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"Eles tentaram nos enterrar, mas não sabiam que éramos sementes! "

Proverbio mexicano
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sexta-feira, 10 de julho de 2015

Os três sinais do Papa no Equador (1)

Mais com gestos (gosta mais deles, porque chegam em profundidade ao povo) do que com palavras. Por isso, frente a uma Igreja instalada, principesca e casada com a direita política mais conservadora, o Papa apresentou-se com um báculo de madeira, um Fiat Idea simples e uma casula indígena.
Frente aos báculos de ouro e prata, símbolos do poder dos bispos do país, Francisco mostrou um báculo de madeira, feira e presenteada por um refugiado somali na Itália. Em sua viagem à Terra Santa, o báculo quebrou e o Papa pediu para que lhe fizessem um exatamente igual com madeira de oliveira do Getsêmani. O báculo do serviço aos pobres. Um claro recado aos prelados equatorianos, chamados a cheirar a ovelha e a servir ao seu povo pobre e descartado.
Frente às grandes limusines da maioria dos bispos do Equador, o Papa se apresentou e passeou com um pequeno Fiat Idea. Um carro simples, que até um pobre pode comprar. Um carro para servir, não para mostrar. Outro claro recado para uma hierarquia que chamava (e segue chamando ‘sotto voce’) de “comunistas” os bispos e padres que defendem os pobres e optam pela Teologia da Libertação. Proscritos, como o agora beato Romero, ou como dom López Marañón, o bispo de Sucumbíos, obrigado a renunciar, há alguns anos, por defender uma Igreja encarnada e servidora.
Diante de uma Igreja hierárquica que perdeu o “oremus” da conexão com o povo indígena do Equador, o Papa revestiu-se, na missa celebrada no Parque do Bicentenário, com uma casula com claros sinais indígenas. Mão estendida aos povos originários, tantas vezes descartados. Sinal papal que, com seu dedo, assinala o caminho que a hierarquia equatoriana tem que voltar a trilhar já. Para reabilitar a memória de dom Leonidas Proaño ou de dom Luna Tobar, os bispos dos índios.
E, se por acaso ainda restasse alguma dúvida, em sua homilia de Quito, o Papa proclamou que “a fé sempre é revolucionária”. Falar de revolução no Equador é aludir implícita e explicitamente a Correa, o líder social cristão que está procurando implementar um modelo social inclusivo em um país em que 90% das terras estão nas mãos de 2% dos mais ricos dos ricos.
Francisco deu assim um respaldo a Correa, mas sem alinhar-se nem abençoar todas as suas políticas. Contra o que costumam pensar os radicais de direita, Francisco é um Papa centrado, centrista e moderado. Não se filia a nenhuma causa comunista. Trata apenas de proclamar, com suas encíclicas e seus gestos, que a pessoa humana tem que ocupar o centro de todo o sistema político. E, por isso, acentuou uma vez mais que os bens são destinados a todos e que essa é a hipoteca social da propriedade privada.
Francisco aproveitou, além disso, para lançar, precisamente aqui na metade do mundo, um SOS a favor da “mãe Terra”, que grita com dores de parto. Aqui, onde justamente uma das grandes companhias de petróleo, a Chevron, provocou enormes estragos ambientais, pelos quais foi denunciada e condenada em diversos tribunais internacionais. Nem a Chevron nem os latifundiários do país gostam do Papa Francisco. E também não gostam da sua já famosa encíclica verde. Porque ridiculariza, com a máxima autoridade moral do líder mundial mais influente, as constantes feridas que infringem à “casa comum”.
Francisco passou pelo Equador e deixou claro seu Evangelho: uma Igreja que não serve não serve para nada e os pobres são os preferidos de Cristo e, portanto, devem ser também os preferidos dos hierarcas e dos políticos equatorianos. Palavras do irmão Francisco.
Responderá a enferrujada hierarquia equatoriana ao conhecido ‘te louvamos, Senhor’?
(1) - A reportagem é de José Manuel Vidal e publicada por Religión Digital, 09-07-2015. A tradução é de André Langer.
in: Instituto Humanitas Unisinos, Sexta, 10 de julho de 2015

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Francisco sacode esta Igreja, que está enferrujada - Tus hermanos de la Iglesia de a pie.

