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"Eles tentaram nos enterrar, mas não sabiam que éramos sementes! "

Proverbio mexicano

terça-feira, 28 de julho de 2015

A morte de Rafael pelo Bope e o genocídio de nossa juventude. Por Jean Wyllys

Mais uma vítima do BopeMais uma vítima do Bope
Publicado por Jean Wyllys no facebook:
Estou muito comovido por esta notícia e peço a vocês que dediquem alguns minutos para ler o que vou contar. Hoje mais cedo, através de amigos e assessores, soube da morte de Rafael Camilo Neres, um jovem trabalhador de 23 anos que foi assassinado pelo Batalhão de Operações Especiais (BOPE) da Polícia Militar do Rio de Janeiro no domingo à noite, enquanto entregava uma pizza no Morro da Coroa, no Rio Cumprido. Sim, ele era entregador de pizza, mas com esse emprego não ganhava o suficiente para viver, então trabalhava também fazendo entrega de livros para uma editora independente.
“Estou em estado de choque. Rafael, o nosso entregador, foi morto ontem pelo Bope”, contou o dono da editora, Sergio Cohn, a um dos meus assessores. “O Bope já está colocando ele como criminoso, apresentaram armas como se fossem dele. Vão tentar desqualificar. Ele era um garoto que criou uma empresa de entregas e, embora muito jovem, era muito sério e maduro, tanto que conversávamos em dividir um espaço para estocagem e logística conjunto. Lembro de Rafael ter feito outra entrega extraordinária, dois meses atrás, em um sábado na Casa Daros, para o lançamento da revista Mesa. Quando chegou, comentei que tinha ficado preocupado que ele não viesse, por conta de ser feriado e ter sido solicitado muito em cima hora. Ele respondeu imediatamente: ‘Não falto em compromissos’, mostrando sua seriedade e rigor”, diz Cohn. Eu já coloquei meu mandato a disposição dele e vou tentar contato com a família de Rafael.
A história se repete. A polícia chega na favela atirando, em alguma suposta operação “contra o tráfico”, mais uma vez, nessa absurda guerra contra as drogas que custa milhares de vidas. E sempre alguém morre. Às vezes, alguém envolvido no tráfico, geralmente um rapaz que chegou na “boca” procurando um meio de subsistência, numa sociedade que oferece a ele poucas alternativas. Outras vezes é um policial, que por um salário miserável arrisca a vida. Outras vezes, como aconteceu com Rafael, é alguém que simplesmente estava ali por alguma outra razão, como a entrega de uma pizza. Não vou falar em “vítima inocente”, porque inocentes são todos. Qualquer pessoa executada ilegalmente pelas forças de segurança é inocente. Só é culpado quem for condenado pela justiça depois ser julgado com direito de defesa e de acordo com a lei, e a execução não está prevista como pena no Código Penal. Não há, portanto, execuções justificáveis. Nenhuma.
Contudo, quando elas acontecem — e acontecem o tempo todo — a primeira reação da polícia é ocultar o crime dizendo que a vítima “era traficante”, palavra que é usada com uma grande flexibilidade semântica, incluindo desde Pablo Escobar até um menino de 16 anos que fazia uma bico para “o dono” do morro. Provas são plantadas, armas aparecem, drogas que não estavam ali são achadas. Às vezes, pouquíssimas vezes, algum jornalista investiga, a família ou os amigos conseguem falar com um parlamentar como eu, alguma ONG intervém, uma parte da classe média se comove, faz barulho e consegue ser ouvida de uma forma que os que moram no morro nunca são. E a verdade acaba sendo contada. Contudo, infelizmente, na maioria das vezes não é assim. O caso é fechado com a alegação de que a vítima era “traficante”, “bandido”, “marginal” — palavras que não são usadas quando um jovem branco, morador da Barra, vende drogas sintéticas numa festa badalada — e a manchete do jornal elogia o trabalho dos policiais. É o cotidiano de quem mora naqueles territórios das nossas cidades onde o Estado só chega em forma de blitz, caveirão e tiro de metralhadora.
A família de Rafael está tendo dificuldades para retirar o corpo do IML. Testemunhas contaram que o jovem pediu ajuda após tomar o primeiro tiro e o policial do BOPE pediu para as pessoas se afastarem, para ele poder “acabar o serviço”, e o baleou novamente. Um tiro no peito e outro no rosto. Enquanto a Câmara dos Deputados debate a infame proposta de redução da maioridade penal, o que vigora na vida real das favelas e das periferias é a pena de morte, executada pelas polícias no vácuo da legalidade. A polícia acusa, julga, condena e executa. E a justificativa disso é a fracassada e absurda “guerra às drogas”.
Segundo o Instituto de Segurança Pública (ISP), só no Rio de Janeiro, em 2013, houve 4761 homicídios, 16,7% mais que em 2012. Desse total, 416 foram assassinatos cometidos pela polícia e registrados sob o eufemismo de “auto de resistência”. O panorama é assustador em todo o país. Entre 1980 e 2010, a taxa de mortalidade por armas de fogo no Brasil cresceu de 7,3 a 20,4 por cada 100 mil habitantes, mas esse número, já altíssimo, dobra quando falamos dos jovens: quando as vítimas têm entre 15 e 29 anos, a taxa é 44,2. E a principal causa disso é a guerra às drogas.
Precisamos acabar com esse genocídio da nossa juventude, que atinge principalmente a juventude negra, pobre e favelada. É uma realidade que os poderes públicos não fazem nada para reverter. E precisamos desmilitarizar as polícias e acabar com a lógica de exército de ocupação e combate contra os destituídos de cidadania que elas praticam, amparadas por governos e pelos discursos fascistas que proliferam na grande mídia. Se não mudarmos com urgência esse quadro, vamos continuar chorando mais e mais meninos como Rafael.
Precisamos dizer basta a essa lógica perversa. Não acabou, tem que acabar.

