hombre que siguió a Jesús, como hombre que sintió en el fondo de su corazón el amor al pobre, el amor a la persona que sufre. Estaba exaltando la figura de Mons. Romero y diciendo que él se comprometió con la justicia, con los pobres, que fue un hombre coherente, es decir, que lo que él pronunciaba y proclamaba con las palabras lo vivía con los hechos, con las obras, desafiando  todas las amenazas de que había sido ya víctima en  tantas otras épocas anteriores.
Eso iba diciendo el Cardenal Corripio, cuando una bomba explotó en una de las esquinas de la Plaza, delante del Palacio Nacional, mientras desfilaba un grueso concurso de gentes de lo que allá llaman la Coordinadora de Masas y mientras el pueblo estaba, como estáis vosotros aquí, congregados frente al templo de la Catedral.

Fue, queridos hermanos, algo espantoso, algo que no se me borrará de la memoria y de la imaginación. Ver, desde las gradas de la Catedral,  como esa muchedumbre empezó a moverse, a imagen de cómo se mueve el mar cuando está muy agitado, en búsqueda de un refugio.
En un primer momento, quiso buscar un escape por la esquina derecha de la Catedral, pero, tan pronto como se dirigía esta masa en esa dirección, otra bomba en esa esquina, amedrentó a la gente que se volvió hacia atrás, produciendo como podréis comprender vosotros un desorden extraordinario, y era un solo alarido el que subía desde la plaza. Buscó otra salida por la otra esquina y una nueva bomba  y disparos de ametralladora y de fusil cerraban todas las puertas.
Por las cuatro esquinas quiso salir el pueblo y se le cerraron las puertas. Entonces, desde la Catedral se les llamó para que se refugiaran por lo menos cuantos pudieran en ella. En la Catedral por grande que es no había espacio necesario para dar cabida, para dar refugio a tantas decenas de miles que se habían congregado allí. Fue algo horrible. Murieron tanto por el impacto de las balas, por las esquirlas de las bombas, como también pisoteados, ahogados por ese vaivén de la muchedumbre.
A tres metros de distancia de donde yo estaba, ya dentro de la Catedral, murió una señora de un ataque al corazón, en fila se pusieron en ese mismo momento once muertos. Y después, subió a más alto número el de muertos ocurridos en ese tremendo día.

Teniendo presentes estos hechos. Aquí tenemos otra misa inacabada. Se interrumpió la homilía del representante del Papa, se interrumpió la Misa. No fue posible darle sepultura con la Misa, sino simplemente, un responso en medio de ese gran desorden, de ese caos que se produjo allí. Dos misas inacabadas, dos misas inconclusas. Se ha llegado al sacrificio, se ha muerto a mucha gente en este último domingo. Tenemos que concluir esa Misa no solamente en el acto litúrgico, en el acto de culto, sino viviendo nuestra fe, comprometiéndonos a amar a nuestros hermanos, comprometiéndonos a establecer una sociedad nueva, una sociedad justa, una sociedad más humana tal como vienen clamando los Papas, los últimos pontífices de la Iglesia.

Después de esto tomamos pocas palabras del Evangelio. Hemos escuchado este trozo: Antes de la fiesta de Pascua, sabiendo Jesús que había llegado la hora de salir de este mundo al Padre, amó a los suyos que quedaban en el mundo y los amó hasta el extremo.
Sabía Jesús, en un Jueves como hoy, que había llegado la hora de salir de este mundo. Era la víspera de su sacrificio. ¡Qué coincidencias las que estamos viviendo! Pero quiero destacar tres palabras: Habla aquí de los suyos. Amó a los suyos. ¿Quiénes eran los suyos en relación con Jesús? Sus apóstoles: Pedro, Juan, Santiago, Bartolomé y todos los demás, estos eran los suyos. Los suyos: su madre. Los suyos: las mujeres que lo acompañaron en su peregrinaje de proclamación de la Buena Nueva. Los suyos: los pobres, aquellos a quienes había curado de tantas enfermedades. Los suyos: todos aquellos a quienes resucitó, a quienes devolvió la vida. Los suyos: todos aquellos a quienes liberó del temor y del pecado. Estos eran los suyos.

Y dice el Evangelio “los amó”, “amó a los suyos”. Quiere decir que todos estos que he señalado eran los amigos de Jesús, eran aquellos a quienes Jesús mismo dijo: Ya no os llamaré siervos, os llamaré amigos porque os he revelado todos los secretos de mi Padre. Solamente al amigo se le revela los secretos, los secretos del Padre había revelado Jesús a sus amigos. Los apóstoles eran gente pobre, eran gente humilde, estos eran sus amigos, a ellos había revelado los secretos del Padre. Ellos conocían al Padre habiendo conocido a Jesús. Felipe: el que me ve a Mí, ve al Padre. Vivían realmente en la intimidad del misterio de Dios, en la intimidad del corazón de Cristo, estos amigos suyos.

Y destaco la otra frase, la otra palabra: los amó hasta el extremo. ¿Hasta qué extremo? Hasta el extremo de dar la vida. Ya Él había dicho una vez: No hay amor más grande que aquel de quien da la vida por sus amigos. Y Él dio la vida por sus amigos.

Mañana mismo vamos a actualizar el misterio de la muerte de Cristo por sus amigos. En relación con los acontecimientos que nos han congregado en esta tarde aquí.

Fui amigo de Mons. Romero. Se tejieron lazos de amistad, de fraternidad entre la Iglesia de Riobamba y la Iglesia de San Salvador, desde años atrás. Estuvimos juntos en Puebla. Luchamos dentro de la Conferencia hombro con hombro. Estuvo aquí un  sacerdote jesuita que trabajó en su diócesis: Rutilio Grande y aquí, en la experiencia que tuvo en el trabajo con las comunidades campesinas aprendió también a sacrificarse. Y él fue asesinado también por la espalda, junto con dos campesinos, mientras se dirigía a celebrar la Misa. Y esta muerte de Rutilio Grande impactó profundamente en la vida de Mons. Romero y se comprometió desde entonces más a fondo con el pueblo, con los pobres, con la justicia.