Assim como Francisco de Assis pede para fazer, recebemos-lhe com alegria gritando... Que o Senhor te dê a paz!!! Volte à terra latino-americana, irmão, mas você não é mais o Bispo Bergoglio... o jesuíta argentino, boa gente, pobre, intenso em tudo, muito conservador em coisas de moral, grande cozinheiro...
Temos visto (às vezes chorando de alegria), nestes anos, como tem se deixado, mansamente, tocar pelo Espírito, sim, assombrados, emocionados, ouvimos você clamar e acalmar, desafiar e estender pontes, ir a Lampedusa... no mesmo plano de Jesus durante toda a sua vida, irmão fiel dos Anawim... os pobres de Deus.
Tem chamado os poderosos deste mundo à conversão e os humildes à criatividade (sabe? aqui no Equador, desde sempre, os ricos se apropriaram das melhores delícias do mar e as tornaram exclusivas... proibidas. Os simples pescadores e mais simples trabalhadores, trabalhadoras, transformaram o peixe mais desprezado em um guisado tão delicioso que, hoje, é símbolo nacional, sendo disputado entre as “grandes empresas” da “alta cozinha” e o exaltam sem parar... mas se esquecem de que nasceu nas caçarolas de barro e nas latas rachadas dos mais pobres e esquecidos).
A revolução de Deus, que é coisa de operários e lavradores, é o que anda pregando, irmão, com alegria, ternura e mão firme. Lamentamos que este tempo entre nós seja tão curtinho, mas, bom, nós entendemos, que lindo seria se pudesse andar e olhar o que as missionárias e os missionários tecem em seu silêncio, a cada dia, silêncio relativo, pois Jesus grita cada vez mais alto, grita-nos.
Vão lhe mostrar muros e muros, templos e templos, museus e palácios... multidões, enormes multidões. Sabe? Há aqueles que as multidões não assustam, porque são irmãos e irmãs da dor, do cansaço, da fome e da esperança de cada um como um mundo único, sem horário, nem grade... nem “direito canônico”, o tempo todo. Esperamos queJesus, que oxalá tenha conseguido “um espaço” para poder te ver, consiga fazer um sinal para você no meio da imensa massa.
Sabemos que você o sentirá e “nos dará”, dizendo na fala coloquial do povo de Quito, seu recado de paz e rebeldia. Ouve, sacode esta Igreja que está enferrujada, falamos isto a sério, fechada em seus templos magníficos e cômodos conventos, conservando com paixão “os espaços sagrados”, as propriedades, em uma pregação quase “esotérica” em razão da distância da vida diária das pessoas. Falam de “família” e não fazem ideia de quanto custa preparar um prato de sopa, nem da renda do mês. Dão “altas lições de amor familiar”, mas são um “clube de eleitos”, segregam, assim como os fariseus, os “impuros e desencaminhados” e proclamam um Deus que pouco tem a ver com aquele que anda sem nada e tudo ao mesmo tempo. Um velho missionário dizia com ironia... “antes se clamava: África ou morte... hoje é ao contrário: Toyota ou morte...”.
Que gente está sendo formada em uma Igreja fechada e monetariamente poderosa? Vão lhe dizer que as vocações aumentam, os seminários estão cheios e que tudo vai muito bem, não é certo. O ceticismo atinge profundamente os jovens, a droga é uma praga que parece incontrolável, o individualismo e o “êxito” são os padrões a seguir. E diante disto? Como pode uma Igreja que se dedica a cuidar de museus, exigir que os outros se convertam? Não é que o conforto seja ruim, mas quando é modelo e fim... é mortal. Uma Igreja clerical até a ira, que considera o Povo de Deus como um negócio. Como pode ser fermento do Reino? Que pobreza – não evangélica – a maioria dos bispos exibe hoje: gerentes mais do que pastores, inquisidores mais do que irmãos, banqueiros mais do que missionários. Dói, o “mérito” principal para fazer parte desse grupo “exclusivo” parece ser participar do círculo que rodeia esse obscuro embaixador do Estado vaticano.
