pense

"Eles tentaram nos enterrar, mas não sabiam que éramos sementes! "

Proverbio mexicano

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Os três sinais do Papa no Equador (1)

Mais com gestos (gosta mais deles, porque chegam em profundidade ao povo) do que com palavras. Por isso, frente a uma Igreja instalada, principesca e casada com a direita política mais conservadora, o Papa apresentou-se com um báculo de madeira, um Fiat Idea simples e uma casula indígena.
Frente aos báculos de ouro e prata, símbolos do poder dos bispos do país, Francisco mostrou um báculo de madeira, feira e presenteada por um refugiado somali na Itália. Em sua viagem à Terra Santa, o báculo quebrou e o Papa pediu para que lhe fizessem um exatamente igual com madeira de oliveira do Getsêmani. O báculo do serviço aos pobres. Um claro recado aos prelados equatorianos, chamados a cheirar a ovelha e a servir ao seu povo pobre e descartado.
Frente às grandes limusines da maioria dos bispos do Equador, o Papa se apresentou e passeou com um pequeno Fiat Idea. Um carro simples, que até um pobre pode comprar. Um carro para servir, não para mostrar. Outro claro recado para uma hierarquia que chamava (e segue chamando ‘sotto voce’) de “comunistas” os bispos e padres que defendem os pobres e optam pela Teologia da Libertação. Proscritos, como o agora beato Romero, ou como dom López Marañón, o bispo de Sucumbíos, obrigado a renunciar, há alguns anos, por defender uma Igreja encarnada e servidora.
Diante de uma Igreja hierárquica que perdeu o “oremus” da conexão com o povo indígena do Equador, o Papa revestiu-se, na missa celebrada no Parque do Bicentenário, com uma casula com claros sinais indígenas. Mão estendida aos povos originários, tantas vezes descartados. Sinal papal que, com seu dedo, assinala o caminho que a hierarquia equatoriana tem que voltar a trilhar já. Para reabilitar a memória de dom Leonidas Proaño ou de dom Luna Tobar, os bispos dos índios.
E, se por acaso ainda restasse alguma dúvida, em sua homilia de Quito, o Papa proclamou que “a fé sempre é revolucionária”. Falar de revolução no Equador é aludir implícita e explicitamente a Correa, o líder social cristão que está procurando implementar um modelo social inclusivo em um país em que 90% das terras estão nas mãos de 2% dos mais ricos dos ricos.
Francisco deu assim um respaldo a Correa, mas sem alinhar-se nem abençoar todas as suas políticas. Contra o que costumam pensar os radicais de direita, Francisco é um Papa centrado, centrista e moderado. Não se filia a nenhuma causa comunista. Trata apenas de proclamar, com suas encíclicas e seus gestos, que a pessoa humana tem que ocupar o centro de todo o sistema político. E, por isso, acentuou uma vez mais que os bens são destinados a todos e que essa é a hipoteca social da propriedade privada.
Francisco aproveitou, além disso, para lançar, precisamente aqui na metade do mundo, um SOS a favor da “mãe Terra”, que grita com dores de parto. Aqui, onde justamente uma das grandes companhias de petróleo, a Chevron, provocou enormes estragos ambientais, pelos quais foi denunciada e condenada em diversos tribunais internacionais. Nem a Chevron nem os latifundiários do país gostam do Papa Francisco. E também não gostam da sua já famosa encíclica verde. Porque ridiculariza, com a máxima autoridade moral do líder mundial mais influente, as constantes feridas que infringem à “casa comum”.
Francisco passou pelo Equador e deixou claro seu Evangelho: uma Igreja que não serve não serve para nada e os pobres são os preferidos de Cristo e, portanto, devem ser também os preferidos dos hierarcas e dos políticos equatorianos. Palavras do irmão Francisco.
Responderá a enferrujada hierarquia equatoriana ao conhecido ‘te louvamos, Senhor’?
(1) - A reportagem é de José Manuel Vidal e publicada por Religión Digital, 09-07-2015. A tradução é de André Langer.
in: Instituto Humanitas Unisinos, Sexta, 10 de julho de 2015

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Francisco sacode esta Igreja, que está enferrujada - Tus hermanos de la Iglesia de a pie.