Los suyos, los de Mons. Romero: los campesinos, los pobres, los que no tenían voz. Él hablaba cada domingo para denunciar valientemente, con  nombres concretos de lugares y de personas, todos los asesinatos que se estaban cometiendo, todas las represiones que se realizaban en contra de humildes campesinos, en contra de los trabajadores. Esos fueron sus amigos. Los amó. Y porque los amó y los amó entrañablemente les entregó su corazón, les entregó su cabeza, les entregó su vida y les entregó en esa denuncia a que he hecho referencia, en ese acercamiento, podían los campesinos, podían los pobres, podían los trabajadores acercarse hasta él con toda confianza para decirle: esto está sucediendo con nosotros, aquí ha sido asesinado mi hijo, acá ha sido asesinado mi hermano, esta es la situación de nuestro recinto, de nuestra comunidad, nos han echado de nuestras casas, han abaleado a una manifestación, y él, mientras los medios de comunicación colectiva estaban acallados por la amenaza y por el terror, él levantó siempre su voz con valentía para denunciar ante el mundo entero lo que estaba sucediendo en el interior de su país. Porque los amó. Amó a los suyos.
Y tanto los amó. Los amó hasta el extremo, como Jesús. Hasta dar su vida. Ya había recibido amenazas de muerte. Cuando llegó a Puebla ya escuchamos que le habían amenazado de muerte  y que no podría volver a su país, pero volvió.

Quince días antes habían colocado en la Catedral desde donde él hablaba por radio, y era retransmitida su alocución a través de una potente radio y se le podía escuchar aquí y en la Argentina y en otros países, habló con una constancia grande, con una serenidad grande, con un amor grande, con una valentía muy grande. Y allí se le había colocado una carga de dinamita capaz de volar toda la manzana en donde estaba la Catedral. Si esa bomba de dinamita hubiera explotado habría habido que lamentar centenares o tal vez millares de muertos porque muchísima gente acudía a escucharle sus homilías largas y denunciadoras. Viendo que les fracasó este último intento parece que pagaron a un criminal avezado y le clavaron la bala en su corazón. Por eso, creo que no es exagerado llamarle como le hemos llamado profeta y mártir. Profeta de nuestros tiempos, mártir de nuestros tiempos. No fue un líder político, no fue un hombre que luchó por ambiciones personales. Fue un hombre que luchó por la justicia. Fue un hombre que luchó por el Evangelio. Fue un hombre que no dejó, que no permitió, que no cedió el puesto de un cristiano auténtico que siguió al pie de la letra las enseñanzas de Cristo. Por eso, profeta y mártir de nuestra América Latina. Profeta y mártir del hermano pueblo de El Salvador.

 Quiero terminar hermanos para continuar con el sacrificio eucarístico, haciendo simplemente unas preguntas, unas preguntas que querría yo fueran cuestionadoras de nuestra vida, fueran curativas de lo que pudiéramos tener de egoísmo, de cobardía, de timidez antievangélica. Preguntémonos y contestémonos en nuestro interior. A ejemplo de Jesús, ¿quiénes son los nuestros?, ¿a quiénes podemos llamar los nuestros, los míos?, ¿son los pobres?, ¿son los compadres ricos?, ¿son los poderosos?, ¿son las palancas?  

Si nosotros tenemos que seguir las huellas de Jesús: preguntémonos. Él llamó los míos, el Evangelio dice “los suyos”, a sus apóstoles extraídos de entre el pueblo pobre, a los pobres que Él curó, a los pobres que Él defendió. Estos eran los suyos, los de Jesús.

Nosotros, cristianos, ¿a quiénes podemos llamar los nuestros? Es cuestión de opción. Segunda serie de preguntas, que van por el mismo camino. ¿A quiénes llamamos nosotros nuestros amigos? ¿Nos honramos mucho, nos gloriamos de tener por amigos a personas influyentes? O, ¿hemos convertido en nuestros amigos a los pobres?, ¿a los niños desarrapados?, ¿a los cargadores que por su misma presencia, aquí en la ciudad, denuncian un sistema de injusticia en que vivimos?, ¿a los pobres, a los demacrados, a los que no tienen pan para comer todos los días, a los que no tienen trabajo, a los betuneros, a los que aun cuando trabajen no les alcanza para poder sostener a su familia, a sus hijos? ¿Les llamamos amigos a éstos? ¿Son en realidad nuestros amigos?

Y la última serie de preguntas: Nosotros, todos y cada uno de los que estamos aquí presentes, sin palabrerías, sin vanidades, sin exhibicionismos, ¿estamos dispuestos a dar qué a favor de los nuestros, a favor de nuestros amigos? ¿Qué les vamos a dar? ¿Estamos dispuestos a dar de lo que tenemos? Puede ser que haya mucha gente… el pueblo de Riobamba y el pueblo de Chimborazo es muy generoso, está dispuesto a dar de lo que tiene. Sea el momento de agradecer por la generosidad con la que prestamos nuestra ayuda al pueblo de Nicaragua en dos ocasiones y últimamente también al pueblo salvadoreño. Sí, es generoso. Pero, ¿será suficiente dar una partecita de nuestra pobreza? ¿Será suficiente dar una ayuda esporádica? O, ¿qué más tendremos que dar?.

Cristo empezó dando su mensaje, mensaje de salvación, mensaje de liberación, la Buena Noticia, la Buena Nueva, para eso vino a la tierra. El cristiano está en la obligación de recibir también esta misión de llevar el mensaje a sus hermanos, de enseñar ese mensaje de Cristo, ese mensaje de salvación, el auténtico mensaje de salvación, ese que está destinado a liberar a los hombres de todas las cadenas, porque está destinado a ser libre.

Ese mensaje, tenemos la obligación de llevarlo, de dárselo a nuestros hermanos, de multiplicar por lo mismo, las organizaciones, las comunidades eclesiales de base, todo tipo de organización, al seno de las cuales podamos llevar este mensaje de Cristo.

Tenemos que dar, dar el mensaje, pero algo más, ¿qué más? Darnos nosotros mismos, dar de nuestro tiempo, dar de nuestra vida, de nuestras preocupaciones, no encerrarnos en nuestro egoísmo, no movernos únicamente dentro de nuestra capa, no, mirar hacia fuera, contemplar, descubrir, compartiendo las angustias, las incertidumbres, la pobreza, los dolores de tantos hermanos nuestros. ¡Démonos! ¡Demos el corazón! ¡Demos nuestro amor a nuestros hermanos!