Sim, sim, estamos ressaltando fortemente o negativo, há também muitíssimas, inumeráveis coisas boas. No entanto, o agradável sempre encontra um elogio e do outro ninguém quer falar. Sacode a sua Igreja... Bispo de Roma. E, pelo Amor de Deus, leva esse Núncio que é apenas fonte de mil dores.
Você chega a um Equador em crise, um país que há oito anos esteve doente terminal, hoje ainda caminha muito delicado, ainda não pode se valer por si só, as pragas ameaçam o seu corpo estragado pelas misérias acumuladas por séculos. E é preciso dizer aos médicos que o atendam, que compreendam que é preciso levá-lo ao sol, para que faça exercícios, recupere sua força popular, que estão sendo drogadas com receitas tecnocráticas. Que se valha dos braços potentes da organização popular e das pernas das novas gerações, que não são apenas os “porta-bandeiras”, “os exitosos”, “os vencedores”, parece que esses médicos que fazem o tratamento são uns “iluminados” que tudo solucionam a partir dos escritórios e dos manuais.
Aqueles que “curam por correspondência” e possuem um computador no lugar do coração. Há, custa dizer, uma dupla moral em alguns dos mais altos funcionários equatorianos, pois a corrupção está presente e é muito forte. Centenas de milhares de jovens estão sendo segregados sem contar com uma oportunidade séria de se preparar, não apenas nas universidades, mas nos escritórios técnicos que lhes assegurem futuro. Há dívidas impostergáveis na partilha da terra e na defesa da natureza. É um governo sem capacidade de organização popular permanente. Porém, em essência é o melhor que o Equador já teve nos últimos 50 anos.
Por outro lado, estão os responsáveis de sua prostração secular, os que lhe adoeceram até quase matá-lo. Querem voltar ao poder para comê-lo vivo, destino de antropófagos: banqueiros, contrabandistas e latifundiários que ainda exalam um cheiro do “tempo da colônia”, proprietários das universidades mais caras e elitistas, prefeitos fascistas, falsos revolucionários de “esquerda”, caciques indígenas e experimentados “líderes sindicais”. Toda a peste que levou o país até a beira da dissolução em 1999, hoje, retorna sem vergonha, mas eloquentemente levantando bandeiras obscuras.
Estão semeando violência e cizânia entre as pessoas. São cínicos, estão se aproveitando das fissuras deixadas por um governo social-democrata radicalizado, para confundir especialmente os setores médios, que neste período cresceram sustentadamente. Os mesmos que quiseram privatizar até o ar, retornam para nos dar lições. E há alguns, muitos, bispos e padres que almoçam elegantemente em suas mesas. Assim que você tiver ido à Bolívia, irão descarregar uma feroz tormenta sobre esta terra, se for possível, convida-os à ordem e que deixem de ambicionar, em sua soberba, querendo se apropriar da vida que uma vez já destroçaram.
Tome cuidado com a “imprensa livre e independente”, que se colou até no avião no qual você veio, são gente com alma de talão de cheques.
De onde estamos, nós te pedimos que peça ao Amor que nos perdoe pelo pouco que fazemos, pois apesar de sermos também abençoados pela sua brisa, somos réus, irmão, de nossa própria comodidade.
Que Maria peregrina, sempre fiel, sempre revolucionária e “populista”, como dizem os banqueiros, essa que também está anônima nas multidões, te abençoe.
Dá-nos um abraço... Papa... delegado do Amor para proclamar sua alegria.
A mensagem é publicada por Religión Digital, 07-07-2015. A tradução é do Cepat.
in: Instituto Humanitas UnisinosQuarta, 08 de julho de 2015