Assim como Francisco de Assis pede para fazer, recebemos-lhe com alegria gritando... Que o Senhor te dê a paz!!! Volte à terra latino-americana, irmão, mas você não é mais o Bispo Bergoglio... o jesuíta argentino, boa gente, pobre, intenso em tudo, muito conservador em coisas de moral, grande cozinheiro...
Temos visto (às vezes chorando de alegria), nestes anos, como tem se deixado, mansamente, tocar pelo Espírito, sim, assombrados, emocionados, ouvimos você clamar e acalmar, desafiar e estender pontes, ir a Lampedusa... no mesmo plano de Jesus durante toda a sua vida, irmão fiel dos Anawim... os pobres de Deus.
Tem chamado os poderosos deste mundo à conversão e os humildes à criatividade (sabe? aqui no Equador, desde sempre, os ricos se apropriaram das melhores delícias do mar e as tornaram exclusivas... proibidas. Os simples pescadores e mais simples trabalhadores, trabalhadoras, transformaram o peixe mais desprezado em um guisado tão delicioso que, hoje, é símbolo nacional, sendo disputado entre as “grandes empresas” da “alta cozinha” e o exaltam sem parar... mas se esquecem de que nasceu nas caçarolas de barro e nas latas rachadas dos mais pobres e esquecidos).
A revolução de Deus, que é coisa de operários e lavradores, é o que anda pregando, irmão, com alegria, ternura e mão firme. Lamentamos que este tempo entre nós seja tão curtinho, mas, bom, nós entendemos, que lindo seria se pudesse andar e olhar o que as missionárias e os missionários tecem em seu silêncio, a cada dia, silêncio relativo, pois Jesus grita cada vez mais alto, grita-nos.
Vão lhe mostrar muros e muros, templos e templos, museus e palácios... multidões, enormes multidões. Sabe? Há aqueles que as multidões não assustam, porque são irmãos e irmãs da dor, do cansaço, da fome e da esperança de cada um como um mundo único, sem horário, nem grade... nem “direito canônico”, o tempo todo. Esperamos queJesus, que oxalá tenha conseguido “um espaço” para poder te ver, consiga fazer um sinal para você no meio da imensa massa.
Sabemos que você o sentirá e “nos dará”, dizendo na fala coloquial do povo de Quito, seu recado de paz e rebeldia. Ouve, sacode esta Igreja que está enferrujada, falamos isto a sério, fechada em seus templos magníficos e cômodos conventos, conservando com paixão “os espaços sagrados”, as propriedades, em uma pregação quase “esotérica” em razão da distância da vida diária das pessoas. Falam de “família” e não fazem ideia de quanto custa preparar um prato de sopa, nem da renda do mês. Dão “altas lições de amor familiar”, mas são um “clube de eleitos”, segregam, assim como os fariseus, os “impuros e desencaminhados” e proclamam um Deus que pouco tem a ver com aquele que anda sem nada e tudo ao mesmo tempo. Um velho missionário dizia com ironia... “antes se clamava: África ou morte... hoje é ao contrário: Toyota ou morte...”.
Que gente está sendo formada em uma Igreja fechada e monetariamente poderosa? Vão lhe dizer que as vocações aumentam, os seminários estão cheios e que tudo vai muito bem, não é certo. O ceticismo atinge profundamente os jovens, a droga é uma praga que parece incontrolável, o individualismo e o “êxito” são os padrões a seguir. E diante disto? Como pode uma Igreja que se dedica a cuidar de museus, exigir que os outros se convertam? Não é que o conforto seja ruim, mas quando é modelo e fim... é mortal. Uma Igreja clerical até a ira, que considera o Povo de Deus como um negócio. Como pode ser fermento do Reino? Que pobreza – não evangélica – a maioria dos bispos exibe hoje: gerentes mais do que pastores, inquisidores mais do que irmãos, banqueiros mais do que missionários. Dói, o “mérito” principal para fazer parte desse grupo “exclusivo” parece ser participar do círculo que rodeia esse obscuro embaixador do Estado vaticano.
Sim, sim, estamos ressaltando fortemente o negativo, há também muitíssimas, inumeráveis coisas boas. No entanto, o agradável sempre encontra um elogio e do outro ninguém quer falar. Sacode a sua Igreja... Bispo de Roma. E, pelo Amor de Deus, leva esse Núncio que é apenas fonte de mil dores.
Você chega a um Equador em crise, um país que há oito anos esteve doente terminal, hoje ainda caminha muito delicado, ainda não pode se valer por si só, as pragas ameaçam o seu corpo estragado pelas misérias acumuladas por séculos. E é preciso dizer aos médicos que o atendam, que compreendam que é preciso levá-lo ao sol, para que faça exercícios, recupere sua força popular, que estão sendo drogadas com receitas tecnocráticas. Que se valha dos braços potentes da organização popular e das pernas das novas gerações, que não são apenas os “porta-bandeiras”, “os exitosos”, “os vencedores”, parece que esses médicos que fazem o tratamento são uns “iluminados” que tudo solucionam a partir dos escritórios e dos manuais.
Aqueles que “curam por correspondência” e possuem um computador no lugar do coração. Há, custa dizer, uma dupla moral em alguns dos mais altos funcionários equatorianos, pois a corrupção está presente e é muito forte. Centenas de milhares de jovens estão sendo segregados sem contar com uma oportunidade séria de se preparar, não apenas nas universidades, mas nos escritórios técnicos que lhes assegurem futuro. Há dívidas impostergáveis na partilha da terra e na defesa da natureza. É um governo sem capacidade de organização popular permanente. Porém, em essência é o melhor que o Equador já teve nos últimos 50 anos.
Por outro lado, estão os responsáveis de sua prostração secular, os que lhe adoeceram até quase matá-lo. Querem voltar ao poder para comê-lo vivo, destino de antropófagos: banqueiros, contrabandistas e latifundiários que ainda exalam um cheiro do “tempo da colônia”, proprietários das universidades mais caras e elitistas, prefeitos fascistas, falsos revolucionários de “esquerda”, caciques indígenas e experimentados “líderes sindicais”. Toda a peste que levou o país até a beira da dissolução em 1999, hoje, retorna sem vergonha, mas eloquentemente levantando bandeiras obscuras.
Estão semeando violência e cizânia entre as pessoas. São cínicos, estão se aproveitando das fissuras deixadas por um governo social-democrata radicalizado, para confundir especialmente os setores médios, que neste período cresceram sustentadamente. Os mesmos que quiseram privatizar até o ar, retornam para nos dar lições. E há alguns, muitos, bispos e padres que almoçam elegantemente em suas mesas. Assim que você tiver ido à Bolívia, irão descarregar uma feroz tormenta sobre esta terra, se for possível, convida-os à ordem e que deixem de ambicionar, em sua soberba, querendo se apropriar da vida que uma vez já destroçaram.
Tome cuidado com a “imprensa livre e independente”, que se colou até no avião no qual você veio, são gente com alma de talão de cheques.
De onde estamos, nós te pedimos que peça ao Amor que nos perdoe pelo pouco que fazemos, pois apesar de sermos também abençoados pela sua brisa, somos réus, irmão, de nossa própria comodidade.
Que Maria peregrina, sempre fiel, sempre revolucionária e “populista”, como dizem os banqueiros, essa que também está anônima nas multidões, te abençoe.
Dá-nos um abraço... Papa... delegado do Amor para proclamar sua alegria.
A mensagem é publicada por Religión Digital, 07-07-2015. A tradução é do Cepat.
in: Instituto Humanitas UnisinosQuarta, 08 de julho de 2015

terça-feira, 7 de julho de 2015

No Equador, Francisco pede oração intensa por “milagre” no Sínodo - Joshua J. McElwee