El mandamiento del amor es el mandamiento fundamental del cristiano, esa es la única garantía de que somos de verdad cristianos, si amamos al prójimo, si amamos a nuestros hermanos, con un amor grande. No vamos a predicar el odio, no, es el amor, este es el objeto de nuestra preocupación, como cristianos tenemos que amar y si es necesario como consecuencia de todo lo dicho, dar la vida, dar la vida por nuestros hermanos, entregar esto que más apreciamos, a lo que más está apegado nuestro corazón, la vida, como Cristo, como tantos otros mártires de América Latina en nuestros últimos tiempos, como este profeta y mártir de El Salvador, Mons. Óscar Arnulfo Romero.

Que el Señor, que Jesús, nuestro Salvador, nuestro Liberador, con toda su luz, con toda su fuerza esté en cada una de las vidas de ustedes, en cada uno de los corazones de ustedes y que ustedes sepan corresponder a este llamado que hace el mismo Señor Jesús a todos cuantos nos llamamos cristianos, demos, démonos, entreguemos nuestra misma vida.

FUNDACIÓN PUEBLO INDIO DEL ECUADOR


recebi por email do amigo
THIESCO CRISÓSTOMO


sexta-feira, 10 de julho de 2015

Discurso do Papa Francisco aos Movimentos Populares


Santa Cruz de la Sierra (RV) -  No final da tarde desta quinta-feira o Papa Francisco concluiu o II Encontro dos Movimento Populares. Eis a íntegra do discurso preparado pelo Pontífice:

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Boa tarde a todos!

Há alguns meses, reunimo-nos em Roma e não esqueço aquele nosso primeiro encontro. Durante este tempo, trouxe-vos no meu coração e nas minhas orações. Alegra-me vê-vos de novo aqui, debatendo os melhores caminhos para superar as graves situações de injustiça que padecem os excluídos em todo o mundo. Obrigado Senhor Presidente Evo Morales, por sustentar tão decididamente este Encontro.
Então, em Roma, senti algo muito belo: fraternidade, paixão, entrega, sede de justiça. Hoje, em Santa Cruz de la Sierra, volto a sentir o mesmo. Obrigado! Soube também, pelo Pontifício Conselho «Justiça e Paz» presidido pelo Cardeal Turkson, que são muitos na Igreja aqueles que se sentem mais próximos dos movimentos populares. Muito me alegro por isso! Ver a Igreja com as portas abertas a todos vós, que se envolve, acompanha e consegue sistematizar em cada diocese, em cada comissão «Justiça e Paz», uma colaboração real, permanente e comprometida com os movimentos populares. Convido-vos a todos, bispos, sacerdotes e leigos, juntamente com as organizações sociais das periferias urbanas e rurais a aprofundar este encontro.

Deus permitiu que nos voltássemos a ver hoje. A Bíblia lembra-nos que Deus escuta o clamor do seu povo e também eu quero voltar a unir a minha voz à vossa: terra, teto e trabalho para todos os nossos irmãos e irmãs. Disse-o e repito: são direitos sagrados. Vale a pena, vale a pena lutar por eles. Que o clamor dos excluídos seja escutado na América Latina e em toda a terra.

1.    Comecemos por reconhecer que precisamos duma mudança. Quero esclarecer, para que não haja mal-entendidos, que falo dos problemas comuns de todos os latino-americanos e, em geral, de toda a humanidade. Problemas, que têm uma matriz global e que atualmente nenhum Estado pode resolver por si mesmo. Feito este esclarecimento, proponho que nos coloquemos estas perguntas:
- Reconhecemos nós que as coisas não andam bem num mundo onde há tantos camponeses sem terra, tantas famílias sem teto, tantos trabalhadores sem direitos, tantas pessoas feridas na sua dignidade?
- Reconhecemos nós que as coisas não andam bem, quando explodem tantas guerras sem sentido e a violência fratricida se apodera até dos nossos bairros? Reconhecemos nós que as coisas não andam bem, quando o solo, a água, o ar e todos os seres da criação estão sob ameaça constante?
Então digamo-lo sem medo: Precisamos e queremos uma mudança.

Nas vossas cartas e nos nossos encontros, relataram-me as múltiplas exclusões e injustiças que sofrem em cada atividade laboral, em cada bairro, em cada território. São tantas e tão variadas como muitas e diferentes são as formas próprias de as enfrentar. Mas há um elo invisível que une cada uma destas exclusões: conseguimos nós reconhecê-lo? É que não se trata de questões isoladas. Pergunto-me se somos capazes de reconhecer que estas realidades destrutivas correspondem a um sistema que se tornou global. Reconhecemos nós que este sistema impôs a lógica do lucro a todo o custo, sem pensar na exclusão social nem na destruição da natureza?

Se é assim – insisto – digamo-lo sem medo: Queremos uma mudança, uma mudança real, uma mudança de estruturas. Este sistema é insuportável: não o suportam os camponeses, não o suportam os trabalhadores, não o suportam as comunidades, não o suportam os povos.... E nem sequer o suporta a Terra, a irmã Mãe Terra, como dizia São Francisco.

Queremos uma mudança nas nossas vidas, nos nossos bairros, no vilarejo, na nossa realidade mais próxima; mas uma mudança que toque também o mundo inteiro, porque hoje a interdependência global requer respostas globais para os problemas locais. A globalização da esperança, que nasce dos povos e cresce entre os pobres, deve substituir esta globalização da exclusão e da indiferença.

Hoje quero refletir convosco sobre a mudança que queremos e precisamos. Como sabem, recentemente escrevi sobre os problemas da mudança climática. Mas, desta vez, quero falar duma mudança noutro sentido. Uma mudança positiva, uma mudança que nos faça bem, uma mudança – poderíamos dizer – redentora. Porque é dela que precisamos. Sei que buscais uma mudança e não apenas vós: nos diferentes encontros, nas várias viagens, verifiquei que há uma expectativa, uma busca forte, um anseio de mudança em todos os povos do mundo. Mesmo dentro da minoria cada vez mais reduzida que pensa sair beneficiada deste sistema, reina a insatisfação e sobretudo a tristeza. Muitos esperam uma mudança que os liberte desta tristeza individualista que escraviza.

