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Proverbio mexicano

terça-feira, 7 de julho de 2015

A invisibilização de Francisco - Rodolfo Luis Brardinelli

A análise é de Rodolfo Luis Brardinelli e publicada por Página/12, 06-07-2015. A tradução é de André Langer.
Rodolfo Luis Brardinelli é sociólogo da Universidade Nacional de Quilmes e membro do grupo Cristãos para o Terceiro Milênio.
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Laudato si’, a encíclica social apresentada pelo Papa Francisco, foi recebida por um sugestivo coro de elogios. “Destoaram” apenas alguns representantes da direita norte-americana, como Jeb Bush, Rick Santorum e outros, católicos e republicanos, que disseram que “o Papa está vendendo uma linha de socialismo de estilo latino-americano” e que deveria ocupar-se mais em “tornar melhores as pessoas e menos com questões que têm a ver com aspectos políticos”.
Tanta unanimidade no elogio de um documento que critica fortemente o sistema capitalista e o consumismo é, no mínimo, chamativa. Mais lógico seria que uma encíclica que afirma que a solução da crise é política porque “o mercado por si mesmo não garante o desenvolvimento humano integral e a inclusão social” colha não apenas a crítica de um punhado de ultraconservadores norte-americanos, mas também a de uma longa fila de políticos, empresários, economistas, jornalistas e religiosos que crescem com o sistema e hoje se fazem de distraídos ou resmungam elogios de compromisso.
Gerentes, representantes e defensores do sistema, assinalado pela encíclica como causador do desastre humanitário e ecológico aos quais seguramente não lhes faltam vontade de mandar “o Papa ocupar-se com outras coisas”, como fez Jeb Bush, mas, mais astutos que ele, calam e esperam que a inércia conservadora que arrasta a Igreja acabe por invisibilizar a Laudato si’ como já fez com outro documento de Francisco com fortes definições sociais, a Evangelii Gaudium.
Para comprovar a validade desta estratégia basta reparar nos elogios parciais com que receberam a encíclica os empresários e os formadores de opinião nativos que desde sempre defenderam as virtudes da desregulamentação liberal. Basta ver os sonoros silêncios dos políticos e dos meios de comunicação que, nestes tempos de eleições, apregoam a necessidade de um retorno – isso sim, disfarçado de “mudança” – às políticas de mercado, de ajuste e de endividamento dos anos 1990.
Aconselhados pela “prudência política” calam e esperam. Confiam em que a Laudato si’seja dentro de pouco tempo, por ação ou omissão da Igreja, tão invisível quanto é hoje a Evangelii Gaudium, um documento de Francisco que também fez ranger os dentes, mas da qual hoje, apenas um ano e meio depois da sua publicação, poucos ainda se lembram.
A Evangelii Gaudium, é preciso recordar, é o documento no qual Francisco diz que o desequilíbrio entre ricos e pobres “provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira. Por isso, negam o direito de controle dos Estados, encarregados de velar pela tutela do bem comum”. O que fizeram a Igreja, os bispos e padres para que esta ideia penetre na consciência e se reflita na ação e nas escolhas dos cristãos?
Uma primeira impressão é que fizeram pouco ou nada. Demonstração desta afirmação é talvez o argumento com o qual o diretor de uma importante editora católica explica sua decisão de não publicar um livro sobre a Evangelii Gaudium: “Não vai vender, porque a Evangelii Gaudium não entrou nos agentes de pastoral”, e, mesmo que o editor não o diga, fica claro que essa falta de penetração é consequência de uma decisão expressa, ou o desinteresse de quem define a linha pastoral da instituição.
Não obstante esta confissão, seria interessante comprovar a hipótese mediante um trabalho de sociologia religiosa que precise quantos cursos ou seminários sobre a Evangelii Gaudium a Igreja organizou, quantos documentos ou pregações destinaram a ela os bispos, em quantas instruções pastorais ordenaram ou incentivaram sua divulgação, em quantas matérias das universidades e dos colégios católicos ela é estudada, quantas paróquias organizaram alguma atividade inspirada nela, quantas organizações oficiais de leigos têm-na como referência para sua ação, de que forma as comissões eclesiais de justiça e paz vêm trabalhando com ela, o que fizeram com ela os empresários católicos, etc.
É de desejar que a Igreja, seus bispos e suas instituições, trabalhem de tal maneira que a Laudato si’ não siga o mesmo caminho obscuro e, por outro lado, converta-se no que deve ser: um novo paradigma de evangelização. Mas isso está para se ver. Enquanto isso, a invisibilização da Evangelii Gaudium é muito recente e muito evidente para não temer que se repita a história e se justifique assim a estratégia dos poderosos que mentem adesão ou calam... e esperam.

in: Instituto Humanitas Unisinos,  07 de julho de 2015

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