terça-feira, 7 de julho de 2015

A invisibilização de Francisco - Rodolfo Luis Brardinelli

A análise é de Rodolfo Luis Brardinelli e publicada por Página/12, 06-07-2015. A tradução é de André Langer.
Rodolfo Luis Brardinelli é sociólogo da Universidade Nacional de Quilmes e membro do grupo Cristãos para o Terceiro Milênio.
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Laudato si’, a encíclica social apresentada pelo Papa Francisco, foi recebida por um sugestivo coro de elogios. “Destoaram” apenas alguns representantes da direita norte-americana, como Jeb Bush, Rick Santorum e outros, católicos e republicanos, que disseram que “o Papa está vendendo uma linha de socialismo de estilo latino-americano” e que deveria ocupar-se mais em “tornar melhores as pessoas e menos com questões que têm a ver com aspectos políticos”.
Tanta unanimidade no elogio de um documento que critica fortemente o sistema capitalista e o consumismo é, no mínimo, chamativa. Mais lógico seria que uma encíclica que afirma que a solução da crise é política porque “o mercado por si mesmo não garante o desenvolvimento humano integral e a inclusão social” colha não apenas a crítica de um punhado de ultraconservadores norte-americanos, mas também a de uma longa fila de políticos, empresários, economistas, jornalistas e religiosos que crescem com o sistema e hoje se fazem de distraídos ou resmungam elogios de compromisso.
Gerentes, representantes e defensores do sistema, assinalado pela encíclica como causador do desastre humanitário e ecológico aos quais seguramente não lhes faltam vontade de mandar “o Papa ocupar-se com outras coisas”, como fez Jeb Bush, mas, mais astutos que ele, calam e esperam que a inércia conservadora que arrasta a Igreja acabe por invisibilizar a Laudato si’ como já fez com outro documento de Francisco com fortes definições sociais, a Evangelii Gaudium.
Para comprovar a validade desta estratégia basta reparar nos elogios parciais com que receberam a encíclica os empresários e os formadores de opinião nativos que desde sempre defenderam as virtudes da desregulamentação liberal. Basta ver os sonoros silêncios dos políticos e dos meios de comunicação que, nestes tempos de eleições, apregoam a necessidade de um retorno – isso sim, disfarçado de “mudança” – às políticas de mercado, de ajuste e de endividamento dos anos 1990.
Aconselhados pela “prudência política” calam e esperam. Confiam em que a Laudato si’seja dentro de pouco tempo, por ação ou omissão da Igreja, tão invisível quanto é hoje a Evangelii Gaudium, um documento de Francisco que também fez ranger os dentes, mas da qual hoje, apenas um ano e meio depois da sua publicação, poucos ainda se lembram.
A Evangelii Gaudium, é preciso recordar, é o documento no qual Francisco diz que o desequilíbrio entre ricos e pobres “provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira. Por isso, negam o direito de controle dos Estados, encarregados de velar pela tutela do bem comum”. O que fizeram a Igreja, os bispos e padres para que esta ideia penetre na consciência e se reflita na ação e nas escolhas dos cristãos?
Uma primeira impressão é que fizeram pouco ou nada. Demonstração desta afirmação é talvez o argumento com o qual o diretor de uma importante editora católica explica sua decisão de não publicar um livro sobre a Evangelii Gaudium: “Não vai vender, porque a Evangelii Gaudium não entrou nos agentes de pastoral”, e, mesmo que o editor não o diga, fica claro que essa falta de penetração é consequência de uma decisão expressa, ou o desinteresse de quem define a linha pastoral da instituição.
Não obstante esta confissão, seria interessante comprovar a hipótese mediante um trabalho de sociologia religiosa que precise quantos cursos ou seminários sobre a Evangelii Gaudium a Igreja organizou, quantos documentos ou pregações destinaram a ela os bispos, em quantas instruções pastorais ordenaram ou incentivaram sua divulgação, em quantas matérias das universidades e dos colégios católicos ela é estudada, quantas paróquias organizaram alguma atividade inspirada nela, quantas organizações oficiais de leigos têm-na como referência para sua ação, de que forma as comissões eclesiais de justiça e paz vêm trabalhando com ela, o que fizeram com ela os empresários católicos, etc.
É de desejar que a Igreja, seus bispos e suas instituições, trabalhem de tal maneira que a Laudato si’ não siga o mesmo caminho obscuro e, por outro lado, converta-se no que deve ser: um novo paradigma de evangelização. Mas isso está para se ver. Enquanto isso, a invisibilização da Evangelii Gaudium é muito recente e muito evidente para não temer que se repita a história e se justifique assim a estratégia dos poderosos que mentem adesão ou calam... e esperam.