O tempo, irmãos e irmãs, o tempo parece exaurir-se; já não nos contentamos com lutar entre nós, mas chegamos até a assanhar-nos contra a nossa casa. Hoje, a comunidade científica aceita aquilo que os pobres já há muito denunciam: estão a produzir-se danos talvez irreversíveis no ecossistema. Está-se a castigar a terra, os povos e as pessoas de forma quase selvagem. E por trás de tanto sofrimento, tanta morte e destruição, sente-se o cheiro daquilo que Basílio de Cesareia chamava «o esterco do diabo»: reina a ambição desenfreada de dinheiro. O serviço ao bem comum fica em segundo plano. Quando o capital se torna um ídolo e dirige as opções dos seres humanos, quando a avidez do dinheiro domina todo o sistema socioeconômico, arruína a sociedade, condena o homem, transforma-o em escravo, destrói a fraternidade inter-humana, faz lutar povo contra povo e até, como vemos, põe em risco esta nossa casa comum.
Não quero alongar-me na descrição dos efeitos malignos desta ditadura subtil: vós conhecei-los! Mas também não basta assinalar as causas estruturais do drama social e ambiental contemporâneo. Sofremos de um certo excesso de diagnóstico, que às vezes nos leva a um pessimismo charlatão ou a rejubilar com o negativo. Ao ver a crônica negra de cada dia, pensamos que não haja nada que se possa fazer para além de cuidar de nós mesmos e do pequeno círculo da família e dos amigos.

Que posso fazer eu, recolhedor de papelão, catador de lixo, limpador, reciclador, frente a tantos problemas, se mal ganho para comer? Que posso fazer eu, artesão, vendedor ambulante, carregador, trabalhador irregular, se não tenho sequer direitos laborais? Que posso fazer eu, camponesa, indígena, pescador que dificilmente consigo resistir à propagação das grandes corporações? Que posso fazer eu, a partir da minha comunidade, do meu barraco, da minha povoação, da minha favela, quando sou diariamente discriminado e marginalizado? Que pode fazer aquele estudante, aquele jovem, aquele militante, aquele missionário que atravessa as favelas e os paradeiros com o coração cheio de sonhos, mas quase sem nenhuma solução para os meus problemas? Muito! Podem fazer muito. Vós, os mais humildes, os explorados, os pobres e excluídos, podeis e fazeis muito. Atrevo-me a dizer que o futuro da humanidade está, em grande medida, nas vossas mãos, na vossa capacidade de vos organizar e promover alternativas criativas na busca diária dos “3 T” (trabalho, teto, terra), e também na vossa participação como protagonistas nos grandes processos de mudança nacionais, regionais e mundiais. Não se acanhem!

2.    Vós sois semeadores de mudança. Aqui, na Bolívia, ouvi uma frase de que gosto muito: «processo de mudança». A mudança concebida, não como algo que um dia chegará porque se impôs esta ou aquela opção política ou porque se estabeleceu esta ou aquela estrutura social. Sabemos, amargamente, que uma mudança de estruturas, que não seja acompanhada por uma conversão sincera das atitudes e do coração, acaba a longo ou curto prazo por burocratizar-se, corromper-se e sucumbir. Por isso gosto tanto da imagem do processo, onde a paixão por semear, por regar serenamente o que outros verão florescer, substitui a ansiedade de ocupar todos os espaços de poder disponíveis e de ver resultados imediatos. Cada um de nós é apenas uma parte de um todo complexo e diversificado interagindo no tempo: povos que lutam por uma afirmação, por um destino, por viver com dignidade, por «viver bem».

Vós, a partir dos movimentos populares, assumis as tarefas comuns motivados pelo amor fraterno, que se rebela contra a injustiça social. Quando olhamos o rosto dos que sofrem, o rosto do camponês ameaçado, do trabalhador excluído, do indígena oprimido, da família sem teto, do imigrante perseguido, do jovem desempregado, da criança explorada, da mãe que perdeu o seu filho num tiroteio porque o bairro foi tomado pelo narcotráfico, do pai que perdeu a sua filha porque foi sujeita à escravidão; quando recordamos estes «rostos e nomes» estremecem-nos as entranhas diante de tanto sofrimento e comovemo-nos…. Porque «vimos e ouvimos», não a fria estatística, mas as feridas da humanidade dolorida, as nossas feridas, a nossa carne. Isto é muito diferente da teorização abstrata ou da indignação elegante. Isto comove-nos, move-nos e procuramos o outro para nos movermos juntos. Esta emoção feita ação comunitária é incompreensível apenas com a razão: tem um plus de sentido que só os povos entendem e que confere a sua mística particular aos verdadeiros movimentos populares.

Vós viveis, cada dia, imersos na crueza da tormenta humana. Falastes-me das vossas causas, partilhastes comigo as vossas lutas. E agradeço-vos. Queridos irmãos, muitas vezes trabalhais no insignificante, no que aparece ao vosso alcance, na realidade injusta que vos foi imposta e a que não vos resignais opondo uma resistência ativa ao sistema idólatra que exclui, degrada e mata. Vi-vos trabalhar incansavelmente pela terra e a agricultura camponesa, pelos vossos territórios e comunidades, pela dignificação da economia popular, pela integração urbana das vossas favelas e agrupamentos, pela auto-construção de moradias e o desenvolvimento das infra-estruturas do bairro e em muitas atividades comunitárias que tendem à reafirmação de algo tão elementar e inegavelmente necessário como o direito aos “3 T”: terra, teto e trabalho.

Este apego ao bairro, à terra, ao território, à profissão, à corporação, este reconhecer-se no rosto do outro, esta proximidade no dia-a-dia, com as suas misérias e os seus heroísmos quotidianos, é o que permite realizar o mandamento do amor, não a partir de ideias ou conceitos, mas a partir do genuíno encontro entre pessoas, porque não se amam os conceitos nem as ideias; amam-se as pessoas. A entrega, a verdadeira entrega nasce do amor pelos homens e mulheres, crianças e idosos, vilarejos e comunidades... Rostos e nomes que enchem o coração. A partir destas sementes de esperança semeadas pacientemente nas periferias esquecidas do planeta, destes rebentos de ternura que lutam por subsistir na escuridão da exclusão, crescerão grandes árvores, surgirão bosques densos de esperança para oxigenar este mundo.
Vejo, com alegria, que trabalhais no que aparece ao vosso alcance, cuidando dos rebentos; mas, ao mesmo tempo, com uma perspectiva mais ampla, protegendo o arvoredo. Trabalhais numa perspectiva que não só aborda a realidade setorial que cada um de vós representa e na qual felizmente está enraizada, mas procurais também resolver, na sua raiz, os problemas gerais de pobreza, desigualdade e exclusão.