in: 
Postado em 28 jul 2015

terça-feira, 21 de julho de 2015

Amicus Praefectus, sed magis amica Veritas: a resposta do cardeal Sarah e a réplica de Andrea Grillo

publico aqui a replica do teólogo italiano Andrea Grillo à resposta do Cardeal Robert Sarah sobre uma entrevista que o cardeal deu em 09 de março de 2105 onde falou sobre guerra litúrgica, críticas ao papa, islamismo e África.
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No seu blog Come Se Non, 08-07-2015, o teólogo italiano Andrea Grillo escreve que, no dia 5 de julho, o cardeal Robert Sarah, prefeito da Pontifícia Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, divulgou uma resposta a dois artigos de Grillo, publicados em março e junho passados, nos quais o teólogo tinha criticado "pesadamente" dois textos do cardeal.
"Parece-me um sinal positivo – afirma Grillo, professor do Pontifício Ateneu S. Anselmo, de Roma, do Instituto Teológico Marchigiano, de Ancona, e do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Giustina, de Pádua –, ao menos pelo fato de que se abriu um canal de diálogo. No entanto, devo observar que o cardeal Sarah, na sua resposta, não entra minimamente na discussão 'de mérito', enquanto se limita a observações de caráter formal, sobretudo sobre o meu 'tom', além das suas intenções."
Assim, Grillo escreve ter decidido fazer duas coisas:
- levar ao conhecimento também dos seus leitores a resposta do cardeal Sarah;
- acompanhá-la com uma breve resposta, na qual o teólogo tenta "mostrar os limites da própria resposta e o bom direito com que eu levantei desde março as minhas críticas".
A tradução é de Moisés Sbardelotto in Instituto Humanitas Unisinos, 21 de julho de 2015.
Eis os textos.
A resposta do cardeal Sarah
O grande bem do Concílio Vaticano II
Pela segunda vez em poucos meses, o Prof. Andrea Grillo escreveu no seu blog comentários não muito lisonjeiros a meu respeito.
Em um post do dia 6 de março passado, desde o título, me acusava de "desfigurar o Vaticano II". No texto, depois, ele comentava uma passagem de uma entrevista minha, falando de "'monstruum' lógico e pastoral" e dizendo que, com as minhas palavras, eu me expunha ao "ridículo", operava uma "mistificação" e cometia "um erro irremediável", sem falar do resto.
Perto do fim, ele me acusa daquela autorreferencialidade justamente estigmatizada pelo Papa Francisco, equiparando-me aos "expoentes da Cúria desprovidos de senso de realidade e de verdadeiro contato com as comunidades vivas", os quais, "vivendo sempre nos escritórios da Cúria […] imaginam uma Igreja que não existe e ignoram a que existe".
Não vou comentar as expressões anteriores, mas sobre estas últimas eu quero lembrar que fui ordenado sacerdote em 1969 e, dez anos depois, bispo. De 1979 a 2001, fui bispo na minha Guiné, enfrentando a vida pastoral ordinária e muitas situações "extraordinárias". Apenas em 2001 cheguei à Cúria. Acho que posso dizer que tenho um pouco de conhecimento da Igreja "que existe". Não posso garantir o mesmo para todos os acadêmicos individuais, embora a maioria deles consegue unir de modo harmônico o estudo e a vida eclesial.
Um segundo post foi dedicado a mim pelo Prof. Grillo no dia 16 de junho. Ele traz o surpreendente título: "O analfabetismo conciliar do cardeal Sarah". Nele, o liturgista me critica duramente por um artigo por mim publicado no L'Osservatore Romano do dia 12 de junho de 2015, intitulado "Silenciosa ação do coração".
Lendo o título do post do Prof. Grillo, deveria me preocupar: sou realmente analfabeto em relação ao Concílio, ou ao menos acerca do seu ensinamento litúrgico? Se assim fosse, seria grave, e deveria imediatamente remediar isso, talvez indo para uma "escola de Concílio" de algum especialista que dá aulas particulares!
Mas fiquei confortado por duas reflexões. A primeira, a que voltarei logo, é de que as acusações que me são dirigidas pelo Prof. Grillo não se justificam com base no verdadeiro conteúdo do meu artigo. A segunda é que, se sou analfabeto, estou em boa companhia, já que a minha interpretação da Sacrosanctum Concilium coincide com a de inúmeros outros autores, de não pouco relevo, e alguns deles importantíssimos. E o que é ainda mais importante: a minha interpretação lê o Concílio à luz do Magistério pós-conciliar.
Mas consideremos, embora muito brevemente e sem entrar nos detalhes, o que o Prof. Grillo escreve sobre o meu artigo, mesmo que – para dizer a verdade – eu deveria dizer: o que ele escreve sobre mim.
O autor afirma que quer me dirigir quatro perguntas, quando, na realidade, eu sou posto no banco dos réus, tendo que suportar uma acusação ao término da qual a condenação é, como era previsível desde o início, dura e certa.
Além disso, as acusações, no fundo, também se reduzem a apenas uma, que repete várias vezes ao longo de todo o texto: para o Prof. Grillo, seria uma grave culpa minha o fato de ter citado a Redemptionis Sacramentum, número 42, com aquele seu chamado a utilizar com cautela a expressão "comunidade celebrante".
Evito documentar novamente a inoportunidade da linguagem que é utilizada em relação a mim, como e ainda mais no primeiro dos dois posts. Detenho-me ao essencial e observo ao Prof. Grillo que a Redemptionis Sacramentum é citada uma única vez, enquanto aSacrosanctum Concilium, 13 vezes.
E não falam só os números: o tema da expressão "comunidade celebrante" também é tocado uma única vez e não representa, de fato, o ponto central do meu artigo, mas sim uma aplicação dentro de um discurso de muito mais fôlego. Por outro lado, é claro que eu concordo com aquela especificação oferecida pela Instrução, enquanto é igualmente evidente que o Prof. Grillo não concorda.