in: Instituto Humanitas Unisinos,  07 de julho de 2015

segunda-feira, 29 de junho de 2015

O grito da terra, dos pobres e dos migrantes Pe. Alfredo J. Gonçalves

"As mudanças climáticas são um problema global com graves implicações ambientais, sociais, econômicas, distributivas e políticas, constituindo atualmente um dos principais desafios para a humanidade. Provavelmente os impactos mais sérios recairão, nas próximas décadas, sobre os países em vias de desenvolvimento. Muitos pobres vivem em lugares particularmente afetados por fenômenos relacionados com o aquecimento, e os seus meios de subsistência dependem fortemente das reservas naturais e dos chamados serviços do ecossistema como a agricultura, a pesca e os recursos florestais. Não possuem outras disponibilidades econômicas nem outros recursos que lhes permitam adaptar-se aos impactos climáticos ou enfrentar situações catastróficas, e gozam de reduzido acesso a serviços sociais e de protecção. Por exemplo, as mudanças climáticas dão origem a migrações de animais e vegetais que nem sempre conseguem adaptar-se; e isto, por sua vez, afeta os recursos produtivos dos mais pobres, que são forçados também a emigrar com grande incerteza quanto ao futuro da sua vida e dos seus filhos. É trágico o aumento de emigrantes em fuga da miséria agravada pela degradação ambiental, que, não sendo reconhecidos como refugiados nas convenções internacionais, carregam o peso da sua vida abandonada sem qualquer tutela normativa. Infelizmente, verifica-se uma indiferença geral perante estas tragédias, que estão acontecendo agora mesmo em diferentes partes do mundo. A falta de reações diante destes dramas dos nossos irmãos e irmãs é um sinal da perda do sentido de responsabilidade pelos nossos semelhantes, sobre o qual se funda toda a sociedade civil” (Laudato Si’, nº 25).


Vale a pena citar todo esse número da nova Carta Encíclica do Papa Francisco – Laudato Si’ – centrado sobre as mudanças climáticas e as implicações para os, digamos, "refugiados climáticos”. Estes, apesar de seu "trágico aumento”, não são reconhecidos como tais. Prevalece, como se pode ver, a "indiferença geral”. Forçados a fugir de sua terra natal e ignorados quanto ao seu estado de refugiados, terminam ao mesmo tempo praticamente eliminados da própria face do globo terrestre, "nossa casa comum”, título do documento pontifício. Indesejados e rechaçados, constituem, aos milhares e milhões, os errantes e excluídos de uma "economia que mata e descarta”, insiste o Papa.

Uma das ideias centrais do texto – espécie de fio condutor que percorre suas páginas – é a estreita relação entre "a dívida ecológica”, de um lado, e a "dívida social”, de outro. Na verdade, duas faces da mesma moeda, uma vez que os primeiros a sofrerem pela devastação dos ecossistemas são aqueles que não dispõem de meios para defender-se de inundações, secas e outras catástrofes do gênero. "As agressões ambientais atingem o povo mais pobre”, diz o Pontífice, citando a Conferência Episcopal Boliviana (LS, nº 48). Em outras palavras, a degração do meio ambiente e a degradação do ser humano ocorrem simultaneamente, por isso mesmo não podem ser consideradas desvinculadas uma da outra. Qualquer conjunto de políticas públicas destinadas a sanar as feridas e "sintomas de doença” (LS, nº 2) do planeta terra, deve levar em conta as "feridas sociais” (LS, nº 6) das populações mais afetadas, debilitadas e indefesas.

questão ecológica vem ganhando "maior consciência” e crescente sensibilidade de movimentos, entidades e organizações não governamentais (LS, nº 19). Insere-se intrisecamente na questão social, por sua vez fio condutor de toda a Doutrina Social da Igreja. Disso resulta uma "intima relação entre os pobres e a fragilidade do planeta” (LS, nº 16). Hoje – diz literalmente o Papa – "não podemos deixar de reconhecer que uma verdadeira abordagem ecológica sempre se torna uma abordagem social, que deve integrar a justiça nos debates sobre o meio ambiente, para ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres” (LS, nº 49).

Os migrantes – refugiados climáticos – costumam desmascarar essa estreita ligação entre os danos causados ao meio ambiente e os danos sofridos pelos extratos mais desfavorecidos da população mundial. O grito da terra, dos pobres e dos migrantes é um só e único. Muitos, impossibilitados de autodefesa, são pressionados à fuga em massa. Isto quer dizer que as soluções apontadas pelo documento, insistindo sempre sobre o protagonismo dos envolvidos, não podem deixar de lado os dramas dos migrantes, refugiados, prófugos, fugitivos... número que hoje alcança dezenas de milhões.