Felicito-vos por isso. É imprescindível que, a par da reivindicação dos seus legítimos direitos, os povos e as suas organizações sociais construam uma alternativa humana à globalização exclusiva. Vós sois semeadores de mudança. Que Deus vos dê coragem, alegria, perseverança e paixão para continuar a semear. Podeis ter a certeza de que, mais cedo ou mais tarde, vamos ver os frutos. Peço aos dirigentes: sede criativos e nunca percais o apego às coisas próximas, porque o pai da mentira sabe usurpar palavras nobres, promover modas intelectuais e adotar posições ideológicas, mas se construirdes sobre bases sólidas, sobre as necessidades reais e a experiência viva dos vossos irmãos, dos camponeses e indígenas, dos trabalhadores excluídos e famílias marginalizadas, de certeza não vos equivocareis.

A Igreja não pode nem deve ser alheia a este processo no anúncio do Evangelho. Muitos sacerdotes e agentes pastorais realizam uma tarefa imensa acompanhando e promovendo os excluídos em todo o mundo, ao lado de cooperativas, dando impulso a empreendimentos, construindo casas, trabalhando abnegadamente nas áreas da saúde, desporto e educação. Estou convencido de que a cooperação amistosa com os movimentos populares pode robustecer estes esforços e fortalecer os processos de mudança.
No coração, tenhamos sempre a Virgem Maria, uma jovem humilde duma pequena aldeia perdida na periferia dum grande império, uma mãe sem teto que soube transformar um curral de animais na casa de Jesus com uns pobres paninhos e uma montanha de ternura. Maria é sinal de esperança para os povos que sofrem dores de parto até que brote a justiça. Rezo à Virgem do Carmo, padroeira da Bolívia, para fazer com que este nosso Encontro seja fermento de mudança.

3.    Por último, gostaria que refletíssemos, juntos, sobre algumas tarefas importantes neste momento  histórico, pois queremos uma mudança positiva em benefício de todos os nossos irmãos e irmãs. Disto estamos certos! Queremos uma mudança que se enriqueça com o trabalho conjunto de governos, movimentos populares e outras forças sociais. Sabemos isto também! Mas não é tão fácil definir o conteúdo da mudança, ou seja, o programa social que reflita este projeto de fraternidade e justiça que esperamos. Neste sentido, não esperem uma receita deste Papa. Nem o Papa nem a Igreja têm o monopólio da interpretação da realidade social e da proposta de soluções para os problemas contemporâneos. Atrever-me-ia a dizer que não existe uma receita. A história é construída pelas gerações que se vão sucedendo no horizonte de povos que avançam individuando o próprio caminho e respeitando os valores que Deus colocou no coração.
Gostaria, no entanto, de vos propor três grandes tarefas que requerem a decisiva contribuição do conjunto dos movimentos populares:

3.1  A primeira tarefa é pôr a economia ao serviço dos povos.
Os seres humanos e a natureza não devem estar ao serviço do dinheiro. Digamos NÃO a uma economia de exclusão e desigualdade, onde o dinheiro reina em vez de servir. Esta economia mata. Esta economia exclui. Esta economia destrói a Mãe Terra.

A economia não deveria ser um mecanismo de acumulação, mas a condigna administração da casa comum. Isto implica cuidar zelosamente da casa e distribuir adequadamente os bens entre todos. A sua finalidade não é unicamente garantir o alimento ou um «decoroso sustento». Não é sequer, embora fosse já um grande passo, garantir o acesso aos “3 T” pelos quais combateis. Uma economia verdadeiramente comunitária – poder-se-ia dizer, uma economia de inspiração cristã – deve garantir aos povos dignidade, «prosperidade e civilização em seus múltiplos aspectos».  Isto envolve os “3 T” mas também acesso à educação, à saúde, à inovação, às manifestações artísticas e culturais, à comunicação, ao desporto e à recreação. Uma economia justa deve criar as condições para que cada pessoa possa gozar duma infância sem privações, desenvolver os seus talentos durante a juventude, trabalhar com plenos direitos durante os anos de atividade e ter acesso a uma digna aposentação na velhice. É uma economia onde o ser humano, em harmonia com a natureza, estrutura todo o sistema de produção e distribuição de tal modo que as capacidades e necessidades de cada um encontrem um apoio adequado no ser social. Vós – e outros povos também – resumis este anseio duma maneira simples e bela: «viver bem».

Esta economia é não apenas desejável e necessária, mas também possível. Não é uma utopia, nem uma fantasia. É uma perspectiva extremamente realista. Podemos consegui-la. Os recursos disponíveis no mundo, fruto do trabalho intergeneracional dos povos e dos dons da criação, são mais que suficientes para o desenvolvimento integral de «todos os homens e do homem todo».  Mas o problema é outro. Existe um sistema com outros objetivos. Um sistema que, apesar de acelerar irresponsavelmente os ritmos da produção, apesar de implementar métodos na indústria e na agricultura que sacrificam a Mãe Terra na ara da «produtividade», continua a negar a milhares de milhões de irmãos os mais elementares direitos econômicos, sociais e culturais. Este sistema atenta contra o projeto de Jesus.

A justa distribuição dos frutos da terra e do trabalho humano não é mera filantropia. É um dever moral. Para os cristãos, o encargo é ainda mais forte: é um mandamento. Trata-se de devolver aos pobres e às pessoas o que lhes pertence. O destino universal dos bens não é um adorno retórico da doutrina social da Igreja. É uma realidade anterior à propriedade privada. A propriedade, sobretudo quando afeta os recursos naturais, deve estar sempre em função das necessidades das pessoas. E estas necessidades não se limitam ao consumo. Não basta deixar cair algumas gotas, quando os pobres agitam este copo que, por si só, nunca derrama. Os planos de assistência que acodem a certas emergências deveriam ser pensados apenas como respostas transitórias. Nunca poderão substituir a verdadeira inclusão: a inclusão que dá o trabalho digno, livre, criativo, participativo e solidário.