A reportagem é de Joshua J. McElwee, publicada por National Catholic Reporter, 06-07-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.
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Em referência a contendas que poderão ocorrer no Vaticano nos próximos meses, o papa também pediu aos fiéis, reunidos na cidade portuária de Guayaquil para uma missa ao ar livre, para que “intensifiquem” as suas orações para o encontro mundial de outubro dos bispos sobre questões da vida em família.
Com uma homilia centrada na história evangélica da festa de casamento em Caná – onde Jesus, a pedido de Maria, milagrosamente fez água se tornar vinho –, o papa pediu à multidão que reze para um milagre semelhante ocorra nas discussões dos bispos a ocorrer no Sínodo dos Bispos neste segundo semestre.
O ponto central deste encontro – Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos – é “amadurecer um verdadeiro discernimento espiritual e encontrar soluções concretas para as inúmeras dificuldades e os importantes desafios que a família deve enfrentar nos nossos dias”, disse Francisco à multidão em seu idioma nativo.
“Convido vocês a intensificar a oração por essa intenção: para que, mesmo aquilo que nos pareça impuro, nos escandalize ou espante, Deus (…) possa milagrosamente transformá-lo”, acrescentou ao seu texto preparado.
Estas palavras do pontífice foram marcantes em sua franqueza. Foi marcante também a sua decisão de tratar do Sínodo neste segundo encontro com o público durante a visita, que durará de domingo a quarta-feira no Equador, como parte de uma visita mais longa à região que irá contar com uma ida à Bolívia e ao Paraguai.
Estas declarações do papa fizeram parte de uma longa homilia, proferida diante de uma enorme multidão.
Fotografias aéreas mostram que quase todas as partes do Parque Samanes, de aproximadamente 2 mil hectares, estavam lotadas. Muitos acamparam durante toda a noite para garantir um lugar no parque em Guayaquil, a cerca de 400 km ao sudoeste de Quito.
Com a temperatura beirando os 33ºC, os bombeiros acabaram jorrando água por sobre a multidão enquanto cantavam hinos antes da chegada do papa.
A Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos de outubro será o segundo de dois encontros mundiais dos bispos convocados por Francisco para 2014 e 2015. As discussões em torno destes dois eventos têm atraído grande atenção e gerado polêmicas por seu foco em questões como o divórcio e o recasamento.
Neste retorno ao continente em que nasceu, Francisco aproveitou a oportunidade para falar diretamente sobre as lutas enfrentadas pelas famílias equatorianas, relacionando a história do Evangelho com os milagres que, disse, as pessoas testemunham a cada dia.
“E, na família, os milagres se fazem com o que há, com o que somos, com aquilo que a pessoa tem à mão”, disse o pontífice à multidão. “Muitas vezes não é o ideal, não é o que sonhamos, nem o que ‘deveria ser’”.
O papa então exortou os presentes a acreditar que as coisas podem sempre melhorar, que o melhor sempre está à frente, refletindo sobre como as pessoas no relato evangélico manifestavam espanto que o melhor vinho servido pelo casal (fornecido por Jesus) ter durado tanto, sendo servido por último.
“Esta é a boa nova”, Francisco disse à multidão. “O melhor dos vinhos ainda está por ser bebido, o mais gracioso, profundo e belo para a família ainda está por vir”.
“Ainda está por vir o tempo em que saboreamos o amor diário, onde os nossos filhos redescobrem o espaço que partilhamos, e os mais velhos estão presentes na alegria de cada dia”, disse ele. “O melhor dos vinhos está na esperança, está para vir a cada pessoa que aposta no amor”.
“As famílias têm que arriscar dar o amor, compartilhar o amor”, disse Francisco. “Temos de arriscar distribuir amor aos outros”.
O melhor “está por vir, mesmo que todas as variáveis e estatísticas digam o contrário”, prosseguiu o papa. “O melhor vinho ainda está por vir para aqueles que hoje veem desmoronar tudo”.
“Murmurai até acreditar nele”, falou ele à multidão. “O melhor vinho está por vir; e sussurrai-o aos desesperados ou que desistiram do amor”.
“Deus sempre se aproxima das periferias de quantos ficaram sem vinho, daqueles que só têm desânimos para beber”, disse Francisco. “Jesus se sente inclinado a desperdiçar o melhor dos vinhos com aqueles que, por uma razão ou outra, sentem que já lhes romperam todas as talhas”.
As palavras do papa expressando esperança para com o futuro provavelmente terão um significado especial para muitos no Equador, país que tem vivido um boom econômico nos últimos anos por causa do petróleo e de atividades de mineração, mas onde, ao mesmo tempo, muitas famílias ainda lutam para encontrar trabalho ou suprir suas necessidades básicas.
Muitos no país estão também debatendo a melhor estratégia para o crescimento econômico, que ultimamente tem se concentrado na exploração dos recursos naturais via atividade mineradora.
Alguns católicos dizem esperar que o papa aborde essa questão especificamente nos próximos dias, tratando em particular da abertura de governo à atividade mineradora em uma reserva natural reconhecida internacionalmente na fronteira do país com o Peru.
A irmã maryknoll Elsie Monge, diretora-executiva da Comissão Ecumênica para os Direitos Humanos, do Equador, disse que seu grupo escreveu uma carta a Franciscoantes da visita dizendo-lhe o quão devastadora a mineração é para a natureza e pedindo-lhe para falar sobre o assunto com o presidente Rafael Correa.
“Acho que esta sua presença é uma ocasião para que as pessoas reflitam sobre a necessidade de se ir mais além, de atingirmos as causas da pobreza, da violação dos direitos da natureza”, disse Elsie Monge.
Francisco voou para Guayaquil na segunda-feira pela manhã saindo de Quito, onde chegou de Roma no domingo à tarde. No início da manhã, ele visitou um santuário devotado à misericórdia divina localizado na cidade de Guayaquil.
Em sua homilia na missa desta segunda-feira, o pontífice igualmente refletiu sobre o papel de Maria no relato evangélico da festa de casamento, dizendo que tal narrativa mostra-a como estando atenta às necessidades daqueles ao seu redor e disposta a agir, a fim de servi-los.
A orientação de Maria para os que participavam da festa, no sentido de escutarem Jesus de modo a permitir o milagre do vinho, é também um convite a nós todos para “nos colocarmos à disposição de Jesus, que veio para servir e não para ser servido”.
“O serviço é o critério do verdadeiro amor”, disse. “E isso se aprende especialmente na família, onde nos tornamos servidores uns dos outros por amor ”.
“No seio da família, ninguém é descartado”, disse Francisco, acrescentando que não há desigualdades entre os membros da família.
Maria também nos ensinou a “deixar as nossas famílias nas mãos de Deus; ela ensinou a rezar, alimentando a esperança que nos indica que as nossas preocupações também preocupam Deus”, disse o papa.
Francisco voltará a Quito no final da tarde para uma visita formal ao presidente Rafael Correa e para uma breve ida à catedral da cidade, onde deverá se pronunciar brevemente.
No aeroporto de Quito no domingo, Francisco disse à multidão que queria estender a mão a todos no país durante esta sua breve visita e que estava “tomado de emoção e esperança” por esta viagem.
O papa se reunirá terça-feira com os bispos do país e com representantes da sociedade civil. Também celebrará uma missa ao ar livre que deve atrair centenas de milhares de fiéis. Na quarta-feira pela manhã, ele se reunirá com o clero e os religiosos antes de se dirigir para a Bolívia.
Francisco dá continuidade à visita na região indo ao Paraguai na sexta-feira antes de retornar a Roma, no domingo.
in: Instituto Humanitas Unisinos,  07 de julho de 2015