Pe. Alfredo J. Gonçalves

Assessor das Pastorais Sociais

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Morreu Silvano Fausti, o biblista das periferias


Quando um incêndio devastou a casa de fazenda Villapizzone, na periferia de Milão, grande parte dos seus livros queimaram, 80 metros de prateleiras, milhares de textos em hebraico e volumes raros, comentários do século XVII, livros de exegese e filosofia em várias línguas. Aos amigos consternados, ele respondia com um sorriso: "Ainda bem que eu os tinha lido".

A reportagem é de Gian Guido Vecchi, publicada no jornal Corriere della Sera, 25-06-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
O padre jesuíta Silvano Fausti morreu nessa quarta-feira de manhã, 24, depois uma longa doença que não pôde apagar a sua serenidade. Ele tinha 75 anos e, desde os 37, vivia naquela casa de fazenda às margens da cidade, além dos gasômetros da Bovisa e da linha ferroviária.
Quatro jesuítas e uma comunidade de famílias para compartilhar recursos, espaços, vida, segundo o modelo dos Atos dos Apóstolos. Como repetiria Francisco, o coirmão que se tornou papa, ele considerava a periferia como "um lugar privilegiado" para entender a polis: "Vivendo com pessoas que estão de propósito ou por necessidade às margens, você entende o que a sociedade descarta ou joga fora. O princípio da economia é produzir cada vez mais. Mas do que me interessa produzir mais? Interessa-me viver. Hoje, a cidade é o lugar da perda de humanidade, e os homens acabam na descarga: as crianças, os velhos, aqueles que estão em necessidade".
Ele tinha estudos em filosofia e teologia, doutorado em fenomenologia da linguagem em Münster. Quem não o conhecia, não imaginaria que esse homem de calça jeans, sandálias e camisa xadrez, dedicado a varrer as folhas secas de manhã, era um dos autores mais lidos e influentes do pensamento cristão contemporâneo.
O cardeal Carlo Maria Martini o tinha escolhido como padre espiritual e confessor. Ao lado do caminho de Villapizzone e na igreja dos jesuítas de San Fedele – por muito tempo junto com o padre Filippo Clerici: ele morreu em 2008, e foi a maior dor dos seus últimos anos –, ele continuou por décadas, a cada semana, a sua "catequese narrativa", a leitura e o comentário dos quatro Evangelhos e os Atos. Os livros que as reúnem estão entre os seus textos mais amados.
"As pessoas não ouvem aquilo que você diz, ouvem o que você sente. Por isso, durante uma lectio, nunca sou eu que leio o Evangelho. A eficácia da palavra oral está nesse sentir interior. Caso contrário, você pode fazer considerações vazias ou doutas, ou repetir o que outros pensaram, e tudo será fingido".
No livro autobiográfico Sogni allergie benedizioni [Sonhos, alergias, bênçãos], ele havia escrito: "Sonho com um papa que convoque um Concílio. Não um Vaticano III, mas umJerusalém II. Para 'desreligionizar' a Igreja em sentido barthiano, ou ao menos desclericalizá-la em sentido cristão, ou ao menos desocidentalizá-la em sentido católico, ou ao menos desromanizá-la em sentido evangélico, ou ao menos descurializá-la em sentido apostólico". Ele foi publicado quando Francisco foi eleito.
Em 2014, ele escrevera um texto para a noite que a revista Popoli, em San Fedele, dedicou ao primeiro ano do pontificado: "'Cheirar a ovelha' é o lema do pastor de Roma. O seu cheiro é o mesmo das ovelhas. Ele está com elas dia e noite". Uma reflexão vertiginosa: "É a cruz de Jesus – distância que ele pôs entre si e as nossas ideias sobre Deus – que o revela como Deus. Com todo o respeito de todos, é preciso dizer não 'Jesus é Deus', mas 'Deus é Jesus'. O sujeito, de fato, é o incógnito do qual se conhece o predicado. Mas nenhuma teólogo jamais viu a Deus: é o 'sujeito' do qual tudo fala, mas só por analogia. O seu 'predicado' próprio e total é Jesus".
Quando morreu um coirmão seu, o padre Silvano contava, sorrindo, o olhar de alegria no momento da despedida: "Por toda a vida, busquei o rosto de Jesus. Em breve poderei revê-lo".
Sexta, 26 de junho de 2015 in Instituto Humanitas Unisinos