Neste caminho, os movimentos populares têm um papel essencial, não apenas exigindo e reclamando, mas fundamentalmente criando. Vós sois poetas sociais: criadores de trabalho, construtores de casas, produtores de alimentos, sobretudo para os descartados pelo mercado global.
Conheci de perto várias experiências, onde os trabalhadores, unidos em cooperativas e outras formas de organização comunitária, conseguiram criar trabalho onde só havia sobras da economia idólatra. As empresas recuperadas, as feiras francas e as cooperativas de catadores de papelão são exemplos desta economia popular que surge da exclusão e que pouco a pouco, com esforço e paciência, adopta formas solidárias que a dignificam. Quão diferente é isto do facto de os descartados pelo mercado formal serem explorados como escravos!

Os governos que assumem como própria a tarefa de colocar a economia ao serviço das pessoas devem promover o fortalecimento, melhoria, coordenação e expansão destas formas de economia popular e produção comunitária. Isto implica melhorar os processos de trabalho, prover de adequadas infra-estruturas e garantir plenos direitos aos trabalhadores deste sector alternativo. Quando Estado e organizações sociais assumem, juntos, a missão dos “3 T”, ativam-se os princípios de solidariedade e subsidiariedade que permitem construir o bem comum numa democracia plena e participativa.
3.2  A segunda tarefa é unir os nossos povos no caminho da paz e da justiça.

Os povos do mundo querem ser artífices do seu próprio destino. Querem caminhar em paz para a justiça. Não querem tutelas nem interferências, onde o mais forte subordina o mais fraco. Querem que a sua cultura, o seu idioma, os seus processos sociais e tradições religiosas sejam respeitados. Nenhum poder efetivamente constituído tem direito de privar os países pobres do pleno exercício da sua soberania e, quando o fazem, vemos novas formas de colonialismo que afetam seriamente as possibilidades de paz e justiça, porque «a paz funda-se não só no respeito pelos direitos do homem, mas também no respeito pelo direito dos povos, sobretudo o direito à independência». 

Os povos da América Latina alcançaram, com um parto doloroso, a sua independência política e, desde então, viveram já quase dois séculos duma história dramática e cheia de contradições procurando conquistar uma independência plena.

Nos últimos anos, depois de tantos mal-entendidos, muitos países latino-americanos viram crescer a fraternidade entre os seus povos. Os governos da região juntaram seus esforços para fazer respeitar a sua soberania, a de cada país e a da região como um todo que, de forma muito bela como faziam os nossos antepassados, chamam a «Pátria Grande». Peço-vos, irmãos e irmãs dos movimentos populares, que cuidem e façam crescer esta unidade. É necessário manter a unidade contra toda a tentativa de divisão, para que a região cresça em paz e justiça.

Apesar destes avanços, ainda subsistem fatores que atentam contra este desenvolvimento humano equitativo e coarctam a soberania dos países da «Pátria Grande» e doutras latitudes do Planeta. O novo colonialismo assume variadas fisionomias. Às vezes, é o poder anônimo do ídolo dinheiro: corporações, credores, alguns tratados denominados «de livre comércio» e a imposição de medidas de «austeridade» que sempre apertam o cinto dos trabalhadores e dos pobres. Os bispos latino-americanos denunciam-no muito claramente, no documento de Aparecida, quando afirmam que «as instituições financeiras e as empresas transnacionais se fortalecem ao ponto de subordinar as economias locais, sobretudo debilitando os Estados, que aparecem cada vez mais impotentes para levar adiante projetos de desenvolvimento a serviço de suas populações».  Noutras ocasiões, sob o nobre disfarce da luta contra a corrupção, o narcotráfico ou o terrorismo – graves males dos nossos tempos que requerem uma ação internacional coordenada – vemos que se impõem aos Estados medidas que pouco têm a ver com a resolução de tais problemáticas e muitas vezes tornam as coisas piores.

Da mesma forma, a concentração monopolista dos meios de comunicação social que pretende impor padrões alienantes de consumo e certa uniformidade cultural é outra das formas que adota o novo colonialismo. É o colonialismo ideológico. Como dizem os bispos da África, muitas vezes pretende-se converter os países pobres em «peças de um mecanismo, partes de uma engrenagem gigante».
Temos de reconhecer que nenhum dos graves problemas da humanidade pode ser resolvido sem a interação dos Estados e dos povos a nível internacional. Qualquer ato de envergadura realizado numa parte do Planeta repercute-se no todo em termos econômicos, ecológicos, sociais e culturais. Até o crime e a violência se globalizaram. Por isso, nenhum governo pode atuar à margem duma responsabilidade comum. Se queremos realmente uma mudança positiva, temos de assumir humildemente a nossa interdependência. Mas interação não é sinônimo de imposição, não é subordinação de uns em função dos interesses dos outros. O colonialismo, novo e velho, que reduz os países pobres a meros fornecedores de matérias-primas e mão de obra barata, gera violência, miséria, emigrações forçadas e todos os males que vêm juntos... precisamente porque, ao pôr a periferia em função do centro, nega-lhes o direito a um desenvolvimento integral. Isto é desigualdade, e a desigualdade gera violência que nenhum recurso policial, militar ou dos serviços secretos será capaz de deter.

Digamos NÃO às velhas e novas formas de colonialismo. Digamos SIM ao encontro entre povos e culturas. Bem-aventurados os que trabalham pela paz.

Aqui quero deter-me num tema importante. É que alguém poderá, com direito, dizer: «Quando o Papa fala de colonialismo, esquece-se de certas ações da Igreja». Com pesar, vo-lo digo: Cometeram-se muitos e graves pecados contra os povos nativos da América, em nome de Deus. Reconheceram-no os meus antecessores, afirmou-o o CELAM e quero reafirmá-lo eu também. Como São João Paulo II, peço que a Igreja «se ajoelhe diante de Deus e implore o perdão para os pecados passados e presentes dos seus filhos».  E eu quero dizer-vos, quero ser muito claro, como foi São João Paulo II: Peço humildemente perdão, não só para as ofensas da própria Igreja, mas também para os crimes contra os povos nativos durante a chamada conquista da América. E junto, junto a este pedido de perdão e para ser justo, também quero que recordemos os milhares de sacerdotes, bispos, que se opuseram fortemente à lógica da espada, com a força da cruz. Houve pecado, houve pecado e abundante, e por isto pedimos perdão, e peço perdão, porém também alí, onde teve pecado, onde abundou o pecado, superabundou a graça através destes homens que defenderam a justiça dos povos originários.