Carta ao Papa Francisco - Paulo Suess

Querido Papa Francisco,
amado Pastor e Irmão Maior:
Saúde e Paz!
“Conte conosco” !
O senhor é dom de Deus para o mundo e para a Igreja nesta “mudança de época”. Desde sua primeira aparição na Praça de São Pedro, apresentando-se como Bispo de Roma e pedindo a bênção do Povo, nos animou e encorajou a manifestar-nos livremente como Povo de Deus.
Através de Eduardo Brasileiro e Vinicius Lima Batista, nossos representantes noEncontro Mundial de Movimento Populares na Bolívia, expressamos, “desde esse fim do mundo”, incondicional apoio ao senhor e também algumas preocupações.
Somos cristãos católicos - leigos e leigas, religiosas e religiosos, presbíteros e também membros de outras confissões - da Zona Leste de São Paulo (perto de 3 milhões de habitantes), especificamente Diocese de São Miguel Paulista, articulados sob a identidade “Igreja, Povo de Deus, em Movimento” (IPDM), cujo “Princípios da Identidade” lhe enviamos em anexo.
O grupo nasceu em 2010, por iniciativa de alguns leigos e cinco padres, no intuito de retomar o Vaticano II e as conclusões das Conferências do Episcopado Latino-Americano. Se na época vivíamos um “inverno eclesial”, com a sua providencial eleição para Bispo de Roma, somos desafiados à “pastoral em chave missionária” (Ev. Gaudium, 33) e à ousadia de ser “uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas que a uma Igreja enferma pelo fechamento e comodidade de se agarrar às próprias seguranças” (Ev. Gaudium, 49).
Algumas preocupações:
1. Indiferentismo do clero (diáconos, padres, bispos, arcebispos): Sentimos que “Francisco, Bispo de Roma”, ainda não foi incorporado em muitas das Dioceses do Brasil. Caminhando para o terceiro ano de seu ministério apostólico, não vemos entusiasmo e efetivo empenho pastoral em fazer do “Evangelho da Alegria” referencial das práticas pastorais. Há certo “silêncio e desinteresse” quanto às suas “provocações” para sermos “Igreja em saída”.
2. Nomeações de bispos: há que se garantir participação dos presbitérios e dos Regionais da Conferência Episcopal na nomeação de bispos. A forma atual não privilegia nomeação de bispos pastores. Nesse sentido, há também um “lobby episcopal” conservador que encontra na Nunciatura Apostólica total e irrestrito reconhecimento. Um simples exemplo: nos últimos 35 anos, apenas 6 presbíteros da Grande São Paulo foram nomeados bispos.
Há, na Grande São Paulo, competentes e lúcidos presbíteros pastores, cujo testemunho evangélico os credenciaria ao ministério episcopal. Vêm exercer o ministério episcopal na metrópole padres de pequenas cidades de Minas Gerais, Paraná e do interior de São Paulo. Isso é real desconsideração para com os presbíteros de São Paulo, São Miguel Paulista, Santo Amaro, Osasco, Itapecerica da Serra, Guarulhos e Mogi das Cruzes. À renúncia ou transferência de um bispo diocesano o presbitério sequer é consultado sobre aquele que será o seu próximo bispo. No Brasil ainda são nomeados bispos de perfil burocrático-alfandegário, com “psicologia de príncipes”. Todos os padres, da década de oitenta, formados na Teologia da Libertação vivem marginalizados em suas próprias dioceses.
3. Os seminários de filosofia e teologia: constatamos expressivo número de seminaristas apaixonados pela “carreira eclesiástica”, facilmente constatável em suas conversas, em suas vestes clericais ultrapassadas, em seu alinhamento com presbíteros também carreiristas e dinheiristas e no empenho medíocre nos estudos filosóficos e teológicos. Para eles, o “cheiro das ovelhas” quanto mais longe, melhor. Sugerimos radical reforma dos seminários. A experiência de “casas de formação” ligadas a uma paróquia, sob responsabilidade de párocos sérios, parece-nos a melhor maneira de formar padres para a eclesiologia proposta pelo senhor na Evangelii Gaudium. Os seminaristas, num significativo número, querem ser “bispos” – como horizonte “eclesiástico”. Permita-nos dizer, Papa Francisco, os seminários podem fazer ruir todo o seu projeto de Igreja para os próximos anos.
4. Sínodo dos Bispos e comunhão sacramental para casais de segunda/terceira união: apreensivos, aguardamos uma palavra oficial e definitiva da Igreja para que casais de segunda ou terceira união possam, enfim, participar integralmente da eucaristia. O senhor mesmo deve ter encontrado, em seu ministério pastoral, inúmeros casais cristãos dedicados à evangelização e privados da comunhão sacramental. Perdoe-nos a pretensão: se “a eucaristia é fonte e cume da vida cristã” (SC 10), como aceitar a exclusão dela de pessoas de vivência cristã? Apelar para a “comunhão espiritual” num contexto litúrgico-sacramental é negar a “sacramentalidade” da própria assembleia litúrgica. 
5. Sínodo dos Bispos e população LGBTs: o mundo jamais esquecerá sua espontânea e humana expressão, quando da viagem do Rio de Janeiro de volta a Roma, no avião: “quem sou eu para julgar”? O senhor bem conhece o atroz sofrimento espiritual, psíquico, eclesial, social e familiar pelo qual passam milhões de irmãos e irmãs cuja opção homoafetiva é discriminada, demonizada, perseguida, odiada. Quantas pessoas dessa imensa população já não pensaram e tentaram o suicídio, a cada dia? Afirmar que a Igreja aceita a homossexualidade mas não a prática dela é mutilar as pessoas na totalidade do seu ser. Além disso, passamos por ridículos, aos olhos da ciência e da prática adulta, responsável e ética de milhares de pessoas.
6. Celibato opcional: No Brasil demos passos firmes quanto aos ministérios leigos, sobretudo o ministério de presidentes da Celebração da Palavra na ausência do presbítero; ministério do batismo e ministério das testemunhas qualificadas para o sacramento do matrimônio. Há inúmeras mulheres, inclusive, presidentes destas celebrações. Até recentemente eram também aceitas como testemunhas qualificadas do sacramento do matrimônio. A aceitação de ministros e ministras se, no início conheceu alguma resistência, hoje é tranquila, de um lado. Mas, de outro, ameaçada seriamente pelo clericalismo de presbíteros formados entre 1989-2014, cuja prática e pregação vêm transformando os leigos em “ovelhas”, também clericais. A aceitação da ordenação de “viri probati” não encontra resistência entre o povo. Pelo contrário, aprovação. No entanto, um certo tipo de clero, apegado a privilégios pecuniários e não disposto a avançar em tal questão, torna-se sério obstáculo. Notamos certo comodismo e preguiça pastoral e consciente opção pelo “fez-se sempre assim” (EG, 33).
7. Leigas e Leigos na Igreja: Na Evangelii Gaudium o senhor retoma a necessidade do Conselho Paroquial de Pastoral. Papa Francisco, é lastimável a maneira como são tratados milhares de leigos e, sobretudo, leigas nas paróquias e dioceses. Expressivo número delas não têm Conselho Pastoral. Os leigos mais conscientes são marginalizados, quando não afastados de suas atribuições, como “cobras venenosas”. Há inúmeros casos de destituição de Conselhos Paroquiais e Diocesanos segundo o “gosto” e os “interesses” do novo pároco ou (arce)bispo. Testemunhamos preocupante “infantilização” de leigos e leigas através de atitudes eclesiásticas autoritárias e da priorização a movimentos religiosos de perfil fundamentalista e conservador. Incentiva-se um “devocionismo” ao gosto do “consumo religioso de bênçãos imediatistas” e, quando não se persegue, deixa-se ao próprio abandono as pastorais organizadas. Como se garantir efetiva cidadania laical na Igreja?
8. Igreja e Movimentos Populares e Sociais: um vibrante agradecimento ao senhor por ter confirmado e reafirmado a “opção preferencial pelos pobres” que, de forma transversal, está presente na Evangelii Gaudium e na Laudato Si. O senhor trouxe a Igreja de volta aos desafios do mundo, empurrando-a para as “periferias existências e geográficas”. Cardeais, arcebispos, bispos, padres e seminaristas, mídia e governos, não têm mais argumento para dizer que tal opção é sociológica ou ideológica. Muitíssimo obrigado!
Saiba que os signatários desta carta, estão com o senhor. Conte conosco para todas as mudanças estruturais as quais o senhor se propõe encaminhar.
E, como sempre nos pede, “rezamos pelo senhor”.