Mas essa diferença de opinião justifica o tipo de intervenção que ele publicou? O professor diz que a minha hermenêutica do Concílio está completamente errada e que, mais do que a Constituição do Vaticano II, parece que eu li a Mediator Dei de Pio XII (aliás, nunca citada no meu artigo).
Prof. Grillo reivindica a liberdade do teólogo de criticar a minha "leveza de análise e de julgamento" e ´de "trazer à luz todas as lacunas".
A conclusão do seu post confirma em termos ainda mais drásticos essa reivindicação. O professor escreve: "Um prefeito que realmente queira servir uma autêntica implementação do Vaticano II nunca escreveria uma única linha daquilo que apareceu com a sua assinatura. Esse é um fato grave. Sobre o qual um teólogo, que queira servir a Igreja, nunca poderá silenciar, em caso algum".
Sobre isso, quero dizer que não duvido da sinceridade dos sentimentos do Prof. Grillo em querer servir a Igreja. Nem mesmo contesto que, em princípio, uma das tarefas da teologia é criticar representações parciais (quais não são?), a fim de favorecer uma melhor compreensão e apresentação da verdade revelada. Objeto, porém, as modalidades com que isso foi feito.
Horácio ensina: est modus in rebus. E São Pedro aumenta a dose quando, com palavras que se referem particularmente bem ao ministério dos teólogos, diz: "Reconheçam de coração o Cristo como Senhor, estando sempre prontos a dar a razão de sua esperança a todo aquele que a pede a vocês, mas com bons modos, com respeito e mantendo a consciência limpa. Assim, quando vocês forem difamados em alguma coisa, aqueles que criticam o bom comportamento que vocês têm em Cristo ficarão confundidos" (1Pd 3, 15-16).
Prof. Grillo, naturalmente, é livre para me criticar, se considerar que eu – como autor privado – erra. Porém, ele deve mudar o estilo das suas críticas, deve torná-las realmente construtivas, diria até edificantes, se isso for concedido.
Além disso, quando critica, ele deve se esforçar para atingir o alvo: ou seja, criticar um verdadeiro erro, se houver; não criar um discurso que não foi feito, para depois se jogar de cabeça contra a sua própria criatura, cuja paternidade, porém, ele atribui ao seu acusado.
Uma palavra conclusiva sobre o motivo desta minha intervenção. Na Itália, diz-se: "Non c’è due, senza tre" [não há dois sem três]. Como o Prof. Grillo já me dedicou dois posts, provavelmente devo esperar outros. Talvez, eu deva esperar um post cada vez que eu abrir a boca ou escrever alguma coisa. Quero dizer claramente que, embora possa desagradar, esse tipo de intervenções não me intimida.
Vou continuar refletindo e falando, ou escrevendo, sobre a sagrada liturgia segundo o que a minha inteligência e consciência me fazem compreender como verdadeiro e digno de ser transmitido aos outros. Vou continuar obedecendo ao Santo Padre, como sempre fiz. E o Papa Francisco, como já pude dizer em outros lugares, ao me nomear prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, conferiu-me um mandato de continuar a implementação do Concílio, seguindo o caminho aberto pelo Papa Bento XVI.
Isso eu pretendo fazer, com a ajuda de Deus, dos oficiais e dos consultores da Congregação e dos liturgistas que desejam fazer uma contribuição positiva.
Ao escrever este texto, não pretendi me defender, embora tenha sido atacado. Ao contrário, quis defender o direito de ter uma visão justa e fiel ao Magistério da Igreja, apesar de ser diferente da de um ou mais liturgistas.
Não quero proteger ou "regularizar", como afirma o Prof. Grillo, "quem não quer jogar o jogo do Concílio Vaticano II". Em vez disso, quero dizer que não é de todo certo que aquilo que o professor chama de "Concílio Vaticano II" coincida realmente com aquilo que o Concílio ensinou.
Muitos na Igreja se encontram na visão litúrgica que eu esbocei brevemente no meu artigo publicado no L'Osservatore Romano. Não é verdade que são poucos, como muitas vezes se ouve dizer! É a liberdade de expressão minha e de essas pessoas, sobretudo, que eu considerei que deveria contribuir para garantir. O debate é uma coisa boa.
Para que haja debate, é preciso ter a capacidade de debater serenamente, com ideias diferentes das próprias. Eu sempre estarei aberto para ouvir e para pensar pacatamente com todos. Mas é necessário defender a liberdade de ler o Concílio como um fenômeno novo e, ao mesmo tempo, plenamente inserido na continuidade do único Sujeito Igreja.
É preciso garantir a liberdade de pensar e de se expressar nesse sentido, sabendo argumentar, obviamente, o que se diz (argumentar e atacar não são a mesma coisa). Hoje, tornou-se um dever de defender essa liberdade de pensamento e de palavra por parte de quem quer negá-la, afirmando que a única leitura adequada do Vaticano II é a por ele proposta.
É para contribuir para garantir a possibilidade de ser, de pensar e de falar hoje, como homens e mulheres da Igreja do Vaticano II, que é a mesma Igreja de sempre desejada pelo Senhor, que eu decidi escrever e que continuarei a fazê-lo. Agradeço a quem quiser ler esta minha resposta e anuncio, desde já, que não haverá outras, mesmo que continuem as críticas descompostas em relação a mim. Será suficiente este texto e aquilo que eu continuarei publicando no futuro, em espírito positivo e propositivo.
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A réplica de Andrea Grillo:
Amicus Praefectus, sed magis amica Veritas
A resposta do cardeal Sarah e a necessária defesa do "verdadeiro"Concílio Vaticano II são o objeto desta minha breve réplica. Gostaria de ordenar os meus pensamentos para replicar, com a máxima pacatez de que sou capaz de, às palavras do cardeal Sarah.
Vou proceder rapidamente deste modo: colocarei à luz a descrição unilateral que ele faz das minhas duas intervenções (1), a justificação do tom "indignado" com que eu escrevi (2), as questões fundamentais em jogo (3) e com a inconclusão com que o cardeal, até agora, cuidadosamente evitou argumentar (4) a propósito das minhas perguntas.
1. Uma descrição totalmente unilateral
Um primeiro dado curioso parece ser este: do mesmo modo com que ele descreve e apresenta a Sacrosanctum concilium, o cardeal Sarah – mutatis mutandis – descreveu e apresentou as minhas duas intervenções no meu blog, ocultando cuidadosamente o motivo tanto do tom quanto do conteúdo.
Se se esconde o motivo do meu duplo escrito – ou seja, a teoria da "liberdade de utilização do Vetus Ordo ou do Novus Ordo segundo o apego pessoal" e a negação da "participação ativa" como lógica fundamental que justifica a Reforma Litúrgica – não se permite que ninguém entenda o que está em jogo em tudo isso.
Parece que tudo se resolve em uma polêmica entre pessoas. Se não se reconstrói o fato – ou seja, um duplo escrito do prefeito da Congregação para o Culto Divino, que reconstrói a Reforma Litúrgica de modo unilateral e injusto –, não se entende por que eu tive que levantar o tom e indicar esse duplo erro à opinião pública eclesial.
O prefeito defendeu explicitamente uma teoria errada, da qual decorrem consequências deletérias para a vida das comunidades e dos sujeitos. Eu não tenho nada de pessoal contra ele. Ou, melhor, justamente porque o respeito como pessoa e como ministro, sinto o dever de lhe indicar, com toda a clareza necessária – sem usar a conhecida "duplicidade" clerical – onde está o erro de avaliação e de julgamento que altera a reconstrução da história e o diagnóstico do presente.
2. O tom "indignado" e a monotonia curial
Justamente aqui se insere o segundo aspecto da sua resposta: o cardeal parece muito impressionado com a incomum parrésia com que eu me expressei. Evidentemente, ele parece estar acostumado com o mundo curial, onde se diz – sobre tudo e sobre todos – de modo muito mais pesado do que eu fiz, mas apenas e sempre pelas costas, escondendo-se e murmurando.
Quantas vezes eu mesmo tive que constatar que, sobre os temas litúrgicos mais candentes – sobre os quais eu escrevo há anos com toda a franqueza de que sou capaz –, colegas, monsenhores, bispos e presbíteros diziam coisas muito piores do que eu, mas sempre e apenas "às escondidas" e "baixando a voz", olhando ao redor de modo circunspecto, quase como animais perseguidos.
Gostaria aqui de recordar ao senhor cardeal o que disse o Papa Francisco em uma ocasião recente: "Se você diz um palavrão sobre a minha mãe, espere um soco". Para um liturgista, que acredita naquilo que estuda e ensina, não é tolerável ouvir falar da Reforma Litúrgica e da participação ativa nos modos com que o senhor cardeal falou.
Nesses casos, o "tom indignado" é proporcional à paixão com que se quer respeitar um percurso eclesial e um projeto de renovação da tradição. Que "o velho e o novo se equivalem" ou que a "participação ativa se reduz a mera passividade interior" pode-se suportar se dito pelo senso comum aproximado de um homem da rua, mas não por um prefeito de Congregação.
Acredite-me, senhor cardeal, também neste caso, é só o ministério que o senhor desempenha que suscitou essa minha inevitável e justificada reação. O senhor se surpreende se eu falei de "analfabetismo conciliar"? Mas como o senhor pode falar da Sacrosanctum concilium, por páginas, sem nunca dizer o que é central no documento? Fala-se dele com 13 citações que não têm nada de "específico" sobre a novidade desse texto?
O senhor defende que "muitos" já escreveram o que o senhor escreve. Mas quais são as suas fontes? Alcuin ReidNicola BuxVittorio Messori? São essas as "auctoritates" de que se vale um prefeito? Nunca leu VagagginiMarsiliParschMazzaBradshaw,AngenendtKloeckener, que reconstroem de um modo totalmente diferente a história do Movimento Litúrgico e da Reforma Litúrgica? Por que deve confiar em autores secundários, sem nenhuma autoridade acadêmica ou pastoral, e não levar a sério as verdadeiras autoridades?
Sobre isso, não só não obtive nenhum esclarecimento, mas a sua resposta também me induz a mais preocupações.
3. As duas grandes questões em jogo
Nas minhas duas intervenções, eu me limitei a focalizar duas questões absolutamente centrais, que, nas suas palavras, são definidas de modo distorcido e com possíveis consequências totalmente "anárquicas".
Por isso, eu questionei não a sua intenção, mas o efeito "pacificante" das suas palavras. A meu ver – e, asseguro-lhe e aviso, de todos os mais atentos observadores da vida litúrgica católica – essas afirmações são objetivamente perigosas. Sintetizo-as novamente, aqui abaixo:
a) Buscar a "paz litúrgica" incrementando a contraditoriedade entre Vetus Ordo e Novus Ordo.
Desde 2007, entramos no "túnel" aberto por um dos atos mais infelizes do pontificado de Bento XVI, que introduz um perigosíssimo paralelo entre formas contraditórias do mesmo rito romano. É um projeto que nasce como "projeto de paz", mas que se tornou imediatamente "dinamite institucional".