Peço-vos também a todos, crentes e não crentes, que se recordem de tantos bispos, sacerdotes e leigos que pregaram e pregam a boa nova de Jesus com coragem e mansidão, respeito e em paz – disse bispos, sacerdotes e leigos, mas não quero esquecer das religiosas que anonimamente percorrem nossos bairros pobres levando uma mensagem de paz e de bem -  que, na sua passagem por esta vida, deixaram impressionantes obras de promoção humana e de amor, pondo-se muitas vezes ao lado dos povos indígenas ou acompanhando os próprios movimentos populares mesmo até ao martírio. A Igreja, os seus filhos e filhas, fazem parte da identidade dos povos na América Latina. Identidade que alguns poderes, tanto aqui como noutros países, se empenham por apagar, talvez porque a nossa fé é revolucionária, porque a nossa fé desafia a tirania do ídolo dinheiro. Hoje vemos, com horror, como no Médio Oriente e noutros lugares do mundo se persegue, tortura, assassina a muitos irmãos nossos pela sua fé em Jesus. Isto também devemos denunciá-lo: dentro desta terceira guerra mundial em parcelas que vivemos, há uma espécie de genocídio em curso que deve cessar.

Aos irmãos e irmãs do movimento indígena latino-americano, deixem-me expressar a minha mais profunda estima e felicitá-los por procurarem a conjugação dos seus povos e culturas segundo uma forma de convivência, a que eu chamo poliédrica, onde as partes conservam a sua identidade construindo, juntas, uma pluralidade que não atenta contra a unidade, mas fortalece-a. A sua procura desta interculturalidade que conjuga a reafirmação dos direitos dos povos nativos com o respeito à integridade territorial dos Estados enriquece-nos e fortalece-nos a todos.

3.3  A terceira tarefa, e talvez a mais importante que devemos assumir hoje, é defender a Mãe Terra.
A casa comum de todos nós está a ser saqueada, devastada, vexada impunemente. A covardia em defendê-la é um pecado grave. Vemos, com crescente decepção, sucederem-se uma após outra cimeiras internacionais sem qualquer resultado importante. Existe um claro, definitivo e inadiável imperativo ético de atuar que não está a ser cumprido. Não se pode permitir que certos interesses – que são globais, mas não universais – se imponham, submetendo Estados e organismos internacionais, e continuem a destruir a criação. Os povos e os seus movimentos são chamados a clamar, mobilizar-se, exigir – pacífica mas tenazmente – a adoção urgente de medidas apropriadas. Peço-vos, em nome de Deus, que defendais a Mãe Terra. Sobre este assunto, expressei-me devidamente na carta encíclica Laudato si’.

4. Para concluir, quero dizer-lhes novamente: O futuro da humanidade não está unicamente nas mãos dos grandes dirigentes, das grandes potências e das elites. Está fundamentalmente nas mãos dos povos; na sua capacidade de se organizarem e também nas suas mãos que regem, com humildade e convicção, este processo de mudança. Estou convosco. Digamos juntos do fundo do coração: nenhuma família sem teto, nenhum camponês sem-terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhum povo sem soberania, nenhuma pessoa sem dignidade, nenhuma criança sem infância, nenhum jovem sem possibilidades, nenhum idoso sem uma veneranda velhice. Continuai com a vossa luta e, por favor, cuidai bem da Mãe Terra. Rezo por vós, rezo convosco e quero pedir a nosso Pai Deus que vos acompanhe e abençoe, que vos cumule do seu amor e defenda no caminho concedendo-vos, em abundância, aquela força que nos mantém de pé: esta força é a esperança, a esperança que não decepciona. Obrigado! E peço-vos, por favor, que rezeis por mim.

Noticiário da Rádio Vaticano 10 de julho de 2015


Os três sinais do Papa no Equador (1)

Mais com gestos (gosta mais deles, porque chegam em profundidade ao povo) do que com palavras. Por isso, frente a uma Igreja instalada, principesca e casada com a direita política mais conservadora, o Papa apresentou-se com um báculo de madeira, um Fiat Idea simples e uma casula indígena.
Frente aos báculos de ouro e prata, símbolos do poder dos bispos do país, Francisco mostrou um báculo de madeira, feira e presenteada por um refugiado somali na Itália. Em sua viagem à Terra Santa, o báculo quebrou e o Papa pediu para que lhe fizessem um exatamente igual com madeira de oliveira do Getsêmani. O báculo do serviço aos pobres. Um claro recado aos prelados equatorianos, chamados a cheirar a ovelha e a servir ao seu povo pobre e descartado.
Frente às grandes limusines da maioria dos bispos do Equador, o Papa se apresentou e passeou com um pequeno Fiat Idea. Um carro simples, que até um pobre pode comprar. Um carro para servir, não para mostrar. Outro claro recado para uma hierarquia que chamava (e segue chamando ‘sotto voce’) de “comunistas” os bispos e padres que defendem os pobres e optam pela Teologia da Libertação. Proscritos, como o agora beato Romero, ou como dom López Marañón, o bispo de Sucumbíos, obrigado a renunciar, há alguns anos, por defender uma Igreja encarnada e servidora.
Diante de uma Igreja hierárquica que perdeu o “oremus” da conexão com o povo indígena do Equador, o Papa revestiu-se, na missa celebrada no Parque do Bicentenário, com uma casula com claros sinais indígenas. Mão estendida aos povos originários, tantas vezes descartados. Sinal papal que, com seu dedo, assinala o caminho que a hierarquia equatoriana tem que voltar a trilhar já. Para reabilitar a memória de dom Leonidas Proaño ou de dom Luna Tobar, os bispos dos índios.
E, se por acaso ainda restasse alguma dúvida, em sua homilia de Quito, o Papa proclamou que “a fé sempre é revolucionária”. Falar de revolução no Equador é aludir implícita e explicitamente a Correa, o líder social cristão que está procurando implementar um modelo social inclusivo em um país em que 90% das terras estão nas mãos de 2% dos mais ricos dos ricos.
Francisco deu assim um respaldo a Correa, mas sem alinhar-se nem abençoar todas as suas políticas. Contra o que costumam pensar os radicais de direita, Francisco é um Papa centrado, centrista e moderado. Não se filia a nenhuma causa comunista. Trata apenas de proclamar, com suas encíclicas e seus gestos, que a pessoa humana tem que ocupar o centro de todo o sistema político. E, por isso, acentuou uma vez mais que os bens são destinados a todos e que essa é a hipoteca social da propriedade privada.
Francisco aproveitou, além disso, para lançar, precisamente aqui na metade do mundo, um SOS a favor da “mãe Terra”, que grita com dores de parto. Aqui, onde justamente uma das grandes companhias de petróleo, a Chevron, provocou enormes estragos ambientais, pelos quais foi denunciada e condenada em diversos tribunais internacionais. Nem a Chevron nem os latifundiários do país gostam do Papa Francisco. E também não gostam da sua já famosa encíclica verde. Porque ridiculariza, com a máxima autoridade moral do líder mundial mais influente, as constantes feridas que infringem à “casa comum”.
Francisco passou pelo Equador e deixou claro seu Evangelho: uma Igreja que não serve não serve para nada e os pobres são os preferidos de Cristo e, portanto, devem ser também os preferidos dos hierarcas e dos políticos equatorianos. Palavras do irmão Francisco.
Responderá a enferrujada hierarquia equatoriana ao conhecido ‘te louvamos, Senhor’?
(1) - A reportagem é de José Manuel Vidal e publicada por Religión Digital, 09-07-2015. A tradução é de André Langer.
in: Instituto Humanitas Unisinos, Sexta, 10 de julho de 2015