in: Instituto Humanitas Unisinos,  07 de julho de 2015

A invisibilização de Francisco - Rodolfo Luis Brardinelli

A análise é de Rodolfo Luis Brardinelli e publicada por Página/12, 06-07-2015. A tradução é de André Langer.
Rodolfo Luis Brardinelli é sociólogo da Universidade Nacional de Quilmes e membro do grupo Cristãos para o Terceiro Milênio.
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Laudato si’, a encíclica social apresentada pelo Papa Francisco, foi recebida por um sugestivo coro de elogios. “Destoaram” apenas alguns representantes da direita norte-americana, como Jeb Bush, Rick Santorum e outros, católicos e republicanos, que disseram que “o Papa está vendendo uma linha de socialismo de estilo latino-americano” e que deveria ocupar-se mais em “tornar melhores as pessoas e menos com questões que têm a ver com aspectos políticos”.
Tanta unanimidade no elogio de um documento que critica fortemente o sistema capitalista e o consumismo é, no mínimo, chamativa. Mais lógico seria que uma encíclica que afirma que a solução da crise é política porque “o mercado por si mesmo não garante o desenvolvimento humano integral e a inclusão social” colha não apenas a crítica de um punhado de ultraconservadores norte-americanos, mas também a de uma longa fila de políticos, empresários, economistas, jornalistas e religiosos que crescem com o sistema e hoje se fazem de distraídos ou resmungam elogios de compromisso.
Gerentes, representantes e defensores do sistema, assinalado pela encíclica como causador do desastre humanitário e ecológico aos quais seguramente não lhes faltam vontade de mandar “o Papa ocupar-se com outras coisas”, como fez Jeb Bush, mas, mais astutos que ele, calam e esperam que a inércia conservadora que arrasta a Igreja acabe por invisibilizar a Laudato si’ como já fez com outro documento de Francisco com fortes definições sociais, a Evangelii Gaudium.
Para comprovar a validade desta estratégia basta reparar nos elogios parciais com que receberam a encíclica os empresários e os formadores de opinião nativos que desde sempre defenderam as virtudes da desregulamentação liberal. Basta ver os sonoros silêncios dos políticos e dos meios de comunicação que, nestes tempos de eleições, apregoam a necessidade de um retorno – isso sim, disfarçado de “mudança” – às políticas de mercado, de ajuste e de endividamento dos anos 1990.
Aconselhados pela “prudência política” calam e esperam. Confiam em que a Laudato si’seja dentro de pouco tempo, por ação ou omissão da Igreja, tão invisível quanto é hoje a Evangelii Gaudium, um documento de Francisco que também fez ranger os dentes, mas da qual hoje, apenas um ano e meio depois da sua publicação, poucos ainda se lembram.
A Evangelii Gaudium, é preciso recordar, é o documento no qual Francisco diz que o desequilíbrio entre ricos e pobres “provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira. Por isso, negam o direito de controle dos Estados, encarregados de velar pela tutela do bem comum”. O que fizeram a Igreja, os bispos e padres para que esta ideia penetre na consciência e se reflita na ação e nas escolhas dos cristãos?
Uma primeira impressão é que fizeram pouco ou nada. Demonstração desta afirmação é talvez o argumento com o qual o diretor de uma importante editora católica explica sua decisão de não publicar um livro sobre a Evangelii Gaudium: “Não vai vender, porque a Evangelii Gaudium não entrou nos agentes de pastoral”, e, mesmo que o editor não o diga, fica claro que essa falta de penetração é consequência de uma decisão expressa, ou o desinteresse de quem define a linha pastoral da instituição.
Não obstante esta confissão, seria interessante comprovar a hipótese mediante um trabalho de sociologia religiosa que precise quantos cursos ou seminários sobre a Evangelii Gaudium a Igreja organizou, quantos documentos ou pregações destinaram a ela os bispos, em quantas instruções pastorais ordenaram ou incentivaram sua divulgação, em quantas matérias das universidades e dos colégios católicos ela é estudada, quantas paróquias organizaram alguma atividade inspirada nela, quantas organizações oficiais de leigos têm-na como referência para sua ação, de que forma as comissões eclesiais de justiça e paz vêm trabalhando com ela, o que fizeram com ela os empresários católicos, etc.
É de desejar que a Igreja, seus bispos e suas instituições, trabalhem de tal maneira que a Laudato si’ não siga o mesmo caminho obscuro e, por outro lado, converta-se no que deve ser: um novo paradigma de evangelização. Mas isso está para se ver. Enquanto isso, a invisibilização da Evangelii Gaudium é muito recente e muito evidente para não temer que se repita a história e se justifique assim a estratégia dos poderosos que mentem adesão ou calam... e esperam.