Pode fazer sentido apenas em ambientes fechados, clericais. Mas mesmo neles – por exemplo, em um seminário ou em uma comunidade religiosa – tem um efeito de divisão na formação, na espiritualidade, na pastoral, na eclesiologia dos futuros presbíteros.
Não falamos, depois, quando isso dá voz a advogados reacionários, para constituir um "grupo Vetus Ordo" na paróquia ao lado de casa... Se alguém não percebe essas dinâmicas, tão distorcidas quanto garantidas de cima, é bom que um teólogo diga isso abertamente e sem pêlos na língua.
b) Desconfiar da "assembleia celebrante" e trair todo o projeto de Reforma daSacrosanctum concilium?
A premissa necessária para a primeira "opção" é a incompreensão do coração daSacrosanctum concilium e da Reforma Litúrgica. O senhor sabe muito bem que havia alguns "teólogos" (ou, melhor, jornalistas e padres que se apresentam como tais) que ousaram defender – ouvidos também por ambientes da sua Congregação – que aSacrosanctum concilium não queria reformar "a missa", mas apenas "as missas festivas, com a participação do povo".
O senhor parece dar ouvidos a essas leituras distorcidas e insustentáveis da tradição recente, ignorando o valor central de uma Igreja que redescobre "ritus et preces" como linguagem comum a todos os batizados.
Por outro lado, há alguns anos, eu ouvi com os meus próprios ouvidos um antecessor seu dizer que "os leigos deviam ser mantidos longe dos altares". Com essa abordagem, não se pode entender a Sacrosanctum concilium e não se pode ler adequadamente a tradição que esse documento inaugurou eficazmente.
Um documento que nos faz entender, ainda hoje, que é preciso, acima de tudo, "recuperar os usos" antes que "combater os abusos". Sobre isso, nos seus escritos, não encontrei palavras claras.
4. O evasividade do cardeal
Acredite-me, senhor cardeal, gostei muito de ler a sua resposta. Mesmo quando não compartilhava nada, sabia que esse gesto, feito pelo senhor, estava marcado por uma confiança de fundo: que o debate é melhor do que a autossuficiência.
Mas, ao lado disso, devo lhe confessar que fiquei muito decepcionado pelo fato de que, depois de ter reagido, como é natural, às minhas críticas, o senhor não deu sinais de responder minimamente às questões que eu levantei.
O senhor diz que "muitos pensam como o senhor": essa não é uma resposta, se não quantitativa, que eu questiono como tal – a meu ver, esses "muitos" são muito poucos e marginais – e que eu contesto sobretudo porque não é motivada.
A interpretação autêntica da Sacrosanctum concilium não é a daqueles que buscam achatá-la na Mediator Dei, como o senhor também fez nas suas duas intervenções.
E é curioso que o senhor, pensando de modo positivista, objete nunca ter citado aMediator Dei. Certo. O senhor não precisava citar a Mediator Dei, porque citou somente aqueles trechos da Sacrosanctum concilium que já podem ser lidos na Mediator Dei! É como ler o Evangelho trazendo à tona apenas todas as citações do Antigo Testamento. Como se faz para captar a sua novidade se ela nunca é citada diretamente?
O senhor até faz uma operação ainda mais perigosa. Não cita os elementos de verdadeira novidade e insinua a dúvida no leitor de que as verdadeiras novidades "não são legítimas": caso contrário, como poderia defender que a "paz litúrgica" só pode nasce tornando a Reforma irrelevante e que a "assembleia celebrante" deve ser um conceito a ser usado com cautela?
Talvez, o senhor acredite que a diferença entre graça e lei pode ser uma diferença perigosa? Que a grande novidade cristã, para a qual a "assembleia celebrante", como "corpo de Cristo", torna-se parte do mesmo mistério celebrado, pode ser considerada como um pensamento perigoso? Que ela não é teologia, mas sociologia ou esquecimento do primado de Deus?
Em conclusão
Para encerrar, como eu repito, declaro-me contente com a sua resposta. É um belo sinal, para além dos conteúdos. O Concílio também se torna vida não tanto como um conteúdo, mas como um estilo.
Mas quero acrescentar uma última coisa. O senhor deseja que, no futuro, eu escreva de modo diferente, mais construtivo e edificante. É preciso entender bem o que se deve entender com esse legítimo desejo. Se o senhor quer que eu assuma o estilo distorcido e lacônico dos textos clericais que o seu escritório soube produzir nos últimos anos, penso que vou lhe decepcionar ao máximo.
Eu entendo a função do teólogo como "crítica respeitosa" e "respeito crítico". Nesse caso, encontrando-me diante de documentos e de artigos que "entendem mal a verdade da história dos últimos 100 anos" e que ameaçam a boa condição do caminho de reforma da liturgia e da Igreja, iniciado há um século, eu tenho o dever de reagir de modo claro e até mesmo duro.
A minha reação é causada pelo conteúdo enganoso dos seus escritos. Eu lhe digo uma verdade, que é dura de ouvir, mas que é muito preciosa. Tornei-me teólogo para exercer essa tarefa e, se não o fizesse, embora às vezes possa parecer descortês ou ingrata, eu não estaria em paz com a minha consciência.
Não sou teólogo para fazer elogios aos poderes de turno, mas para salvaguardar o sentido mais precioso da tradição. Nesse meu trabalho, também exerço em relação ao senhor uma forma de amizade, respeitosa da diversidade das funções eclesiais, mas crítica em relação a toda forma de esquecimento ou de injustiça, sobretudo quando vem de cima.
Justamente por isso, eu diria quase por deontologia profissional, busco defender o antigo ditado: amicus Praefectus, sed magis amica Veritas.
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PARA LER MAIS:

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Arturo Paoli, uma biografia

Arturo Paoli, a coragem de uma vida comprometida para estar ao lado dos mais fracos.

O texto foi publicado no sítio da Associação Oreundici. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Arturo Paoli nasceu em Lucca, na Via Santa Lucia, no dia 30 de novembro de 1912. Formou-se em Letras em Pisa em 1936, entrou no seminário no ano seguinte e foi ordenado sacerdote em junho de 1940.

Participou, entre 1943 e 1944, da Resistência e desenvolveu a sua missão sacerdotal em Lucca até 1949, quando foi chamado a Roma como vice-assistente da Juventude de Ação Católica, a pedido de Dom Montini, depois Papa Paulo VI. Aí se confrontou com os métodos e a ideologia de Luigi Gedda, presidente geral da Ação Católica e, no início de 1954, recebeu a ordem de deixar Roma para embarcar como capelão no navio argentino "Corrientes", destinado ao transporte dos emigrantes.

Arturo fez apenas duas viagens. No navio, encontrou um Pequeno Irmão da Fraternidade de LimaJean Saphores, que Arturo ajudaria à beira da morte. Depois desse encontro, decidiu entrar na congregação religiosa inspirada em Charles de Foucauld e viveu o período do noviciado em El Abiodh, à beira do deserto, na Argélia.

Depois, passou para Oran, onde, nos anos da luta de libertação argelina, desempenhou as funções de responsável de armazém em um depósito do porto. Em 1957, foi encarregado de fundar uma nova Fraternidade em Bindua, zona mineira da Sardenha, onde trabalhou manualmente: mas o seu retorno à Itália não foi bem visto pelas autoridades vaticanas.

Então, ele decidiu se transferir estavelmente para a América Latina e se mudou para a Argentina, em Fortín Olmos, entre os madeireiros – hacheros – que trabalhavam para companhia inglesa de madeira. Esse seria um dos períodos mais duros da experiência latino-americana. Quando a companhia decidiu abandonar a zona já empobrecida da preciosa madeira quebracho, Arturo organizou uma cooperativa para permitir que os madeireiros continuassem vivendo no lugar.

Em 1969, foi escolhido como superior regional da comunidade latino-americana dos Pequenos Irmãos, transferindo-se para perto de Buenos Aires. Aí viviam os noviços da Fraternidade, e começou-se a delinear uma teologia comprometida, prelúdio da adesão à teologia da libertação. Nesse período, publicou o seu segundo livro, Dialogo della liberazione.

Em 1971, nasceu um novo noviciado em Suriyaco, na diocese de La Rioja, uma zona semidesértica, muito pobre, para onde Arturo se transferiu e encontrou um bispo ao qual seria ligado por uma forte amizade, Enrique Angelelli, a voz mais profética da Igreja argentina nos tremendos anos da ditadura militar: um prelado que devia morrer tragicamente em 1976 em um estranho acidente de carro que hoje ninguém duvida qualificar como assassinato e sobre o qual ninguém desenvolveria investigações, apesar do expresso pedido de Paulo VI.

Com o retorno de Perón para a Argentina, o clima político se torna pesado, e Arturo é acusado de exercer um tráfico de armas com o Chile. Naquele momento, o Chile era governado por Allende, destituído no apocalíptico dia 11 de setembro de 1973 pelo golpe de Estado de Pinochet. Em 1974, apareceu nos muros de Santiago um manifesto com uma lista de pessoas a serem eliminadas por "qualquer um que as encontrar": o nome de Arturo está no segundo lugar.