terça-feira, 7 de julho de 2015

A invisibilização de Francisco - Rodolfo Luis Brardinelli

A análise é de Rodolfo Luis Brardinelli e publicada por Página/12, 06-07-2015. A tradução é de André Langer.
Rodolfo Luis Brardinelli é sociólogo da Universidade Nacional de Quilmes e membro do grupo Cristãos para o Terceiro Milênio.
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Laudato si’, a encíclica social apresentada pelo Papa Francisco, foi recebida por um sugestivo coro de elogios. “Destoaram” apenas alguns representantes da direita norte-americana, como Jeb Bush, Rick Santorum e outros, católicos e republicanos, que disseram que “o Papa está vendendo uma linha de socialismo de estilo latino-americano” e que deveria ocupar-se mais em “tornar melhores as pessoas e menos com questões que têm a ver com aspectos políticos”.
Tanta unanimidade no elogio de um documento que critica fortemente o sistema capitalista e o consumismo é, no mínimo, chamativa. Mais lógico seria que uma encíclica que afirma que a solução da crise é política porque “o mercado por si mesmo não garante o desenvolvimento humano integral e a inclusão social” colha não apenas a crítica de um punhado de ultraconservadores norte-americanos, mas também a de uma longa fila de políticos, empresários, economistas, jornalistas e religiosos que crescem com o sistema e hoje se fazem de distraídos ou resmungam elogios de compromisso.
Gerentes, representantes e defensores do sistema, assinalado pela encíclica como causador do desastre humanitário e ecológico aos quais seguramente não lhes faltam vontade de mandar “o Papa ocupar-se com outras coisas”, como fez Jeb Bush, mas, mais astutos que ele, calam e esperam que a inércia conservadora que arrasta a Igreja acabe por invisibilizar a Laudato si’ como já fez com outro documento de Francisco com fortes definições sociais, a Evangelii Gaudium.
Para comprovar a validade desta estratégia basta reparar nos elogios parciais com que receberam a encíclica os empresários e os formadores de opinião nativos que desde sempre defenderam as virtudes da desregulamentação liberal. Basta ver os sonoros silêncios dos políticos e dos meios de comunicação que, nestes tempos de eleições, apregoam a necessidade de um retorno – isso sim, disfarçado de “mudança” – às políticas de mercado, de ajuste e de endividamento dos anos 1990.
Aconselhados pela “prudência política” calam e esperam. Confiam em que a Laudato si’seja dentro de pouco tempo, por ação ou omissão da Igreja, tão invisível quanto é hoje a Evangelii Gaudium, um documento de Francisco que também fez ranger os dentes, mas da qual hoje, apenas um ano e meio depois da sua publicação, poucos ainda se lembram.
A Evangelii Gaudium, é preciso recordar, é o documento no qual Francisco diz que o desequilíbrio entre ricos e pobres “provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira. Por isso, negam o direito de controle dos Estados, encarregados de velar pela tutela do bem comum”. O que fizeram a Igreja, os bispos e padres para que esta ideia penetre na consciência e se reflita na ação e nas escolhas dos cristãos?
Uma primeira impressão é que fizeram pouco ou nada. Demonstração desta afirmação é talvez o argumento com o qual o diretor de uma importante editora católica explica sua decisão de não publicar um livro sobre a Evangelii Gaudium: “Não vai vender, porque a Evangelii Gaudium não entrou nos agentes de pastoral”, e, mesmo que o editor não o diga, fica claro que essa falta de penetração é consequência de uma decisão expressa, ou o desinteresse de quem define a linha pastoral da instituição.
Não obstante esta confissão, seria interessante comprovar a hipótese mediante um trabalho de sociologia religiosa que precise quantos cursos ou seminários sobre a Evangelii Gaudium a Igreja organizou, quantos documentos ou pregações destinaram a ela os bispos, em quantas instruções pastorais ordenaram ou incentivaram sua divulgação, em quantas matérias das universidades e dos colégios católicos ela é estudada, quantas paróquias organizaram alguma atividade inspirada nela, quantas organizações oficiais de leigos têm-na como referência para sua ação, de que forma as comissões eclesiais de justiça e paz vêm trabalhando com ela, o que fizeram com ela os empresários católicos, etc.
É de desejar que a Igreja, seus bispos e suas instituições, trabalhem de tal maneira que a Laudato si’ não siga o mesmo caminho obscuro e, por outro lado, converta-se no que deve ser: um novo paradigma de evangelização. Mas isso está para se ver. Enquanto isso, a invisibilização da Evangelii Gaudium é muito recente e muito evidente para não temer que se repita a história e se justifique assim a estratégia dos poderosos que mentem adesão ou calam... e esperam.

in: Instituto Humanitas Unisinos,  07 de julho de 2015