in: Instituto Humanitas Unisinos,  07 de julho de 2015

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Laudato si': a defesa de um clima mais estável e uma economia mais justa. Artigo de Naomi Klein

É uma honra estar aqui hoje e, especialmente, compartilhar esta plataforma com o cardeal Turkson, que tem feito muito para nos trazer a este momento histórico.
Papa Francisco escreve desde cedo que a Laudato si' não é apenas um ensinamento para o mundo católico, mas para "cada pessoa que habita este planeta" (n. 3). E eu posso dizer que, como feminista judia secular que ficou bastante surpresa ao ser convidada para o Vaticano, ele certamente falou comigo.
"Não somos Deus" (n. 67), afirma o encíclica. Todos os seres humanos sabiam disso antigamente. Mas, há cerca de 400 anos, avanços científicos vertiginosos fizeram com que alguns pensassem que os seres humanos estavam à beira de saber tudo o que havia para se saber sobre a Terra e, portanto, seriam os "mestres e donos" da natureza, como René Descartes afirmou tão memoravelmente. Era isso, segundo eles, o que Deus sempre quisera.
Essa teoria se manteve por um bom tempo. Mas avanços posteriores na ciência nos disseram algo muito diferente. Porque, enquanto queimávamos quantidades cada vez maiores de combustíveis fósseis – convencidos de que nossos navios porta-contêineres e os jatos-jumbo tinham nivelado do mundo, que nós éramos como deuses – os gases do efeito estufa estavam se acumulando na atmosfera e, implacavelmente, retendo o calor.
E agora somos confrontados com a realidade de que nunca fomos os mestres, nunca fomos os chefes – e que estamos desencadeando forças naturais que são muito mais poderosas do que até mesmo as nossas máquinas mais engenhosas. Nós podemos nos salvar, mas apenas se abrirmos mão do mito da dominação e do domínio, e aprendermos a trabalhar com a natureza – respeitando e aproveitando a sua capacidade intrínseca de renovação e regeneração.
E isso nos leva à mensagem central da interligação no cerne da encíclica. O que as alterações climáticas reafirmam – para aquela minoria da espécie humana que já se esqueceu disso – é que não há uma espécie de relação unidirecional de pura mestria na natureza. Como escreve o Papa Francisco, "nada deste mundo nos é indiferente".
Para alguns que veem a interligação como um rebaixamento cósmico, tudo isso é demais para se suportar. E assim – ativamente encorajados pelos atores políticos financiados pelos combustíveis fósseis – eles optam por negar a ciência.
Mas isso já está mudando com as mudanças climáticas. E provavelmente vai mudar mais com a publicação da encíclica. Isso poderia significar um problema real para os políticos norte-americanos que estão contando com o uso da Bíblia como cobertura para a sua oposição à ação climática. A esse respeito, a viagem do Papa Francisco aos Estados Unidos, em setembro, não poderia vir em melhor hora.
No entanto, como a encíclica sublinha com razão, a negação assume muitas formas. E há muitos, ao longo do espectro político e ao redor do mundo, que aceitam a ciência, mas rejeitam as difíceis implicações da ciência.
Eu passei as duas últimas semanas lendo centenas de reações à encíclica. E, embora a resposta tenha sido extremamente positiva, notei um tema comum entre as críticas. O Papa Francisco pode estar certo em relação à ciência – ouvimos – e até mesmo em relação à moral, mas deveria deixar a economia e a política para os especialistas. Eles são os únicos que sabem sobre o comércio de carbono e a privatização da água – dizem-nos – e como efetivamente os mercados podem resolver qualquer problema.
Eu discordo com força. A verdade é que chegamos a este lugar perigoso em parte porque muitos desses especialistas econômicos fracassaram muito conosco, empunhando as suas poderosas habilidades tecnocráticas sem sabedoria. Eles produziram modelos que escandalosamente deram pouco valor à vida humana, particularmente às vidas dos pobres, e deram um valor descomunal à proteção dos lucros das empresas e ao crescimento econômico.
Esse sistema de valores distorcido é o modo pelo qual acabamos chegando aos mercados de carbono ineficazes, em vez de taxas de carbono fortes, e altos royalties de combustíveis fósseis. Foi assim que acabamos com um alvo de temperatura de dois graus que permitiria que nações inteiras desaparecessem – simplesmente porque os seus PIBs foram considerados insuficientemente grandes.
Em um mundo onde o lucro é consistentemente posto acima das pessoas e do planeta, a economia climática tem tudo a ver com ética e moral. Porque, se concordamos que pôr a vida na Terra em perigo é uma crise moral, então cabe a nós agir em consequência.
Isso não significa arriscar o futuro nos ciclos de crescimento e queda do mercado. Isso significa políticas que regulem diretamente quanto carbono pode ser extraído da Terra. Isso significa políticas que nos façam ter 100% de energia renovável em duas a três décadas – e não até o fim do século. E isso significa alocar recursos comuns e compartilhados – como a atmosfera – com base na justiça e na equidade, não na lógico "os vencedores levam tudo".
É por isso que um novo tipo de movimento climático está emergindo rapidamente. Ele se baseia na verdade mais corajosa expressada na encíclica: que o nosso atual sistema econômico está alimentando a crise climática e ativamente nos impedindo de tomar as ações necessárias para impedir isso. Um movimento baseado no conhecimento de que, se não quisermos uma mudança climática descontrolada, então precisamos de uma mudança de sistema.
E, como o nosso sistema atual também está alimentando uma desigualdade cada vez maior, temos uma chance para enfrentar o desafio climático, para resolver várias crises que se sobrepõem de uma só vez. Em suma, podemos mudar para um clima mais estável e uma economia mais justa, ao mesmo tempo.