Alguns Pequenos Irmãos são presos, e cinco deles figurariam entre os milhares de desaparecidos. Arturo, nesse momento, se encontra na Venezuela, como responsável pela área latino-americana da Ordem: advertido por amigos para não voltar para a Argentina por estar sendo procurado, volta para lá somente em 1985.

Assim iniciou a experiência venezuelana, primeiro em Monte Carmelo, depois na periferia de Caracas, continuando, ou, melhor, intensificando, a sua produção livreira: Il presente non basta a nessunoIl grido della terra e muitos, muitos outros...
Em terras brasileiras

 Em 1987, transferiu-se, a pedido do bispo local, para Foz do Iguaçu: lá foi morar no bairro de Boa Esperança, onde constitui uma comunidade. Mas, lembra o frei Arturo, "a condição de extrema pobreza das pessoas do bairro me atormentava, e dessa angústia nasceu a ideia de criar a Associação Fraternidade e Aliança", uma entidade filantrópica, sem fins lucrativos, com projetos sociais voltados para o bem da comunidade.

Seguiram-se 13 anos de duro e intenso trabalho para dar dignidade a essa população marginalizada. Hoje, a AFA é uma bela realidade, a qual se somou no ano 2000 a Fundação Charles de Foucauld, voltada especificamente para os jovens do proletariado e do subproletariado de Boa Esperança. Juntas, as duas entidades levam adiante inúmeros miniprojetos que envolvem diretamente mais de 2.000 pessoas, entre adultos, adolescentes e crianças: ludoteca, ambulatório, atividades pós-escola (reagrupados no projeto chamado "Crianças desnutridas"), casa da mulher, cantina, coral, cursos de música, de informática, atividades esportivas... Projetos que visam à formação humana e que foram possíveis graças a ajuda de muitos, muitos amigos italianos que os financiam na sua quase totalidade.

Desde 2004, Arturo, com o padre Mario De Maio, presidente da Oreundici, lançou o projeto "Madre Terra": uma fazenda didática (da extensão de cerca de 40 hectares), também na periferia de Foz do Iguaçu, onde alguns jovens (provenientes das casas-família já acompanhadas e financiadas pela Oreundici), encontraram um posto de trabalho, uma "família ampliada", o espaço e a possibilidade de crescer e se encontrar também com os muitos amigos italianos que seguem esse projeto e cuidam da amizade entre esses dois povos, sob o olhar admirável e paterno de Arturo.

Hoje, o projeto "Madre Terra" permite aumentar essa amizade, com o vivificante e salutar contato com a beleza áspera e fascinante da natureza brasileira.
Reconhecimentos

Distante mas presente, o compromisso religioso e social no Sul do mundo não impediu que o frei Arturo vivesse apaixonadamente os acontecimentos italianos e de Lucca. Em agosto de 1995, escreveu no jornal La Repubblica depois de ter lido a correspondência entre Eugenio Scalfari, então diretor do jornal, e o escritor Pietro Citati. A Scalfari, ele escreveu uma carta que foi publicada com o título "Fé e Utopia do Reino de Deus".

"Chamou-me a atenção o fato de o senhor evidenciar o mercado como 'elevado a divindade', porque há anos denuncio a idolatria do mercado. Muitas vezes, isso foi jogado na minha cara como prova de ignorância das doutrinas econômicas. Estou ciente da minha ignorância, mas, olhando para a idolatria do mercado na perspectiva do Reino, só vejo milhões de pessoas esmagadas sob as rodas do mercado. Essa visão, para mim, é cotidiana quando, no amanhecer, abro a porta da minha casa e logo encontro nas vielas da favela as pessoas que gemem sob as rodas do mercado, e elas são a minha família..."

Em Lucca, em 1995, o prefeito Giulio Lazzaroni lhe entregou o Diploma de Partidário. Nessa ocasião, frei Arturo pronunciou estas palavras:

"... A Resistência não se encerrou no âmbito de 1945 e, se nós não sofremos fortemente por pertencer a uma família que fabrica as armas, que envia as minas que dilaceram os corpos das crianças, se nós não pensamos que o nosso bem-estar é pago por milhões de famintos, se nós não pensamos que enviamos navios carregados de armas para África, para a vizinha Iugoslávia etc... e se nós não sofremos na nossa carne por esse escândalo significa que a Resistência foi uma ação valorosa, generosa ou talvez até uma manifestação de coragem, mas não foi algo que aderiu profundamente à nossa alma, que se tornou lei da nossa vida (...) e para que essa celebração não seja retórica (...) talvez hoje, mais do que nunca, precisamos resistir."

Essa atitude o levou a rejeitar a medalha de ouro que anualmente a Câmara de Comércio confere aos habitantes deLucca que honraram a cidade no mundo. A carta publicada despertou muitas polêmicas:

"Conheço pessoalmente alguns de vocês para não duvidar da sua nobilíssima intenção, mas permitam-me recusar um prêmio como missionário católico. Além do fato de saber que o único selo que posso colocar nos 40 anos de vida naAmérica Latina é o que me é sugerido pelo Evangelho, "sou um servo inútil", atormentam-me uma outra consideração. Pertenço por nascimento e formação ao Ocidente que globalmente se diz cristão, desde as Montanhas Rochosas até os Urais, e é incontestável que esse mundo cristão que se define de Primeiro Mundo está no centro das injustiças que são a causa da fome de milhões de seres que o catecismo nos ensinou a chamar de irmão: eu volto para o Brasil e não posso voltar para lá ostentando no peito uma medalha que premia a minha atividade de 'missionário', representante de uma civilização cristã que despoja da terra seres humanos que nela vivem há séculos antes de Cristo. E essa espoliação dura desde 1492."