Esse entendimento crescente é a razão pela qual vocês está vendo algumas alianças surpreendentes e até improváveis. Como, por exemplo, eu no Vaticano. Como sindicatos, grupos indígenas, religiosos e ambientalistas trabalhando mais próximos do que nunca.
Dentro dessas coalizões, não concordamos sobre tudo – não mesmo. Mas entendemos que o que há em jogo é tão importante, que o tempo é tão curto e que a tarefa é tão grande que não podemos nos dar ao luxo de permitir que essas diferenças nos dividam. Quando 400 mil pessoas marcharam pela justiça climática em Nova York, em setembro passado, o slogan era "Para mudar tudo, precisamos de todos".
"Todos" inclui as lideranças políticas, é claro. Mas, depois de ter participado de muitos encontros com os movimentos sociais sobre a cúpula COP em Paris, eu posso relatar isto: há uma tolerância zero para mais um fracasso que possa ser travestido de sucesso diante das câmeras. Até mesmo uma semana depois, quando esses mesmos políticos estarão de volta para perfurar em busca de petróleo no Ártico e para construir mais rodovias e pressionar por novos acordos comerciais que dificultem ainda mais regular os poluidores.
Se a negociação fracassar no sentido de promover reduções às emissões imediatas, proporcionando um apoio real e substancial para os países pobres, então ela será declarada um fracasso. Como deveria ser.
O que devemos sempre lembrar é que não é tarde demais para sair da perigosa estrada em que estamos – que nos leva rumo a quatro graus de aquecimento. De fato, ainda poderíamos manter o aquecimento abaixo de 1,5 grau, se fizéssemos disso a nossa principal prioridade coletiva.
Seria difícil, com certeza. Assim como foi difícil o racionamento e as conversões industriais que já foram feitos em tempos de guerra. Assim como eram ambiciosos os programas antipobreza e de obras públicas lançados no período posterior à Grande Depressão e à Segunda Guerra Mundial.
Mas "difícil" não é o mesma coisa que "impossível". E desistir diante de uma tarefa que poderia salvar inúmeras vidas e evitar tanto sofrimento – simplesmente porque é difícil, caro e exige sacrifício por daqueles dentre nós que mais podem se dar ao luxo de viver com menos – não é pragmatismo.
É uma rendição do tipo mais covarde. E não há nenhuma análise custo-benefício no mundo que seja capaz de justificar isso.
* * *
"Não deixem que o 'perfeito' seja inimigo do 'bom'."
Temos ouvido essas palavras supostamente de pessoas sérias por mais de duas décadas. Durante todo o tempo de vida dos jovens ativistas climáticos de hoje.
E todas as vezes em que uma cúpula da ONU fracassa ao entregar políticas corajosas, juridicamente vinculantes e com base científica, polvilhando promessas vazias de ajudas monetárias reformuladas, nós ouvimos essas palavras novamente.
"Claro que não é o suficiente, mas é um passo na direção certa." "Faremos o trabalho mais difícil da próxima vez." E sempre: "Não deixem que o perfeito seja inimigo do bom."
Isso – é preciso dizê-lo no interior destas paredes sagradas – é puro absurdo. O "perfeito" perdeu o trem em meados da década de 1990, depois da primeira Cúpula da Terra do Rio.
Hoje, temos apenas duas estradas à nossa frente: a "difícil embora humano" e a "fácil embora repreensível".
Aos nossos chamados líderes que preparam as suas promessas para a COP 21 em Paris, tirando o batom e os saltos altos para se vestirem para outra negociação ruim, eu tenho que dizer isto: leiam a encíclica real – e não os resumos, mas a coisa toda.
Leiam-na e deixem-na entrar nos seus corações. A tristeza diante do que já perdemos e a celebração do que ainda podemos proteger e ajudar a florescer.
Ouçam, também, as vozes das centenas de milhares de pessoas que estarão nas ruas de Paris, do lado de fora da cúpula, reunidos simultaneamente em cidades ao redor do mundo.
Desta vez, eles vão estar dizendo mais do que "precisamos de ação". Eles vão estar dizendo: nós já estamos agindo.
Nós somos as soluções: nas nossas demandas de que as instituições renunciem às suas participações em empresas de combustíveis fósseis e as invistam nas atividades que irão reduzir as emissões.
Nos nossos métodos de agricultura ecológica, que dependem menos dos combustíveis fósseis, fornecem alimentos e trabalho saudáveis e retiram carbono.
Nos nossos projetos de energia renovável localmente controlados, que estão diminuindo as emissões, mantendo os recursos nas comunidades, reduzindo os custos e definindo o acesso à energia como um direito.
Na nossa demanda por um transporte público confiável, acessível e até mesmo gratuito, que vai nos tirar de dentro dos carros que poluem as nossas cidades, congestionam as nossas vidas e nos isolam uns dos outros.
Na nossa insistência intransigente de que vocês não podem se chamar líderes climáticos enquanto estiverem abrindo novas e vastas faixas de mar e de terra para a exploração de petróleo, o fracking do gás e a mineração de carvão. Temos de deixar tudo isso onde está, no chão, na terra.
Na nossa convicção de que vocês não podem se chamar de democracia, se estiverem em dívida com os poluidores multinacionais.
Em todo o mundo, o movimento de justiça climática está dizendo: vejam o belo mundo que se encontra do outro lado da política corajosa, cujas sementes já estão dando grandes frutos para qualquer pessoa que se importe em olhar.
Então, parem de fazer do "difícil" o inimigo do "possível".
E unam-se a nós para fazer do "possível" real.
in: Instituto Humanitas Unisinos, 03 de julho de 2015.
Publicamos aqui o discurso da ativista canadense Naomi Klein, publicada no sítio da Santa Sé, 01-07-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Laudato Si' e a mão invisível que sufoca a vida - Ricardo Machado, jornalista e mestre pelo PPG em Comunicação da Unisinos.

Levei mais de 31 anos para ler uma Encíclica papal, e comecei com a Laudato Si’. Ao concluir a leitura, de um fôlego só, sinto-me diante de uma espécie de ode ao Outro, ao reconhecimento das singularidades da vida (não somente humanas) como uma potência da materialização divina e que, portanto, exige compaixão. Porém, antes apresentar as demais considerações, preciso ressaltar que não sou católico, nem cristão na acepção religiosa do termo (embora tente seguir a perspectiva humanista de Jesus).
Minha ignorância (no sentido da Grécia Antiga, a-gnostos), em vez de levar-me aos mistérios do deus judaico-cristão, tornou-me agnóstico. Não se trata de preguiça, ao contrário, é um esforço que no meu caso jamais gerou resposta, senão inúmeras e irrespondíveis perguntas. Minha voz, logo, é marginal. Eu sou o Outro, o estrangeiro. Eu e a Igreja somos, na mesma medida, estrangeiros um ao outro.
Dinâmica textual
No que se refere à dinâmica textual do documento apostólico, Laudato Si' é um exercício redacional muito sofisticado. Bergoglio é cuidadoso ao se expressar, postura que fica evidenciável sempre que se pronuncia publicamente. Sua Encíclica se desdobra em 246 parágrafos e duas orações. Constrói cada um deles de forma concisa e contundente, cuja fluidez narrativa disfarça um extremo cuidado na formulação das frases. Não há excessos, tampouco sobras. As primeiras frases sempre apresentam o ponto central a ser discutido no parágrafo e agenciam a mensagem. É um texto preciso.
Universo
Foram necessários aproximadamente 15 bilhões de anos para que o universo (talvez multiverso) alcançasse o estágio atual, processo resultante de um momento inicial de fusão da poeira estrelar que deu origem aos componentes químicos que formam os seres humanos e tudo o mais que há de natural na face da terra. Ainda que Francisco não retome, objetivamente, a Teoria do Big Bang na Encíclica, ele lembra que Deus é trino (portanto relacional) e nos convida a pensar na nossa relação com todas as formas de vida e no vagar misterioso de cada uma delas.
“O universo não apareceu de uma onipotência arbitrária, de uma demonstração de força ou de um desejo de autoafirmação. A criação pertence à ordem do amor”, (LS, 77). O amor, antes de tudo, é (ou deveria ser) uma relação dialética de reconhecimento (semelhança) e estranhamento (alteridade). Reconhecer o Outro implica ter dimensão da complexidade do Universo.
A mão invisível
A mais maldita herança do racionalismo judaico-cristão, imanentizado na modernidade pelo soberano do Estado, é a ideia vulgar de um ser todo poderoso que domina tudo e todos. Esta vertente racional desemboca, na aurora do século XXI, no paradigma tecnocrático – e no tecnoeconomicismo - das relações contemporâneas, que se desenvolve à luz de um “antropocentrismo desorientado”, como classifica Bergoglio.
Essa ideia de que há algo onipotente, a quem (ou a que) devemos cega obediência e que é capaz de gerir todas as formas vidas, fez emergir a “mão invisível” que sufoca as vidas e permite a vazão de toda a sorte de barbárie e do crime organizado (inclusive o de Estado e o da iniciativa privada). Em contrapartida todos conhecemos, mas fingimos não ver (eis a Crise Ecológica), a face horrorosa desta dinâmica, isto é, a dor dos miseráveis, dos imigrantes, das crianças exploradas sexualmente, dos idosos, dos animais, da riqueza biológica e da atmosfera, em última medida, que sentem seus corpos desfalecerem pelo sufocamento do mercado.
A cultura do relativismo é a mesma patologia que impele uma pessoa a aproveitar-se da outra e tratá-la como mero objeto. (…) É também a lógica interna daqueles que dizem: 'Deixemos que as forças invisíveis do mercado regulem a economia, porque os seus efeitos sobre a sociedade e a natureza são danos inevitáveis’”, (LS, 123) critica Bergoglio.
A casca de Noz
Frente tamanho desafio, desde uma perspectiva cujo paralelismo observacional se encontra com o paradigma da complexidade de Edgar Morin, o Papa propõe uma Ecologia Integral. Neste terreno da teoria teológica que exige ferramentas conceituais que não disponho, me furto às reflexões, pois estas já foram tratadas de forma mais produtiva por especialistas da área.
No entanto, retomo o paradigma da física quântica, cuja sensibilidade me é mais próxima. Assim, talvez, a síntese mais vulgar que se possa fazer da Laudato Si' é interpretá-la como um manifesto à preposição “e”, que deve substituir a ideia do racionalismo newtoniano – e moderno – que interpreta o mundo a partir da lógica do “ou”, que invés de propor uma abertura às relações, à complexidade, fecha-se no individualismo cartesiano.“Quando as pessoas se tornam autorreferenciais e se isolam na própria consciência, aumentam sua voracidade”, (LS, 204) reflete Bergoglio.
Outro sujeito de capacidade textual igualmente brilhante, chamado Stephen Hawking, parafraseou Shakespeare, em seu livro o Universo na casca de noz (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009), ao lembrar de uma cena não publicada em Hamlet em que o personagem diz: “Eu poderia viver numa casca de noz e ainda assim me sentir o dono do universo”.
Eis a Laudato Si', eis o convite à reflexão proposto por Francisco. Caberá a nós quebrarmos a casca da noz ou seguirmos isolados na lógica assassina de não reconhecimento ao Outro.

in Instituto Humanitas Unisinos, 03 de julho de 2015.