No dia 29 de novembro de 1999, em Brasília, o embaixador de Israel lhe entregou o mais alto reconhecimento atribuído a cidadãos não judeus: "Justo entre as nações", por ter salvo em 1944, em Lucca, a vida de Zvi Yacov Gerstel, então jovem judeu alemão, hoje entre os mais conhecidos estudiosos do Talmud, e sua esposa. O nome do frei Arturo, "salvador não só da vida de uma pessoa, mas também da dignidade da humanidade inteira", será gravado no Muro de Honra dos Justos, em Yad Vashem.

No dia 9 de fevereiro de 2000, em Florença, a Região da Toscana, por iniciativa do seu presidente, Vannino Chiti, na presença do cardeal de FlorençaSilvano Piovanelli, e do rabino de FlorenzaYosef Levi, festejou o 60º aniversário do frei Arturo. Nessa circunstância, frei Arturo diria:

"Toda a nossa cultura é uma cultura de morte, o Ocidente cristão é o centro que organizou a guerra, a fome, a acumulação de riqueza nas mãos de poucos".

O cardeal Piovanelli, depois de ter lembrado que o padre Paoli foi um ponto de referência importante na sua formação religiosa, sublinharia:

"Sempre ficamos impressionados com as suas palavras, com os seus livros, mas sobretudo admiramos a coragem de uma vida comprometida para estar ao lado dos mais fracos."

No dia 25 de abril de 2006, o então presidente da República italiana, Carlo Azeglio Ciampi, conferiu-lhe a Medalha de Ouro ao Valor Civil. O alto reconhecimento, entregue a Arturo e a outros três sacerdotes de Lucca (Pe. Renzo Tambellini e os falecidos Pe. Guido Staderini Pe. Sirio Niccolai), refere-se ao grande compromisso para salvar a vida dos perseguidos pelos nazifascistas, particularmente judeus, com a seguinte motivação:

"Ao longo do último conflito mundial, com louvável espírito cristão e preclara virtude cívica, ele colaborou com a construção de uma estrutura clandestina, que deu hospitalidade e assistência aos perseguidos políticos e àqueles que fugiram das blitzes nazifascistas da alta Toscana, conseguindo salvar cerca de 800 cidadãos judeus. Admirável exemplo de grande espírito de sacrifício e de solidariedade humana."

Hoje, Arturo, tendo voltado estavelmente para a Itália desde 2006, vive na Casa Beato Charles de Foucauld, em San Martino in Vignale, nas colinas de Lucca, onde acolhe as pessoas em um clima de amizade, fraternidade e hospitalidade, participa de congressos e encontros, publica novos livros, continua a costumeira colaboração com jornais e periódicos, incluindo os Cadernos Mensais da Oreundici.

No dia 3 dezembro de 2011, foi inaugurado o Fundo de Documentação Arturo Paoli, uma coleção de imagens, vídeos, testemunhos escritos da sua vida. O fundo tem sede na Fundação Banca del Monte di Lucca, na Praça San Martino, em Lucca. Mais informações, em italiano, aqui.
publicado hoje, dia 13 de julho de 2015.
in: Instituto Humanitas Unisinos, Segunda, 03 de dezembro de 2012

domingo, 12 de julho de 2015

“altar do milho” em fotos










Altar feito com milho receberá missa do papa no Paraguai

Estima-se que até dois milhões de fiéis estarão presentes no parque Ñu Guazu, na região de Assunção, no próximo domingo (12), para acompanhar a missa do papa Francisco, seu principal ato litúrgico no Paraguai.
Para receber visitantes e pontífice, os paraguaios capricharam na ornamentação do altar em que a missa será realizada (a partir das 10 horas do domingo). Ele é inteiramente decorado com espigas e grãos de milho, abóboras, coco e frutos da estação -- por isso foi prontamente apelidado de “altar do milho”.
O projeto é monumental: são pelo menos 25 metros de altura, com uma imponente cruz ao alto. Cerca de 32 mil espigas de milho foram usadas, além de 200 mil pequenos cocos.Esta ornamentação faz parte das tradições da Semana Santa em Tañarandy, localidade nas proximidades da cidade de Santo Ignácio, na Província de Missiones, um antigo reduto jesuíta no Paraguai, explica a Rádio Vaticano.
Quem elaborou o projeto foi o artista Koki Ruiz. Ele planejou toda a montagem em Santo Ignácio (que fica a 226 quilômetros da capital) e o altar teve de ser transportado em três partes até o Parque de Ñu Guazú.
De acordo com a Rádio vaticano, o altar sustentável evoca os frutos da natureza, em sintonia com a encíclica “Laudato si”, publicada há poucas semanas por Francisco e dedicada à relação do homem com a Criação. A obra também evoca a cultura guarani.
Após a missa, os frutos e grãos serão doados a instituições de caridade.
in: 
Gazeta do Povo